You are here

A dívida pública é um flagelo para o crescimento económico?

Ninguém parece levar em conta o problema da dívida privada, que essa sim é o grande flagelo da economia. Nunca a dívida pública gera as crises financeiras. É a excessiva dívida privada que causa as crises. Por Marco Antonio Moreno, El Blog Salmón

O desemprego e a crise, tal como advertíamos há cinco anos, não param de aumentar. As políticas têm sido ineficazes para contrariar a letargia do ciclo económico e os planos de austeridade não fazem outra coisa senão potenciar o desastre. Por defenderem o indefensável, por apelarem às políticas mais toscas de uma ideologia que morre no descrédito e na falta de razão, temos o que temos: o maior nível de desemprego da história e nada impedirá que se aproxime dos 30 por cento no fim do ano.

Entretanto, o debate sobre se a dívida pública é ou não prejudicial ao crescimento económico continua em pleno desenvolvimento. Em Voxeu.org foi publicado ontem um interessante artigo de Ugo Panizza e Andrea Presbitero, Public debt and economic growth, one more time, A dívida pública e o crescimento económico, uma vez mais. Panizza e Presbitero aprofundaram este tema num documento publicado em abril de 2012 que procurava estabelecer se existe ou não uma relação causal entre a dívida pública e o crescimento.

Diferente de Reinhart e Rogoff, que assinalam que a existência de uma correlação negativa entre dívida e crescimento permite estabelecer uma relação causal direta entre dívida e crescimento económico negativo, Panizza e Presbitero advertem que a relação dívida/crescimento é bem mais complexa, dado que existem numerosas variáveis que diferem de país em país e de momento em momento, que podem levar a diferentes resultados. Uma coisa é que exista uma correlação entre dívida e crescimento, mas isso não basta para inferir uma relação de causalidade e muito menos para especificar um umbral determinado, como fazem Reinhart e Rogoff com a valor dos 90 por cento. Além disso, é a dívida que trava o crescimento, ou é o fraco crescimento que faz cair as receitas e eleva a dívida?

De acordo com os dados de Minea e Parent e Baglan e Yoldas, não existe nenhum fundamento na estimativa desse umbral “mágico” de 90% que propõem Reinhart e Rogoff como o limite pernicioso de dívida pública que instala a um país à beira do “abismo”. A economia dos Estados Unidos, ameaçada constantemente de se situar à beira do “abismo fiscal” é o mais claro exemplo: superou no ano passado os 100 por cento de dívida pública em relação ao PIB e teve um crescimento do seu PIB de 2,2 por cento, bastante longe do prognóstico de Reinhart e Rogoff de uma queda de -0,1 por cento para as economias que superassem esse umbral dos 90 por cento de dívida (ver post anterior).

Longe de existir um abismo fiscal que afunde ainda mais a economia de um país, a verdade é que a relação dívida e crescimento é bastante estável através de diferentes níveis de dívida. Ainda que haja provas de que a dívida se relaciona negativamente com o crescimento, uma correlação não implica causalidade. De facto, a dívida pública da Alemanha é bastante superior à dívida pública espanhola, e enquanto a Alemanha cresce, a Espanha (com uma menor dívida pública) afunda-se no abismo. O problema é que ninguém parece levar em conta o problema da dívida privada, que essa sim é o grande flagelo da economia. Nunca a dívida pública gera as crises financeiras. É a excessiva dívida privada que causa as crises. A inesgotável criação de bolhas especulativas que provocam a euforia e o entusiasmo até que tudo se desmorone pela onda de pânico depois de uma “exceção do mercado”.

Hoje, Reihart e Rogoff publicaram um artigo no New York Times no qual assinalam que o seu trabalho tem sido mal interpretado e que em rigor a causalidade vai em ambas direções, isto é que a dívida prejudica o crescimento e o lento crescimento eleva o endividamento. Asseguram que nunca fizeram um apelo direto à austeridade, e que isso estava longe do objetivo do relatório, dado que a austeridade não funciona sem fazer as reformas estruturais que são necessárias. O mais importante é que afirmam que não existe nenhuma regra que possa ser aplicada por igual e em qualquer momento para um país ou um conjunto de países. Por que então a troika aplicou a receita da austeridade em tábua rasa e sem qualquer contemplação na periferia europeia? Alguém terá de responder a esta pergunta que foi a causa de a Espanha estar à beira de um abismo mais perigoso que o fiscal: a eclosão social que está a criar no seu povo.

26 de abril de 2013

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

Artigos relacionados: 

Termos relacionados Internacional
(...)