You are here

Iraque: Os senhores da guerra, dez anos depois

Onde estão hoje e o que fazem os protagonistas da Cimeira dos Açores – George W. Bush, Tony Blair, José Maria Aznar e Durão Barroso – que deram luz verde à invasão?
Reunidos para tomar uma decisão que iria provocar a morte de 110 mil a 660 mil civis iraquianos. Foto de Staff Sgt. Michelle Michaud, wikimedia commons

Em 15 de março de 2003, George W. Bush, Tony Blair e José Maria Aznar, tendo Durão Barroso como anfitrião, reuniram-se nos Açores e lançaram o ultimato que desencadeou a invasão do Iraque, mesmo sem o mandato das Nações Unidas. Dez anos depois, apenas Barroso se mantém em funções políticas, apesar de fora do seu país.

Tony Blair queixa-se das ofensas que ouve na rua

O ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair reconheceu numa entrevista recente à BBC que dez anos depois da invasão do Iraque ainda encontra pessoas “muito ofensivas” em relação a ele, e que desistiu de convencê-las de que a decisão de invadir foi correta. O entrevistador perguntara-lhe se se importava de que as pessoas o chamassem de mentiroso, de criminoso de guerra, e se era difícil andar na rua com tranquilidade.

A verdade é que Blair já passou pelo menos por quatro ocasiões em que cidadãos tentaram dar-lhe voz de prisão, executando uma “prisão cidadã” por crimes contra a paz. A iniciativa foi lançada pelo site Arrest Blair que lista quatro objetivos a obter com as “prisões cidadãs”: 1) lembrar que a justiça ainda não foi feita; 2) mostrar a Blair que os assassinatos maciços de que ele é responsável não serão esquecidos; 3) pressionar as autoridades do Reino Unido e dos países por onde ele passa a processá-lo por crimes contra a paz; 4) desencorajar outros a repetirem o mesmo crime.

World Economic Forum swiss-image.ch Remy SteineggerCriminoso de guerra

As acusações de que Blair é um criminoso de guerra têm-se multiplicado e quem o faz não são só os ativistas antiguerra. Personalidades mundiais, como o arcebispo Prémio Nobel da Paz Desmond Tutu, um dos líderes do movimento antiapartheid na África do Sul, dizem o mesmo. Tutu foi mesmo mais longe: no final de 2012 defendeu que Tony Blair e George W. Bush fossem levados diante do Tribunal Penal Internacional de Haia por terem mentido sobre a existência de armas de destruição maciça. Tutu argumentou que o número de vítimas provocado pela invasão e a guerra que se seguiu são mais que suficientes para que Blair e Bush sejam julgados no TPI.

David Miliband, ex-secretário dos Negócios Estrangeiros e deputado trabalhista, irmão do atual líder do Labour, é da opinião que “a pior coisa que aconteceu a Tony Blair foi a eleição de George W. Bush, pela direção em que este levou o mundo”. O problema é que Blair chegou a argumentar que a sua proximidade a Bush lhe tinha permitido influenciar as decisões, mas a verdade é que todas as testemunhas dos bastidores da invasão agora confirmam que Blair limitou-se a dizer que qualquer que fosse a decisão de Bush, o Reino Unido apoiá-la-ia.

Blair não reconhece que o seguidismo em relação a Bush foi um erro, mas não é acompanhado pelos que lhe estavam próximos na altura. No início de março deste ano, John Prescott, que era o vice-primeiro-ministro de Blair, disse que a guerra que ele próprio apoiou “não pode ser justificada”. Prescott disse que tentou justificar a decisão, mas não conseguiu: “Não pode ser justificada como intervenção”, reconheceu.

Fim de linha em 2007

A invasão do Iraque foi o início do fim da carreira de Blair. O primeiro-ministro britânico ganharia ainda as eleições de maio de 2005, mas a maioria trabalhista de 160 deputados reduziu-se para 66. Em 27 de junho de 2007, Blair renunciou ao cargo e também ao mandato de deputado. Logo depois, foi confirmado como enviado da ONU ao Médio Oriente anunciando um novo plano de paz para a região, que nunca saiu do papel. A dedicação de Blair ao novo cargo também não foi melhor. Exemplo disso foi que nos primeiros nove dias da invasão de Israel a Gaza, o ex-primeiro-ministro manteve-se totalmente alheio, tendo porém sido visto na inauguração de uma loja Armani em Knightsbridge. Assessores de Blair disseram depois que ele se mantivera em contacto telefónico com líderes mundiais desde o início do conflito.

Fortuna pessoal

Calcula-se que a fortuna pessoal de Blair seja de 60 milhões de libras, a maioria acumulada depois que chegou ao cargo de primeiro-ministro. Em janeiro de 2008, o ex-líder trabalhista foi contratado como conselheiro do banco de investimentos JPMorgan Chase e como conselheiro para questões relacionadas às alterações climáticas do Zurich Financial Services. Além disso, Blair cobra 250 mil dólares por uma palestra de 90 minutos. Em julho de 2010 foi revelado que os seus guarda-costas custam às finanças públicas britânicas 250 mil libras ao ano.

White House photo by Eric DraperBush entrou no ranking dos piores presidentes dos EUA

Quando terminou o seu mandato na Presidência dos Estados Unidos, em janeiro de 2009, George W. Bush voou para o Texas e desde então tem vivido discretamente numa casa em Preston Hollow, nos arredores de Dallas.

As aparições públicas têm sido raras: participação via vídeo no programa de TV Colbert Report, ao funeral do senador Ted Kennedy, intervenções em seminários de Motivação, participação, a pedido de Obama e junto com Bill Clinton, num fundo para ajudar o Haiti.

Em 2010, admitiu ter autorizado o uso de técnicas de tortura como o afogamento e afirmou que voltaria a fazê-lo “se fosse para salvar vidas”.

Em fevereiro de 2011, desistiu de uma visita que pretendia fazer à Suíça, temendo as ameaças de protestos durante um discurso que pretendia fazer em Geneva e sobretudo temendo a possibilidade de ser detido por ter autorizado o uso de tortura, violando as convenções internacionais sobre essa prática.

No outono de 2012, a revista New York revelou que o ex-presidente descobrira recentemente a vocação da pintura, e que pintara dois autorretratos a tomar banho e no chuveiro. Mais tarde, revelou-se que tinha cerca de 50 retratos de cães.

A rede de TV a cabo C-SPAN realizou em 2000 e atualizou em 2009 um ranking dos presidentes da República dos Estados Unidos, que colocou George W. Bush entre os piores presidentes da história do país, junto com Warren G. Harding, Andrew Johnson, Franklin Pierce e James Buchanan.

Presidential Press and Information OfficeDuas mentiras derrotaram Aznar

Em dezembro de 2008, o ex-presidente do governo de Espanha, José María Aznar, reconheceu que não havia armas de destruição maciça no Iraque. “O mundo inteiro pensava que havia armas de destruição maciça e não havia, sei-o agora”, disse Aznar num ciclo de conferências. “Quando eu não sabia, ninguém sabia”, justificou.

Um ano antes já tinha dito que não se arrependia de ter envolvido o seu país na guerra do Iraque, porque foi “um dos momentos mais influentes da história do país”.

“Nunca me vou arrepender de a Espanha ter vivido um dos momentos mais influentes da sua história e não me arrependo disso. Arrepender-me-ia de não ter estado à altura das circunstâncias”, disse, defendendo que era fundamental estar “ao lado dos aliados mais fortes possível”.

Nova mentira

Em março de 2004, o PP de Aznar perdeu as eleições depois de o chefe do governo atribuir à ETA a responsabilidade dos atentados que provocaram a morte de 191 pessoas e mais de 1500 feridos. Muitos cidadãos consideraram que o governo mentia acerca da autoria do atentado para que não se considerasse que este era uma represália da Al-Qaeda pelo envio de tropas espanholas para o Iraque.

Assim, duas mentiras – as armas de destruição maciça e a atribuição à ETA da responsabilidade do 11-M – selaram o futuro de Aznar.

Ecologismo é o novo comunismo”

Derrotado nas eleições, Aznar foi presidir a Fundación para el Análisis y los Estudios Sociales (FAES), foi nomeado presidente de honra do PP e tornou-se membro do Conselho de Estado.

Em junho de 2006, o ex-chefe do governo espanhol foi nomeado para o Conselho de Administração do grupo News Corporation, de Rupert Murdoch, que lhe paga 220 mil dólares anuais pelo cargo.

Aznar foi também nomeado presidente para a América Latina da J.E. Robert, empresa dedicada a grandes operações imobiliárias nos Estados Unidos e na Europa e também entrou no Comité Assessor da Centaurus Capital, uma empresa de capital de risco especializada em hedge funds, cargo que abandonaria em 2009.

As suas intervenções políticas posteriores foram marcadas fortemente pelo conservadorismo. Em outubro de 2008, por exemplo, afirmou que o ecologismo é o novo comunismo, mostrando-se cético em relação aos perigos das alterações climáticas.

Fotoo de Barroso disse que foi enganado

Em novembro de 2007, numa entrevista à TSF e ao Diário de Notícias, Durão Barroso afirmou que na Cimeira dos Açores foi enganado: “Houve informações que me foram dadas, a mim e a outros, que não corresponderam à verdade. Tive documentos na minha frente dizendo que o Iraque tinha armas de destruição maciça. Isso não correspondeu à verdade”, disse.

Ainda assim, Barroso defendeu que Portugal nada tinha a lamentar sobre o papel que assumiu, e a prova disso seria a sua própria situação. "Portugal, ao dizer que sim ao seu aliado norte-americano, não perdeu espaço com isso, nem tem que estar arrependido. Eu fui, depois dessas decisões, convidado a ser Presidente da Comissão Europeia, e tive o consenso de todos os países europeus."

A 29 de junho de 2004, Barroso anunciou a sua demissão da chefia do governo português, para assumir o cargo de 12º presidente da Comissão Europeia, sucedendo neste cargo a Romano Prodi.

Foi substituído no governo por Pedro Santana Lopes, mas, passados poucos meses, o presidente Jorge Sampaio dissolveu a Assembleia da República e convocou eleições antecipadas, vencidas por José Sócrates.

Em 2011, o ex-presidente francês Jacques Chirac publicou um segundo volume das suas memórias, "Le temps présidentiel", onde criticou Durão Barroso pela sua posição pró-americana na guerra no Iraque, afirmando que avisou diversas vezes, pessoalmente, tanto Bush como os seus aliados, das consequências negativas da guerra e da decisão de atacar o Iraque sem mandato das Nações Unidas.

Comentários (1)

Resto dossier

Dez anos de guerra no Iraque

Dez anos depois da invasão, o país devastado e dividido está à beira de nova guerra. Este dossier do Esquerda.net passa em revista a situação atual, mas relembra também o passado. À luz do que sabemos hoje, fica mais evidente como eram grotescos os escritos dos propagandistas portugueses de George W. Bush. E como a guerra foi justificada por uma mentira. Dossier organizado por Mariana Carneiro e Luis Leiria.

Cronologia da guerra no Iraque

Neste artigo, o esquerda.net apresenta uma cronologia com algumas das datas mais marcantes da guerra no Iraque entre janeiro de 2002 e março de 2013.

No princípio, era a mentira

A existência de armas de destruição maciça na posse de Saddam foi a grande justificativa para a invasão. Só que elas nunca foram encontradas, porque nunca existiram. Primeiro capítulo do livro “A Globalização Armada – As aventuras de George W. Bush na Babilónia”, de Francisco Louçã e Jorge Costa, edições Afrontamento, 2004.

Iraque: Os senhores da guerra, dez anos depois

Onde estão hoje e o que fazem os protagonistas da Cimeira dos Açores – George W. Bush, Tony Blair, José Maria Aznar e Durão Barroso – que deram luz verde à invasão?

Iraque: Dez anos de guerra provocaram mais de 112.000 mortos

Desde 20 de março de 2003, quando os EUA invadiram o Iraque, já morreram mais de 112.000 civis. Neste domingo, uma explosão matou 10 pessoas na cidade de Bassorá - o atentado já foi reivindicado pela Al-Qaeda. Em entrevista, que aqui divulgamos, Maggie O'Kane fala sobre o documentário do “Guardian”, que expõe a ação dos EUA no conflito sectário no Iraque.

Iraque à beira de outra guerra 10 anos depois

Não há acordo político, nem diálogo, nem confiança entre as diferentes comunidades. Os sunitas do Iraque queixam-se que só são maioria nas prisões. Novo conflito armado é iminente. Por Karlos Zurutuza, para a IPS.

Tariq Ali: Guerra é guerra, independentemente de quem a conduz

Intervenção de Tariq Ali na conferência organizada pelo movimento Stop the War, dez anos depois da grande manifestação antiguerra que procurou impedir a invasão ao Iraque.

As 10 empresas que mais lucraram com a guerra

Halliburton tornou-se sinónimo de lucro de guerra, mas há muitos outros com a "mão na massa". Nomeamos 10 dos piores. A história dos lucros de guerra americanos está cheia de egrégios exemplos de incompetência, fraude, evasão fiscal, desfalque, suborno e práticas irregulares. Tal como o historiador da guerra Stuart Brandes sugeriu, cada nova guerra está infectada com novas formas de obter lucros com a guerra. O Iraque não é uma excepção. Artigo de Charlie Cray* publicado, em 2006, em Alternet, cartoon de Jeff Danziger.

Esquerda Europeia condena guerra do Iraque e reclama justiça para as vítimas

Esta quarta feira, o Partido da Esquerda Europeia emitiu um comunicado no qual condena a “guerra ilegal de agressão contra o Iraque” e reclama justiça para as suas vítimas. A invasão do Iraque teve início a 20 de março de 2003, há exatamente 10 anos.

Guerra no Século XXI ou a privatização da guerra

Em entrevista ao jornal argentino Página 12, em 2009, Dario Azzelini, pesquisador italiano das novas guerras, defende que "a guerra não é mais feita para instalar outro modelo económico; ela é o modelo". Autor do livro "O Negócio da Guerra", Azzelini mostra como é cada vez mais importante a intervenção de Companhias Militares Privadas em todo o mundo. Por Natália Aruguete e Walter Isaía, do Página 12.

Bagdade Hoje

Não se vê a nova elite rica a passear pelas ruas ou mesmo nos restaurantes. Podemos, no entanto vê-los passar com grande alarido em escoltas fortemente armadas, tal como muitos duques medievais e seus acompanhantes passavam com desprezo ao lado do campesinato. Artigo de Patrick Cockburn.

Uma década depois da invasão: “Iraque à beira do abismo”

A 17 de fevereiro de 2013, atentados bombistas em Bagdade provocaram pelo menos 28 mortos e mais de 124 feridos. Neste artigo, Ramzy Baroud explica porque “A violência sectária no Iraque, que já provocou dezenas de milhares de mortos, está de volta”.