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Angola: polícia reprime manifestação antes de começar

Cerca de 20 pessoas foram detidas pela polícia angolana quando se preparavam para participar numa manifestação contra a repressão do Governo. O protesto exigia explicações sobre o desaparecimento de dois ativistas envolvidos nos protestos de militares veteranos em maio de 2012.
Cartaz da manifestação “Direito à Vida e Liberdade para Quem Pensa Diferente”, que a repressão policial impediu de se realizar.

Entre os detidos estão alguns dos jovens que têm dado a cara pelo Movimento Revolucionário (MR), o rapper Luaty Beirão e Adolfo Campos. A manifestação estava autorizada, mas isso não impediu os agentes policiais de levarem cerca de 20 pessoas para postos policiais, de onde foram libertados ao fim da tarde, segundo informa a página do Facebook "Central Angola".

Segundo o site Maka Angola, as primeiras detenções ocorreram no município de Viana, às sete da manhã, no ponto de encontro marcado pelos jovens para fazerem a viagem até à manifestação. Outro grupo de jovens encontrava-se no local marcado para a concentração pouco depois das 9 da manhã, uma hora antes da convocatória, quando a polícia os deteve sem mais explicações. Alguns dos detidos foram agredidos pela polícia, que lhes disse que não estavam presos, mas apenas retidos. 

Apesar do aparato policial no local, com helicóptero, polícia a cavalo, brigada canina e mais de cem polícias fardados e à paisana, cerca de cinquenta pessoas tentaram concentrar-se no Cemitério de Sant'Ana, de onde deveria ter partido a manifestação pelo “Direito à Vida e Liberdade para Quem Pensa Diferente”.

Alves Kamulingue e Isaías Cassule, desaparecidos há quase um ano

Um dos objetivos do protesto era o de exigir ao Estado angolano responsabilidades pelo desaparecimento destes dois ativistas envolvidos nos protestos dos militares veteranos, a 27 de maio de 2012. Alves Kamulingue desapareceu quando se dirigia a essa manifestação e Isaías Cassule dois dias depois, quando tentava saber do paradeiro de Kamulingue. Nesses protestos, milhares de soldados desmobilizados em 1992 reivindicaram o pagamento dos subsídios e pensões de invalidez, bem como a integração no sistema de segurança social. Seguiram-se rumores de que os dois desaparecidos haviam sido executados, mas a justiça angolana não investigou o caso.

Só em dezembro de 2012, na véspera de mais uma manifestação de amigos e familiares dos desaparecidos, é que o ministro do Interior admitiu ter conhecimento do caso, numa reunião com uma delegação dos promotores do protesto. Segundo o site Angonotícias, estiveram também presentes nessa reunião o Procurador-Geral adjunto, Arcanjo Custódio, o comandante geral da Polícia Nacional, Ambrósio de Lemos, e o Diretor Nacional de Investigação Criminal, Eugénio Pedro Alexandre. 

No fim da reunião, o Procurador-Geral adjunto prometeu uma rápida investigação. Mas passados três meses, a família nunca mais foi contactada desde esse dia. Quando se dirigiram à Direção Nacional de Investigação Criminal no fim de fevereiro, os familiares foram pressionados a assinar um documento comprometendo-a a não ter contacto com o grupo de jovens revolucionários, o que foi recusado, afirmou o irmão de um dos desaparecidos ao Novo Jornal, acrescentando que uma testemunha-chave identificada pela família ainda não tinha sido inquirida. "Acho que estão a usar a política moratória, porque sabem o que aconteceu com eles", disse Mariano Cassule, irmão de Isaías. "Queremos os nossos familiares, vivos ou mortos, mas queremos. Vamos nos unir com a outra família e vamos sair à rua", concluiu Mariano.

A manifestação de dezembro acabou por se realizar e a polícia voltou a impedi-la violentamente, com bastonadas, gás lacrimogéneo e disparo de balas. Seis manifestantes foram presos e libertados uma semana depois, após o primeiro julgamento.

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