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Grândola na Aquitânia

No 3º Congresso do Parti de Gauche francês, Jean-Luc Melénchon, o mais carismático dos seus líderes, assumiu uma homenagem ao 25 de abril português cantando-se a Grândola com grande emoção, canto contra as ditaduras, a fascista e a do capital financeiro da dividocracia.

Bordéus, capital da região da Aquitânia, recebeu neste fim de semana o 3º Congresso do Parti de Gauche francês (PG), parte integrante do Front de Gauche (frente de esquerda).

Jean-Luc Melénchon, o mais carismático dos seus líderes, assumiu uma homenagem ao 25 de abril português cantando-se a Grândola com grande emoção, canto contra as ditaduras, a fascista e a do capital financeiro da dividocracia. Distribuíram-se mais de mil cravos, agitados nesse instante e celebrados depois como símbolo votado do próprio PG. Parti de Gauche é agora o partido dos cravos vermelhos.

O internacionalismo teve vários pontos altos: solidariedade com os rebeldes do Bahrein, com a Frente Popular da Tunísia, o entusiasmo pelo "Bloco de Esquerda" de Marrocos com a aliança do Partido Socialista Unificado, do PADS e do CNI, a intervenção do "Estado da Palestina". Justiça social, democracia e laicidade foram o enfoque de abordagem dos países sob a reação fascista do integrismo religioso a sul do mediterrâneo e os países sob a troika, ou em vias disso, a norte do mar afro-europeu. E Chipre logo ali no meio, ilustrando segundo Melénchon a estupidez de Merkel e de 17 ministros de finanças que inauguraram a corrida aos bancos impondo o confisco dos pequenos aforros.

Jean-Luc Melénchon (J-LM) atacou duramente o incumbente ministro das finanças, Pierre Moscovici, pelo assunto Chipre e por benesses várias ao capital financeiro em França. Moscovici reagiu num apronto de imbecilidade dizendo-se alvo de ataques anti-semitas de Melénchon por este condenar um ministro e vários financeiros de confissão judaica. A resposta do Congresso foi de fúria, em uníssono. Melénchon reivindicou a tradição republicana e disse que seria o primeiro a defender o ministro de qualquer ofensa religiosa ou rácica mas que não calaria a crítica ao subserviente ministro do PS que trabalha para o "euro merkel" e não para um euro dos povos.

O congresso manteve a posição de pertença ao euro mas exigindo que o Banco de França imponha um conjunto de alterações de fundo no Banco Central Europeu, todas no sentido da reserva monetária, da desvalorização face ao dólar, e da expansão de crédito aos estados e empresas.

Na frente interna, o PG reafirmou o Front de Gauche como aliança política, declarada permanente, valorizou o entendimento especial com o Partido Comunista Francês, presente com o seu líder Pierre Laurent. A linha aprovada desenvolve a ideia de continuar a luta pela revolução cidadã e a convocação de uma constituinte da 6ª República. "É o quadro natural da luta de classes, não se engasguem com a expressão" juntou J-LM. O programa de nacionalizações previsto para o socialismo (na finança, indústria, high tech) combina com a planificação ecológica para limitar o modo de produção poluente e o modo de consumo de desperdício. Aliás isso dá corpo à formulação programática do PG do "eco-socialismo".

A caricatura de Hollande e da traição sucessiva das promessas eleitorais do PS foram o bombo de festa e o ofício principal... Em especial, o Código de Trabalho assinado com o patronato que piora as leis de trabalho de Sarkozy. O Congresso impediu, aliás, qualquer acordo com o PS nas eleições municipais e criticou em termos duríssimos aqueles que dizem ser esse um assunto meramente local.

Melénchon valorizou a fusão das 3 moções que se apresentaram ao Congresso, elogiou a direção paritária, exortou ao assembleísmo dentro e fora do partido e para além do Front de Gauche no caminho da frente popular . “Ousemos!” de um discurso de Robespierre foi o slogan em evidência e título da resolução aprovada por 85% dos 900 e tal delegados eleitos por 12 mil militantes (mais 8 mil que no congresso de 2010). “On lâche rien” (não abdicamos de nada) individualizou lema e palavra de ordem repetida, entrecortando o discurso final de J-LM que anunciou urbi et orbi que a próxima tarefa é a tomada do poder!

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, professor.
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