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Bulgária: "A onda de imolações é um sintoma de desespero social"

No país mais pobre da União Europeia quatro pessoas imolaram-se pelo fogo nos últimos dias e o número de suicídios sobe em flecha. A crise e as políticas de austeridade, impostas por Bruxelas, são apontadas como razões explicativas do terrível fenómeno. Para Hristo Hinkov, psiquiatra do Centro Nacional de Saúde Pública, "a onda de imolações é um sintoma de desespero social".

Em termos estatísticos, a crise não existe na Bulgária segundo os critérios estabelecidos por Bruxelas. A dívida do país não ultrapassa os 16 por cento do PIB, o défice orçamental, contido através de uma política fiscal asfixiante, é de 2,5 por cento, portanto dentro dos limites impostos pelas instituições europeias e Berlim.

A Bulgária é, no entanto, o país mais pobre da Europa e, durante as últimas semanas, têm-se multiplicado as manifestações em todo o país, que conduziram à queda do governo de direita neoliberal de Boiko Borisov, conhecido como "Batman".

No âmbito das manifestações, despoletadas principalmente pelo brutal aumento dos preços de energia elétrica, seis pessoas tentaram imolar-se pelo fogo em várias cidades do país; quatro delas consumaram o suicídio. Os aumentos dos preços de energia, durante um inverno frio e prolongado, elevaram o valor das faturas para mais de metade da maioria das receitas das famílias, já de si submetidas à austeridade, ao elevado nível de impostos e à quase total ausência de cobertura sanitária e de desemprego. Apenas cerca de três a quatro por cento das populações consegue ter acesso à saúde pública e ao subsídio de desemprego, no país onde se registam as maiores desigualdades da União Europeia. O salário mínimo é de 75 euros e o médio é de 350 euros. Metade dos 7,3 milhões de habitantes vive em situação de pobreza, mais de um milhão emigraram.

"A onda de imolações é um sintoma de desespero social", afirma Hristo Hinkov, psiquiatra do Centro Nacional de Saúde Pública citado pelo jornal El País. Durante os últimos três meses, acrescenta, "devido à situação social e económica houve um crescimento dos suicídios em geral".

O ministério decidiu acionar mecanismos especiais de prevenção. Nem todas as vítimas são das camadas mais pobres, algumas pertencem a uma classe média em extinção devido à política económica seguida nos últimos anos.

Depois da queda do governo do populista "Batman" formou-se um executivo de "tecnocratas", a exemplo do que aconteceu na Grécia e em Itália, que estará em funções até 12 de maio, data das eleições gerais.

Desde a queda do regime pró-soviético, a Bulgária passou diretamente à economia neoliberal, que secundarizou a democracia política e criou um poderoso setor corrupto e mafioso nascido do desmantelamento caótico do anterior aparelho de Estado. A entrada da União Europeia não só manteve a situação como a agravou através das imposições económicas e fiscais decorrentes da aplicação da política de austeridade, sem que, por outro lado, a corrupção tenha sido afetada.


Notícia publicada no portal beinternacional.eu

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