You are here

A política irremodelável ou a urgência da demissão

Os novos ministros não representam nenhuma alteração substancial nas opções fundamentais do programa de governo ou do Memorando da Troika.

Seiscentos e cinquenta e três dias. Foi este o tempo que Miguel Relvas, homem forte do aparelho laranja e principal estratega de Passos Coelho, esteve no governo. No início do mandato, Relvas pediu aos portugueses “uma forte união para superar as dificuldades”. Pouco mais de um ano depois, o ex-ministro sai com a certeza de apenas ter conseguido unir os portugueses em torno da exigência da sua demissão.

Miguel Relvas abandona o governo na sequência de uma investigação sobre a sua licenciatura. Se é certo que entre o exercício do poder e a seriedade de quem o exerce é exigível uma sobreposição absoluta, não é menos certo que este será o motivo menos definidor pelo qual o ministro deveria ter sido demitido. Mandaria a decência que não fosse aceitável a continuidade de um ministro que interfere na comunicação social para limitar a liberdade de imprensa e condicionar o trabalho jornalístico. E mandaria o bom-senso que não fosse tolerável a incompetência de um ministro que navegou entre fracassos e polémicas: nas ruinosas tentativas de privatização da TAP e da RTP, na inexistência de resultados do plano para a criação de emprego jovem, no assombroso envolvimento no caso das Secretas, numa reforma das freguesias feita sem que seja apontado um único critério demográfico ou social. Se alguma falha pode ser apontada à demissão de Relvas é o facto de esta ter acontecido mais cedo do que o governo esperava e mais tarde do que a seriedade exigia.

Sai um, entram dois. Para substituir o seu ex-braço-direito, Passos Coelho escolheu Marques Guedes e Poiares Maduro. O primeiro é um homem do aparelho do PSD: foi líder parlamentar, esteve no governo com Cavaco Silva e era até agora Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros. Por sua vez, Poiares Maduro, ainda que escudado no suposto “perfil académico”, é também um homem próximo de Cavaco Silva (chegou mesmo a integrar a Comissão Política da candidatura cavaquista nas últimas presidenciais). Em ambos os casos, o perfil dos novos ministros tem uma dupla leitura: não só o PSD e o CDS abandonaram a retórica do carácter suprapartidário do governo, como demonstram agora uma dificuldade extrema em encontrar quem aceite integrar um governo que se vai evaporando entre deslizes e inconstitucionalidades.

A demissão de Miguel Relvas poderá até ser o primeiro episódio de uma remodelação governamental mais profunda. Mas é certo que os novos ministros não representam nenhuma alteração substancial nas opções fundamentais do programa de governo ou do Memorando da Troika. Não há qualquer remodelação cosmética do poder que altere a política que o sustenta. A remodelação mais urgente é, na verdade, a única aceitável: demitir este governo, chamando à democracia a urgência de uma política capaz de pôr um fim ao fanatismo austeritário e resgatar o direito a ter direitos.

Sobre o/a autor(a)

Estudante. Dirigente do Bloco de Esquerda.
(...)