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Islândia, e agora? (2)

Há mais de um ano escrevi neste sítio um apontamento com este título. Infelizmente, as eleições parlamentares da Terra do Gelo deste sábado (26 de abril) impõem-me a atualização das conclusões que então tirei e que já indiciavam o desastre do governo.

Primeiro, os resultados reconduzem os conservadores ao poder, mediante uma coligação com outro partido de direita. A defunta coligação de governo, que se dizia de esquerda, perdeu mais de metade dos votos, tanto o partido social-democrata da derrotada primeira-ministra, como o movimento esquerda verde do odiado ministro das finanças. Estreiam-se no parlamento um pequeno partido centrista pró-europeu e outro da gama dos partidos "piratas". Logo depois, a maioria vitoriosa confirmou a sua pertença à NATO e interrompe a adesão em marcha à União Europeia.

A pergunta da inocência é a de saber o que levou o povo a devolver o governo ao partido da Independência (conservadores) que liberalizou o setor financeiro, fechou os olhos aos tóxicos dos bancários e dirigia o país quando ocorreu a bancarrota da Islândia em 2008? Como se sabe, os bancos tinham ativos tóxicos em valor superior a 10 vezes o produto islandês e caíram como um castelo de cartas na crise financeira global que teve início em Wall Street no mesmo ano. Os social-democratas (colegas do PS na internacional Socialista) esconderam as suas responsabilidades por serem parceiros minoritários desse governo.

Por que motivo ganhou crédito a promessa eleitoral da direita de que iria renegociar e baixar juros e montantes dos empréstimos para casa própria? É preciso ver que a maioria da população sufoca com as hipotecas.

Basta olhar para o balanço desse executivo. Antecipou o pagamento do empréstimo ao FMI, apesar da austeridade que aplicou sobre o seu povo, cortando nos serviços públicos. Pôs a população que contraiu crédito à habitação a recapitalizar os bancos renacionalizados e falidos, através de prestações crescentes indexadas à inflação, ao mesmo tempo que se procedia à desvalorização dos salários. Em dois referendos o povo disse claramente que não se devia pagar à Inglaterra e à Holanda indemnizações pela falência do banco ICESAVE, onde muitos ingleses e holandeses perderam poupanças, atraídos por esquemas especulativos de alto retorno, e que entretanto os seus países compensaram parcialmente o prejuízo aos depositantes.

O governo opôs-se, sem êxito, aos referendos convocados pelo presidente da república que para tal tinha prerrogativa, e desrespeitou a vontade popular pagando grande parte das indemnizações, por meios ínvios, aos outros estados. O mais extraordinário é que, inesperadamente e depois de sinais diferentes na instrução do processo, o tribunal da EFTA, decidiu sem apelo possível dar razão às pretensões islandesas de não pagar. Também os interesses privados sobre os recursos naturais, minerais e piscatórios, geraram várias confusões nas hostes governamentais apesar do movimento popular pela sua defesa em mãos públicas. Bem podem os derrotados invocar taxas de crescimento da economia. O povo castigou o programa de empobrecimento e a falta de respeito democrático.

A iniciativa dos social-democratas e dos verdes de levar a julgamento o anterior primeiro-ministro Geir Hardie revelou-se, como previsto, uma farsa. Foi absolvido de todas as acusações de cumplicidade e negligência na bancarrota financeira, reprovaram-lhe falta de informação a todos os ministros, só por piada. O governo foi intimado até a pagar as custas judiciais...

O parlamento, agora dominado pela direita, tem na sua alçada um projeto de Constituição e decidirá se pega no texto já referendado pelo povo, mas abaixo de 50% de participação, e o que lhe faz. Provavelmente, irá enfraquecer as proteções públicas aos recursos naturais. Note-se que no atual texto da proposta de Constituição já se admite expressamente o modelo de concessões a privados, como se quer fazer em Portugal para a água e para o mar. O projeto foi muito incensado por ser uma experiência quase de democracia direta mas o resultado traduz-se num retrocesso constitucional no que se refere ao estado social.

Neste contexto, percebe-se o castigo popular. E também a tentativa de cobrar aos autores a promessa de melhorar os termos do crédito hipotecário. O ceticismo parece ser geral, apesar da forte ida às urnas de mais de 80% dos votantes nestas eleições. A erosão dos partidos tradicionais conduz ao pseudo voto utilitário em opções que não se distinguem no quotidiano das gentes. A emergência no parlamento do partido dos piratas, sem programa, é a contraprova desse fenómeno.

O artigo que publiquei no “Esquerda”, e a que fiz referência no começo destas linhas, apesar de a vida revelar a sua sintonia com a realidade, mereceu na altura vários reparos e até críticas contundentes. Todas vindas do mesmo setor de opinião: daqueles que julgam que com austeridade ligth há meias vitórias da esquerda. O destroço do governo de Prodi, que remeteu a Rifondazione para o acelerador de partículas, já tinha demonstrado a falsidade desse esquema em Itália.

O caso islandês, mais uma vez condena o centrismo e deixa a Esquerda Verde num limbo sem estratégia nenhuma: nem corre por dentro nem corre por fora, está desclassificada da coisa. Há lições básicas que convém não esquecer. Um governo de Esquerda só pode fazer jus ao seu nome, não cumpre o memorando do FMI mas rejeita-o e renegocia a dívida e retoma investimento público, não aceita programas de austeridade, nacionaliza bens comuns, valoriza o trabalho e taxa o capital. Como defende o Bloco.

Fica o alerta a todos aqueles que acham que a saída do euro pode fazer prodígios. A desvalorização em 85% da coroa em relação ao euro mostrou não ser alternativa só por si, as exportações islandesas crescem devido ao investimento estrangeiro em detrimento do rendimento interno da Islândia e do seu povo.

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Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, professor.
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