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O Dia 24 de Março

O mês de Março traz consigo o dia do estudante e memórias de outrora, mas será que os estudantes do ensino superior sabem o porquê deste dia e toda a história que ele conta?

Todos os anos associamos, e bem, o dia 24 a mais um dia de contestação, no entanto para além de um dia de luta, o dia 24 é também um dia comemorativo que passa ao lado de milhares de estudantes. O episódio histórico que sugeriu a criação deste dia merece ser recordado e é a isso que me proponho neste artigo.

Recuemos a 1921, a Coimbra, onde se iniciava uma jornada de luta pela falta de condições da Universidade. Os estudantes exigiam melhores condições, num momento em que havia pouco espaço reservado à academia, e os professores asseguravam majestosamente as suas generosas acomodações, o chamado Clube das Lentes, símbolo do seu poder e da tradição universitária, razão pela qual fora apelidado pelos estudantes de “Bastilha”. Nesse mesmo ano, no dia 25 de Novembro, e no âmbito da ampla reivindicação de melhores condições os estudantes ocuparam o Clube das Lentes, numa iniciativa estudantil sem precedentes, onde a união e solidariedade foram valores evidentes. Este dia passou a ser conhecido como a “Tomada da Bastilha” e os seus aniversários comemorados como o “Dia do Estudante”.

E assim aconteceu até ao ano de 1961, nesse ano as comemorações do 25 de Novembro levaram até Coimbra estudantes de todo o país. Centenas foram aqueles que se reuniram num jantar, que facilmente se transformou num protesto contra a guerra colonial, e que levou até a um cortejo pela cidade. A polícia rapidamente apareceu e vários estudantes foram presos, acontecimento que levantou uma onda de indignação e apoio por todo o país. Começava a sentir-se um clima de maior tensão entre os estudantes, e o governo de Salazar temia a ameaça.

Foi neste ambiente, que já em 1962, se começaram a realizar algumas reuniões nacionais de dirigentes associativos, essas reuniões acabaram numa vontade já antiga de agregar forças através de um órgão nacional que conseguisse reunir as várias direções associativas. Pretendia-se assim que o movimento fosse mais organizado e adquire-se um carácter político mais forte, desta forma os estudantes teriam mais força no combate à repressão do governo totalitário.

Como seria de esperar essas reuniões deram origem à constituição de um Secretariado Nacional de Estudantes Portugueses, e pouco tempo mais tarde à realização do I Encontro Nacional de Estudantes, em Coimbra, ignorando a proibição que o Governo tinha decretado. No primeiro dia do Encontro quer em Lisboa, quer à entrada de Coimbra, a polícia tudo fez para impedir que os autocarros que transportavam os estudantes chegassem ao destino. O encontro acabou por se realizar, num ambiente de grande euforia, altamente participado, e de onde saiu um livro que continha todas as conclusões do evento, editado pela A.A.C, já muito perto do encerramento policial da sua sede.

Estava iniciada a Crise Académica de 62. Os dirigentes associativos da Académica de Coimbra foram suspensos a partir da instauração de vários processos disciplinares e foi ainda apresentado um processo-crime à direção da A.A.C. Foram presos pela PIDE 148 estudantes, 42 destes foram enviados para o Forte de Caxias. Os estudantes da Academia responderam com o luto académico e greve às aulas.

No seguimento destas ocorrências, em Lisboa, as Associações de Estudantes pretendiam comemorar o dia do estudante no final de Março e mesmo sem a autorização do Governo as comemorações arrancaram no dia 24. O regime atuou com a brutalidade habitual. A cantina foi encerrada e a Cidade Universitária invadida pela polícia de choque. Vários estudantes foram espancados e presos, o repúdio foi geral e levou a que também em Lisboa fosse declarado o luto académico e a greve às aulas.

Muitos outros acontecimentos se desenrolaram após este episódio, entre os quais a demissão do então reitor Marcelo Caetano, a luta pela autonomia associativa, o protesto contra o regime na final da Taça de Portugal de 69... A crise académica teve contornos mais profundos e que vão muito além daquilo que relatei, muitos foram os acontecimentos que traçaram esta época e que fundamentaram este importante momento histórico.

Anos mais tarde, em 1986, já depois da revolução de Abril, e sob a memória deste 24 de Março, a Assembleia da República fixou esse dia como o Dia do Estudante. Hoje, é comum o Encontro Nacional de Direções Associativas (ENDA) marcar a comemoração deste dia e as ações reivindicativas são já comuns, foi nesse sentido que o último ENDA, que ocorreu em Setúbal, aprovou uma ação de protesto a realizar no próximo dia 24. Estaremos todos lá, não só em protesto mas em comemoração, talvez mais em protesto do que em comemoração.

Sobre o/a autor(a)

Estudante universitário na UTAD
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