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As Matryoshkas e o país das ilusões

Vivemos no país das Matryoshkas, e atrevo-me a dizer, vivemos no mundo das Matryoshkas. Tal não se deve a uma global conversão ao extinto sovietismo, mas antes à escalada da conversão à ilusão.

Poucos saberão que as conhecidas bonecas contam uma história, com origem no seu mais ínfimo pormenor até ao presente. A maior das Matryoshkas representa um resultado final, esquecendo as etapas percorridas, uma aparência final que esconde as metamorfoses que foram necessárias pelo caminho, uma ideia global que esconde todas as que foram necessárias para que visse a luz do dia.

No país das ilusões, contemplamos em demasia a grande Matryoshka; aceitamos ideias grandiosas sem perceber se na realidade há pequenas ideias que o sustentem, procuramos grandes soluções sem antes resolver as pequenas questões, iludimo-nos com o resultado final reluzente, não procurando saber se foi forjado com um metal precioso, ou se é apenas latão abrilhantado.

7 anos correspondem a uma Matryoshka que esconde injustiça social, precariedade e recessão, apresentada com um aspeto colorido e vistoso. O conteúdo, esse é feito de pequenas Matryoshkas nefastas, que envenenam esperanças, expectativas e ambições enquanto os olhos se deleitam no engano.

O Tribunal Constitucional é também uma Matryoshka; uma revolução que ambicionamos, um grito que temos deixado por dizer. Mas não há revolução alguma que subsista sem pequenas Matryoshkas que a preencham. Perduraremos sem qualquer revolução enquanto não fizermos a mais elementar delas: a revolução dentro de cada um de nós.

Deixamos em mãos alheias ações que não se concretizam sem pequenos gestos. Esperamos que nos seja apresentada uma sublime sinfonia mas nem sempre estamos dispostos a tocar qualquer instrumento. Aguardamos um filme de final feliz, sem qualquer disposição para participar na elaboração do argumento ou atuar no palco que é a vida.

Contemplamos a Matryoshka que nos é oferecida, que reluz numa estante, sem querermos sequer desmontá-la, perceber cada pequenina peça que a compõe, cada detalhe das pequenas Matryoshkas. Conformamo-nos a contemplar um resultado final que só pode ser prejudicial ou nefasto, pois é essa a sua génese. A curiosidade dá trabalho, desarruma a imaculada estante, mas é na desarrumação que se encontram novas e melhores formas de decorar a nossa vida, a nossa atualidade, o nosso mundo.

Olhamos para os Sindicatos como uma Matryoshka; depositamos não só a representação de interesses comuns, mas a totalidade da responsabilidade da decisão. Demitem-se os trabalhadores de ser as pequenas Matryoshkas do dia-a-dia, esquecendo que o vento derrubará a maior das Matryoshkas se esta for oca.

Equivocam-se também os Sindicatos por vezes, afastando-se da realidade dos que representam. Esquecem a chantagem diária, a pressão dos olhos de famílias com o sustento em risco, ignorando a tentação de aceitar qualquer migalha ao invés de lutar pela totalidade do pão a que se tem direito.

Enganam-se os criminosos eleitos querendo embelezar a Matryoshka Portugal para que seja cobiçada por todos; a Matryoshka cumpridora, esbelta e perfeita no seu esforço herculano de pagar uma dívida ilegítima. Olvidam que mesmo as cores mais vivas e a maquilhagem mais espampanante esbatem perante as lágrimas das pequenas Matryoshkas que somos todos nós; as lágrimas derramadas por direitos perdidos, por um empobrecimento que nos faz desistir de viver e nos condena apenas a sobreviver.

Há quem diga que as palavras de nada valem, importantes são as ações. Quem o diz habitualmente fá-lo para desculpar ações erradas, ou simplesmente por nem para as palavras ter imaginação. Que sirvam as palavras para despertar a curiosidade, para aguçar o apetite que nos leva a desarrumar as Matryoshkas, querer perceber do que são feitas e querer delas fazer parte.

Chega de ilusões e de Matryoshkas vazias. Chega de desculpas, de revoluções que esperamos que nos caiam à porta. Chega de planos reluzentes de fuga, quando a perseguição somos nós que criamos. Chega de quadros pintados por outros, em que nos resignamos meramente a constar da tela, escondidos por trás das colinas verdejantes.

Chega de Matryoshkas, chega da ausência de questões e da proliferação de demissões de curiosidade. Chega sobretudo de nos agarrarmos à ideia de que está longe das nossas mãos moldar os pequenos trilhos que nos levarão novamente ao caminho da justiça e igualdade sociais.

Sobre o/a autor(a)

Enfermeiro. Cabeça de lista do Bloco de Esquerda pelo círculo Europa nas eleições legislativas de 2019
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