You are here

Entre o coxear e o correr

Uma distância é imutável; percorrer a mesma, de forma mais ou menos prazerosa, mais ou menos breve, mais ou menos sofredora, depende dos meios e forma de percorrer.

A forma de percorrer o caminho não é inevitável, é uma escolha. Percorrer com a cadência de um passo seguido de outro ou com o vento despenteando cabelos num veloz bólide demonstra que uma distância pode ser ultrapassada de uma forma que oscila do muito demorado ao muito breve.

Se cada passo for, no entanto, dado com uma alegria imensa, ou se cada aceleração furiosa denota apenas uma imensa tristeza, mesmo a distância percorrida de forma mais breve, parecerá ao mais triste, uma eternidade, e ao mais alegre que a eternidade é um agradável ápice.

Resta-nos portanto, como escolha de vida, procurar as melhores formas de calcorrear distâncias. No final de cada uma delas haverá sempre outra a percorrer, mas mais caminhos percorridos implicam sempre maior probabilidade de aquilo que nos querem roubar: a felicidade.

Estar doente é uma distância a percorrer. Um caminho amputado de sensações agradáveis. Exige o âmago do nosso ser que seja breve a travessia de penoso deserto. Para esta brevidade contribui, não a velocidade de condução ao hospital ou ao centro de saúde, mas antes as formas e recursos de tratamento.

Um penso pode ser uma forma de percorrer um caminho. Esconde uma ferida, uma infeção, um osso fraturado. O caminho percorre-se de forma menos afligida inicialmente, até porque o penso esconde a causa; esconde a necessidade do antibacteriano, a necessidade da cirurgia, os sinais inflamatórios. Torna-se depois mais longo, pois a infeção agrava, a ferida perpetua-se e aprofunda e a fratura não consolida devidamente.

Percorrido este caminho, passamos ao seguinte, mas não há caminho que não deixe as suas marcas. E os caminhos seguintes passam-se a coxear porque a fratura fragilizou a capacidade de andar, debilitados porque a infeção prolongada levou a um longo internamento, cansados e desanimados porque o caminho da recuperação foi penoso e demorado e o emprego não esperou pela recuperação.

Cuidar é também um caminho para aqueles que cuidam. Percorrer este caminho, normalmente delimitado por um certo número de horas, varia no número de pessoas que se cuidam. Percorrer este caminho com um rácio terceiro-mundista de, por exemplo, enfermeiros por doente, torna-o uma constante penitência para todos os envolvidos.

Quem cuida abdica de si, negligenciando necessidades e segurança; quem é cuidado recebe inevitavelmente menos disponibilidade de quem cuida, cuidados mais breves e menos aprofundados, prolongando o seu próprio caminho de doença.

Resumimo-nos aos diversos caminhos que percorremos, resumimo-nos sobretudo às mais diversas concessões que fazemos ao percorrer os nossos caminhos. Optamos pelo cinzentismo de coxear em vez da alegre corrida. Optamos por cuidar com menos qualidade para que no final se contabilizem somente os comprimidos administrados. Optamos ser cuidados com uma lógica de linha de montagem fabril apenas para que nos seja dada uma pequena melhoria, mais imediato e ludibriosa do que eficaz ou capaz de saciar o desejo de saúde permanente.

Escolhemos cumprir cada caminho mais de acordo com o que nos é imposto do que de acordo com aquilo que nos impõe a nossa vontade. Cumprimos o caminho de cada mês com um vencimento menor, palreando impropérios, mas sempre caminhando. Cumprimos o caminho do emprego com cada vez menos certezas de um caminho no dia seguinte, praguejando lamentos, mas sempre caminhando.

Escolhemos abdicar de percorrer o caminho da forma que mais gostamos, para o fazer dentro da melhor forma possível, esquecendo que quem nos (des) governa vai exigir sempre mais velocidade e menos meios utilizados.

Escolhemos esquecer que é esta constante acomodação às formas impostas por outros, que lhes confere a sobranceria de ir delineando os caminhos por nós.

A mesma distância conduz aos mesmos pontos. Mas um emprego, sendo o caminho, é no seu decurso que se luta para ser justamente remunerado. No final, o mês de trabalho, o dia de trabalho tem a mesma duração, sobrando a escolha de como o ir percorrendo.

Os enfermeiros que se revestem de uma alma caridosa em demasia, percorrem o seu caminho de cuidar, optando pela mecanização para que tudo seja efetuado no caminho que é o seu turno. Esquecem que demonstram às ferozes calculadores, que olvidam a dignidade, que se sobrevive mesmo assim, e a boa intenção só reforça os intentos economicistas. As horas de refeição perdidas, a remuneração jocosa, e os rácios criminosos cumprem-se, com uma alma aziada, mas um corpo, que ainda assim caminho, que consente.

Os coxos, aqueles que o são porque aceitaram o penso que tapa a ferida, ou a ligadura que disfarça a fratura, esquecem que poderiam correr num caminho que julgam penoso e inevitável.

Chegaremos sempre ao caminho seguinte; a escolha como percorremos o atual trará sempre consigo as consequentes maleitas que levaremos para o próximo.

Hoje penamos neste caminho da austeridade. Chegar coxo, parece, no entanto, ser uma benesse por entre os males maiores que se adivinham. Queremos mesmo coxear por entre os tortuosos trilhos e a névoa incerta, quando até a canadiana nos negam? Queremos mesmo suportar o sofrimento de uma dor que só nos atrasa na travessia, que nos coloca um insuportável peso nos ombros para que se perca a esperança do caminho seguinte?

Uma fratura consolida, mas quando decidirmos destapar o penso e olhá-la com atenção, permitindo que seja devidamente cuidada, pode ser demasiado tarde. E em caminhos mais solarengos e novamente pincelados de esperança continuaremos a coxear.

Sobre o/a autor(a)

Enfermeiro. Cabeça de lista do Bloco de Esquerda pelo círculo Europa nas eleições legislativas de 2019
(...)