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“Na Pele”: a crise pelo olhar de Paulete Matos

Exposição inaugurada nesta quinta-feira é um retrato, nas ruas, do Portugal da crise, da recessão, da depressão espelhada no rosto das pessoas. É o país dos excluídos, da desesperança, da falta de confiança no futuro. É a crise que (quase) todos sofrem na pele.
São 32 fotografias que têm de ser contempladas, esquadrinhadas, saboreadas. Todas elas dizem mais do que aquilo que o primeiro olhar revela. Uma das fotos da exposição, de Paulete Matos

O fotógrafo Gérard Castello Lopes costumava dizer que a fotografia é uma forma de ficção. E explicava: “É ao mesmo tempo um registo da realidade e um auto-retrato, porque só o fotógrafo vê aquilo daquela maneira.”

Tive muitas vezes o privilégio de acompanhar a Paulete em longos passeios, incursões pelas ruas de um dos seus cenários de fotografia favoritos: a Baixa lisboeta. Foi nessas caminhadas que aprendi em profundidade que fotografar não é simplesmente registar uma realidade preexistente. A fotografia é um olhar, e depende desse olhar. O fotógrafo faz ficção, porque só ele vê daquela maneira o objeto da sua arte .

Ao lado da Paulete, nesses passeios, eu era um cego. Por mais que me esforçasse, não via nada do que o olhar dela apreendia. Por isso, quando contemplava o resultado que ela obtivera dos nossos passeios, o que encontrava era, como dizia Castello Lopes, um auto-retrato da Paulete. Ter como colega e amiga uma fotógrafa como ela é um privilégio. Um pouco dessa regalia, de que toda a equipa do Esquerda.net goza, é agora partilhada com o público na exposição “Na Pele”, inaugurada no espaço Mob nesta quinta-feira às 19 horas, e que estará aberta à visita até o dia 8 de junho.

“Na Pele” é um retrato, nas ruas, do Portugal da crise, da recessão, da depressão espelhada no rosto das pessoas. É o país dos excluídos, da desesperança, da falta de confiança no futuro. É a crise que (quase) todos sofrem na pele. “Os olhares perdidos, as expressões marcadas, corpos que se arrastam no desalento. Os espaços comerciais que fecham em ruas cada vez mais fantasmas, num cenário soturno e sombrio. Este é um documento de um tempo que vivemos que importa olhar e refletir” – diz-se na apresentação da exposição.

Uma multidão de rostos que nos refletem

Para o escritor José Luís Peixoto, que escreveu a introdução à exposição:

“Estamos aqui, acompanhados por uma multidão de rostos que nos refletem. Existimos com eles. Tentam enganar-nos quando querem fazer-nos crer que estamos sozinhos, que podemos ser felizes sozinhos.

Dependemos uns dos outros. A frustração, a falta de esperança propagam-se com muita facilidade, transmitem-se pelo olhar.

A arte pergunta-nos sempre quem somos e quem queremos ser. As fotografias da Paulete Matos também são assim, são janelas para este tempo que nos rodeia.

Quando a arte se esquecer das pessoas é porque se esqueceu de si própria.”

São 32 fotografias que têm de ser contempladas, esquadrinhadas, saboreadas. Todas elas dizem mais do que aquilo que o primeiro olhar revela. Todas elas expõem o que vai na alma da fotógrafa, a sua capacidade de ver a crise pelo prisma dos excluídos, dos seus amigos de rua – que tem muitos e são cúmplices da sua arte.

A Paulete Matos é muito renitente a fazer exposições. Mais um motivo para não perder “Na Pele”. Nesta quinta-feira, por isso, o espaço Mob foi pequeno para receber tanta gente – amigos, camaradas, jornalistas, fotógrafos, jovens e menos jovens irmanados pela admiração por esta grande artista que detesta o estrelato.

Na Pele” pode ser visitada no espaço Mob – Travessa da Queimada, 33 – Bairro Alto, Lisboa, de quarta a sábado das 21h às 2h da manhã, até o dia 8 de junho.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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