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Europa mergulha numa recessão mais longa que a de 2008-2009

A zona euro encontra-se na sua mais longa recessão, superando inclusive as calamidades do período 2008-2009, depois do estalar da crise. Nove dos 17 países que utilizam o euro encontram-se em recessão, e se a Alemanha continuar a sua linha descendente em julho poderemos estar a falar de 10 ou mais países em recessão. Por Marco Antonio Moreno

Já tínhamos advertido em fevereiro1: A Europa afunda-se na recessão 2. E os dados divulgados a 15 de maio pelo Eurostat assim o confirmaram. A Europa continua num túnel negro, e tudo indica que a situação continuará em baixa. Apesar de normalmente ser dada prioridade à variação trimestral, interessa mais a variação dos últimos 12 meses. E estes dados dão conta que a Alemanha (como mostra o gráfico), completou a sua primeira queda trimestral. Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, Itália, França, Alemanha e outros países encontram-se com taxas de crescimento negativas. Isto não dá bons augúrios para a resolução dos problemas derivados da crise, mas são um claro alerta do seu aprofundamento.

De acordo com os dados do Eurostat, a zona euro encontra-se na sua mais longa recessão, superando inclusive as calamidades do período 2008-2009, depois do estalar da crise. Nove dos 17 países que utilizam o euro encontram-se em recessão, e se a Alemanha continuar a sua linha descendente em julho poderemos estar a falar de 10 ou mais países em recessão.

Conquanto a variação intertrimestral (janeiro-março de 2013 com outubro-dezembro de 2012) indique uma contração de 0,2 por cento, a variação interanual (primeiro trimestre de 2013 com primeiro trimestre de 2012) indica uma queda de 1 por cento da zona euro. É o sexto trimestre consecutivo de queda nos países europeus (ver gráfico), e não existe nenhuma alternativa real de saída da crise. As políticas monetárias fracassaram dado que só têm sido um salva-vidas para o sistema financeiro (precisamente o culpado e criador da crise), e os cortes e planos de austeridade têm impedido a recuperação da política fiscal. Por outro lado, os altos níveis de corrupção política deixaram os países no des-governo, à espera de que uma instância supra-nacional tome as rédeas de uns “Estados Unidos de Europa”, facto que pode demorar no mínimo 2 anos.

A zona euro enfrenta o duplo golpe da necessária reestruturação das suas economias internas e o dececionante crescimento que vive o comércio mundial. Todos os dados indicam que as importações estão em queda, impulsionadas pela contração que começam a sofrer os países emergentes. Esta queda afeta os países produtores como a Alemanha, que vê perigar o seu domínio industrial. Por isso, o primeiro trimestre de 2013 marca o seu definitivo ingresso na zona de catástrofe, que tantas vezes frau Merkel tem negado.

Esta é uma consequência direta das medidas de austeridade impostas pela Troika, que têm causado severos transtornos económicos e um profundo mal-estar social ao atingir taxas de desemprego de nível histórico, como as que afetam Espanha e Grécia. As más notícias não são um exclusivo dos 17 países da zona euro, dado que se propagam aos 27 países da União Europeia. O Reino Unido e a Polónia também entraram em recessão e a UE no seu conjunto sofreu uma queda de -0.7 por cento no primeiro trimestre de 2013.

Com uma população de mais de 500 milhões de pessoas, a União Europeia é o maior mercado de exportação do mundo e isto indica que a sua queda afeta as empresas de Estados Unidos, Ásia, China e países emergentes. A título de exemplo, a norte-americana Ford Motor Company perdeu no mês passado 462 milhões de dólares e declarou que as perspetivas da Europa são incertas. O mesmo aconteceu com a cadeia de hambúrgueres McDonald, que sofreu uma queda de 1,2 por cento nas suas vendas no primeiro trimestre.

A contração que a Europa sofre contrasta com a expansão de 2,5 por cento dos Estados Unidos, o crescimento de 7,9 por cento da China, e o crescimento de 3,5% do Japão nos últimos 12 meses, dado conhecido a 16 de maio de 2013. A diferença que existe entre estas situações é que enquanto Estados Unidos, China e Japão mantiveram os planos de estímulo para ativar a economia, os países europeus concentraram-se na austeridade e nos cortes orçamentais, propagando mais o desemprego, a queda da procura, o encerramento de empresas e novos aumentos do desemprego.

Ao mesmo tempo, o Banco Central Europeu não tem sido um bom aliado e ainda que este mês tenha baixado a taxa de juro para a deixar no seu mínimo histórico de 0,5 por cento, ainda pesam as subidas sucessivas e injustificáveis de Jean-Claude Trichet. A zona euro continuará em recessão no segundo trimestre e se houver crescimento na segunda metade do ano, ele não será significativo. A Europa caminha para uma década perdida muito similar à do Japão, com um perigoso ziguezague em torno de um crescimento zero. A Troika não acertou nas suas decisões e nos seus absurdos planos de austeridade e consolidação fiscal, que só aceleraram o desemprego para os níveis nunca vistos que hoje existem. Por isso, a situação de hoje é mais grave que a de 2008, e ao mesmo tempo muito mas obscura uma vez que se esgotaram os instrumentos de política convencionais e não se vê nenhum plano de ação que ajude a conter o processo de demolição que sofre a economia mundial.

Artigo de Marco Antonio Moreno, publicado em El Blog Salmón Tradução de Carlos Santos para esquerda.net


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