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Praias portuguesas têm cada vez menos areia

Adriano Bordalo e Sá, investigador do Instituto Abel Salazar, alerta que as praias portuguesas têm cada vez menos areia, devido à construção paralela à costa e, sobretudo, devido às barragens. O investigador salienta que só as mais de 50 barragens do rio Douro tiram à costa mais de 1,5 milhões de toneladas de areia, em cada ano.
Praias portuguesas têm cada vez menos areia, devido à construção paralela à costa e, sobretudo, devido às barragens - Foto da Praia da Cortegaça (wikimedia)

Adriano Bordalo e Sá, hidrobiólogo do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) da Universidade do Porto, diz à agência Lusa que as barragens “interrompem o caudal natural da água, mas também dos sedimentos” e que, “ao contrário do que tentam vender, a hidroeletricidade não é verde".

O hidrobiólogo diz que para além das barragens a construção paralela à costa é a outra responsável pela erosão costeira. “É condição do estatuto ter uma vista para o mar, isto conduziu à urbanização, muitas vezes sem regras claras, ao arrepio dos planos de ordenamento. As casas estão construídas paralelamente à costa, bastava colocá-las transversalmente e podia-se minorar os problemas de erosão por interferir menos com os ventos”, frisa. Adriano Bordalo e Sá diz que além destes dois fatores também a agricultura em dunas antigas, que ainda se pratica nalgumas zonas, e a extração de inertes dos rios provocam erosão da costa.

Segundo o especialista do Instituto Abel Salazar, só as barragens do Douro, mais de 50, tiram mais de 1,5 milhões de toneladas de areia à costa, em cada ano. “O rio Douro tem na sua bacia hidrográfica em Portugal e em Espanha mais de 50 barragens. Há 60 anos estima-se que a quantidade de areia transportada era na ordem dos dois milhões de toneladas por ano e agora, 60 anos depois, com mais de 50 grandes barragens, o caudal sólido está reduzido a 250 mil toneladas. Falta-nos areia vinda de terra para o mar”, salienta o hidrobiólogo.

Além dos fatores humanos há ainda fenómenos naturais que causam erosão da costa, como a ondulação de inverno.

“O resultado final destes fenómenos naturais e provocados pelo homem é termos 60% da linha de costa do norte de Portugal em risco, 52% na zona centro, alguma no Algarve e muito pouco, para já, no Alentejo”, afirma Adriano Bordalo e Sá.

Segundo o hidrobiólogo, as praias portuguesas têm “efetivamente uma situação de risco” e algumas podem desaparecer. E exemplifica com a praia do Furadouro, em Ovar, que perde nove metros por ano, a da Cortegaça, também em Ovar, que perde três metros por ano e a da Costa Nova, em Aveiro, que perde oito metros por ano. O especialista deu ainda, em declarações à TSF, o exemplo de “uma praia urbana, uma praia de bandeira azul em Gaia, Lavadores, não tem areia”.

Adriano Bordalo e Sá critica as medidas dos vários governos que “têm tido uma atitude muito menos proativa e muito mais reativa” e realça que, em termos ambientais, “esta abordagem normalmente não colhe resultados e as consequências podem ser dramáticas”. Para o especialista, não é solução descarregar camiões e camiões cheios de areia nas praias, porque o mar vai voltar a levar a areia.

Para contrariar a erosão costeira, Adriano Bordalo e Sá defende a demolição das construções feitas em locais inapropriados. “É preciso ter a coragem de atuar de forma a proteger o bem comum, mesmo em detrimento do bem particular. Porque é tudo uma questão de tempo. Muitas das urbanizações construídas, se não forem demolidas para proteção da zona costeira, o mar vai encarregar-se de o fazer numa questão de anos”, realça.

Adriano Bordalo e Sá defende ainda que as barragens deviam fazer descargas de fundos, mas reconhece que isso “pressupõe a perda de volumes consideráveis de águas e as empresas que exploram as barragens não estão dispostas a isso”.

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