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EUA: Falcões lutam para manter influência sobre republicanos

Setor mais intervencionista está a perder influência no Partido Republicano, não apenas pelo crescente consenso nacional de que a invasão do Iraque foi uma grande catástrofe, mas também pelo temor popular de que Washington simplesmente não possa pagar o sonho imperial dos falcões. Por Jim Lobe, IPS.
"Os neoconservadores não vão partir sem lutar". Foto de Dan Bennett from Seattle, USA, creative commons

Washington, Estados Unidos (IPS) – Dez anos depois de alcançar a sua máxima influência com a invasão do Iraque, os neoconservadores e outros "falcões" (a ala mais belicista) de direita lutam denodadamente para manter o seu controlo no opositor Partido Republicano dos Estados Unidos.

Essa campanha ficou evidente entre os dias 14 e 17 deste mês, na Conferência de Ação Política Conservadora, como apontou o jornal The New York Times num artigo de primeira página.

O partido parece cada vez mais dividido entre o setor mais intervencionista, que impulsionou a guerra há uma década, e uma coligação mais “realista” e libertária, isto é, defensora até a morte das liberdades individuais e do Estado reduzido, que se mostra cada vez mais cética, se não contrária, a novas aventuras militares no exterior. O componente libertário, que parece estar a crescer, identifica-se mais com o chamado Tea Party, particularmente com o senador Rand Paul, do Estado do Kentucky, cuja resistência à ideia de usar aviões não tripulados em território norte-americano o converteu em herói, tanto para a direita quanto para a esquerda.

Tampouco contribuiu para a unidade republicana a hostil reação do senador John McCain e a sua histórica aliada, Lindsay Graham, cujas opiniões em matéria de segurança nacional são fortemente neoconservadoras. Ambos são considerados pelos grandes meios de comunicação como os principais porta-vozes do partido em política externa. McCain disse que Paul e os seus admiradores eram "pássaros loucos" que "tomam o megafone dos média", e afirmou que os senadores republicanos que os apoiaram – entre eles o líder da bancada, Mitch McConell – deviam "conhecer melhor" sobre o que falam.

Além dos aviões não tripulados, o partido está profundamente dividido entre os obcecados com o défice, entre eles muitos do Tea Party, que não acreditam que o Pentágono deva ser isento dos cortes orçamentais e mostram receio diante de novas campanhas militares no exterior, e os "falcões da defesa", liderados por McCain e Graham. Pouco a pouco vai aumentando a brecha entre esses dois setores, que já se chocaram em várias ocasiões na administração de Barack Obama em temas como a intervenção na Líbia e o conflito na Síria.

No momento, parece que se impõem os que lutam contra o défice, ao menos a julgar pelas reações ao lançamento, no dia 1º deste mês, do plano "sequester" (confiscar), que supõe cortes automáticos em grande parte do gasto público e que poderia exigir do Pentágono a redução do seu orçamento em outros 500 mil milhões de dólares. Também implica a redução em quase 500 mil milhões de dólares já acordada por Obama e o Congresso em 2011.

"Indefensável", escreveu o líder neoconservador Bill Kristol no Weekly Standard ao se referir à complacência dos republicanos frente aos cortes no orçamento militar. "O Partido Republicano, primeiro recusando-se e depois com entusiasmo, uniu-se ao presidente no seu caminho para a irresponsabilidade", lamentou. O grande temor dos neoconservadores é que, devido ao cansaço pela guerra e pela atenção centrada no défice, os republicanos regressem ao isolacionismo, postura que caracterizou o partido na sua resistência à intervenção dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), até ao ataque japonês contra Pearl Harbour, em 1941.

A posterior declaração de guerra de Adolf Hitler contra os Estados Unidos silenciou os isolacionistas, e o surgimento em seguida da União Soviética como uma ameaça aos interesses de Washington assegurou aos falcões o domínio sobre a política exterior por 45 anos. Mas o fim da Guerra Fria deu mais lugar a alguns membros do partido particularmente atentos a temas de orçamento e defensores de um Estado reduzido, que viram o grande aparelho de segurança nacional e as aventuras militares no exterior como ameaças tanto às liberdades individuais quanto à saúde fiscal do país.

Portanto, muitos legisladores republicanos apoiaram significativos cortes na defesa, que começaram no governo de George H. W. Bush (1989-1993). O partido também se dividiu diante de várias ações militares na década de 1990, incluindo a intervenção "humanitária" de George H. W. Bush na Somália e as campanhas na Bósnia e em Kosovo durante o governo de Bill Clinton (1993-2001). Vários legisladores republicanos opuseram-se veementemente à decisão de Clinton de enviar tropas ao Haiti em 1994, para apoiar o deposto presidente Jean-Bertrand Aristide. Mas, por outro lado, neoconservadores republicanos aliaram-se com os intervencionistas liberais no Partido Democrata para pressionar o inicialmente reticente Clinton a intervir nos Balcãs.

Em 1996, Kristol e Robert Kagan escreveram um artigo na revista Foreign Affairs alertando para uma viragem dos republicanos para um novo isolacionismo. No ano seguinte, ambos fundaram o Projeto para um Novo Século Norte-Americano, cuja carta foi assinada, entre outros, por oito altos funcionários do futuro governo de George W. Bush (2001-2009), como Dick Cheney, Donald Rumsfeld e Paul Wolfowitz. O novo grupo ideológico não serviu apenas de âncora para republicanos que apoiavam a visão de uma "hegemonia benevolente" dos Estados Unidos no mundo com base no seu poderio militar, mas também de alavanca de pressão para maior orçamento para a defesa, uma postura mais desafiadora em relação à China e uma "mudança de regime" no Iraque.

Ao ocuparem postos estratégicos no segundo governo de George W. Bush, os falcões aproveitaram a comoção devido aos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington e alcançaram a sua maior influência, há exatamente dez anos, quando lançaram a invasão do Iraque. Mas, dez anos depois, estão a perder domínio no Partido Republicano, não apenas pelo crescente consenso nacional de que a invasão foi uma grande catástrofe, mas também pelo temor popular, registado em pesquisas de opinião nos últimos seis meses, de que Washington simplesmente não pode pagar o sonho imperial dos falcões.

Segundo as mesmas pesquisas, os eleitores mais jovens, entre 18 e 29 anos, são contra essa visão hegemónica, o que fortalece os membros do partido mais moderados em política exterior. Entretanto, fiéis à sua natureza, os falcões não estão dispostos a ceder, e a sua influência no partido continua a ser elevada, como demonstrou o facto de apenas quatro senadores republicanos, incluindo Paul, apoiarem a designação de Chuck Hagel como novo secretário de Defesa. Os neoconservadores lançaram uma forte campanha contra Hagel.

É muito cedo para que os defensores do orçamento declarem a vitória, disse Chris Preble, do libertário Cato Institute, no site Foreignpolicy.com. "Os neoconservadores não vão partir sem lutar, e terão outras oportunidades nos próximos meses para ajustar o orçamento do Pentágono", alertou. 20/3/2013 – Envolverde/IPS

O blog de Jim Lobe está no endereço www.Lobelog.com.

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