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Entre duas cumeadas

Há pouco tempo atrás no âmbito de um trabalho de campo, conheci uma aldeia completamente abandonada.

Situa-se num vale entre duas cumeadas com um único acesso de terra batida. Percorrer as ruas do lugarejo, espreitar pelas janelas de vidros sujos para o interior das casas, espreitar as adegas, os currais, é sentir o passado. É desolador ver a degradação das casas. Estas parecem fantasmas que gritam a ausência dos que ai habitaram. Portas escancaradas, cadeiras alinhadas, vidros partidos... nem sei há quantos anos isto permanece mudo no meio das teias de aranhas.

Enquanto deambulava por este espaço vazio surgiu um senhor idoso de feições carregadas e voz cansada. Era um antigo habitante daquela aldeia, o único que foi ficando e que ao ver todos os seus vizinhos e amigos partirem acabou por ir viver para a aldeia vizinha na companhia de familiares.

Com a ajuda do Sr. Joaquim fiquei a conhecer a história da aldeia. Rica em património natural e construído, dependia sobretudo de uma economia de subsistência. O único meio que os habitantes tinham para juntar algum dinheiro era através da exploração da resina e na venda de alguns animais. A dar voz ao Sr. Joaquim, o dinheiro era preocupação menor em comparação com os rigores do clima, das visitas dos lobos que dizimavam as cabras, dos ladrões de gado… em fim, problemas de um mundo rural antiquado. A voz da imigração foi mais forte e muitos partiram. Os que ficaram com o avançar da idade tiveram que abandonar aquele local.

Quando visitei a aldeia depressa me apercebi que a ruína e a degradação demonstravam que o processo de abandono contava já alguns anos. Os campos, outrora agrícolas estavam abandonados, ainda que algumas árvores e plantas teimassem todos os anos em florir e dar fruto. Os caminhos repletos de ervas e quase intransponíveis formavam um tapete verde na paisagem. As únicas coisas que davam sinais de vida naquela aldeia eram a fonte comunitária que de inverno e de verão jorrava água incansavelmente e a capela caiada de branco com o seu cruzeiro.

O Sr. Joaquim ia balbuciando que gostaria que um dia a aldeia voltasse a ter vida, voltasse a sentir-se a voz dos homens e dos animais.

Isto foi há dois anos. O sonho do senhor Joaquim está a cumprir-se.

Há poucos dias revisitei a aldeia e eis que uma família e alguns amigos juntaram esforços e estão a recuperar a aldeia. Os caminhos começam a ficar limpos, os telhados das casas consertados. A vida voltou. Há crianças a brincar nos campos, há cabras e burros que ajudam a limpar os campos, as hortas já produzem bens essenciais.

Não se pense que é a visão romântica da vida, o retorno ao paraíso. Esta família trabalha arduamente para dar vida e sentido a um espaço rural que muitos pensavam ser impossível aí viver.

Apesar de não ser uma opção para praticamente ninguém este é um projeto de vida que deve ser respeitado, que não muda o mundo mas muda um lugar.

Sobre o/a autor(a)

Animador Sociocultural
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