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RTP, um alvo a defender

O plano de “reestruturação” da RTP será, ao que já se sabe, um documento que, a ser implementado, constitui o princípio do fim da empresa pública de televisão.

Nos próximos dias o Governo terá de apresentar o plano de “reestruturação” da RTP, há muito anunciado. Será, ao que já se sabe, um documento que, a ser implementado, constitui o princípio do fim da empresa pública de televisão. O plano não é novo mas ainda não é totalmente claro. Sabe-se, no entanto, que começou pelo fim, pelos cortes, despedimentos, reduções, por alterações de dinâmicas e formas de trabalho. E também por uma nova estratégia de autoritarismo e intimidação. Pela guerra de nervos com os profissionais da empresa. Primeiro decide-se onde cortar, funde-se, despede-se, adultera-se, mexe-se na casa e em quem nela trabalha. Retiram-se direitos, mudam-se os hábitos, dão-se novas ordens e fazem-se provocações. Acaba-se com a rede da empresa, seja ela a que sustenta os seus profissionais, seja a que sustenta o produto da empresa. E o que foi deixou de o ser. Só porque sim, porque tem de ser. Sem estratégia, sem visão de futuro, sem plano de sustentação, sem razão de ser.

Porque o Governo nada sabe, nem diz, do que quer para o serviço público de televisão. Apenas sabemos o que não quer: continuar a pagar o suficiente para que a empresa possa sobreviver.

O plano passa por acabar com a indemnização compensatória, “investir” mais de 40 milhões de euros para pagar pelo despedimento de centenas de trabalhadores sem estudo prévio que o sustente, pela alteração de conteúdos, e por descaraterizar a grelha de programação, com efeitos diretos nos níveis de audiência e nas receitas de publicidade. Os seus efeitos são já visíveis a qualquer espectador atento à grelha, e a quem perca alguns minutos a observar as grelhas de audiências dos últimos meses. Programas desfasados da concorrência, mexidas nos horários da programação, mudanças nos protagonistas, fizeram com que se instale um círculo vicioso difícil de quebrar. Menos espectadores significa menos publicidade, menos receitas significam menos capacidade de produção própria.

Internamente, o ambiente e a estabilidade dos profissionais estão a ser lesados. Aos trabalhadores, diretos implicados neste processo, a administração faz propostas inaceitáveis e provocatórias, como o trabalho “gratuito” ou o regime de “prevenção” permanente, o caos administrativo aumenta e sucedem-se as ordens de serviço, como se a gestão fosse feita em regime de navegação à vista. O mais recente efeito visível desta falta de direção é a fusão de redações já determinada, em que as dinâmicas diferentes da televisão e da rádio são o que menos parece importar. Há que juntar profissionais, unir secretárias, misturar registos. Logo se verá o que sai desta mistura potencialmente explosiva.

A verdade é que ao Governo de facto interessa pouco tudo isto, porque a estratégia é clara: “limpar” a empresa de todos os fatores que possam constituir um obstáculo à privatização da RTP, que nunca deixou de estar na mira do executivo, apesar do CDS querer brincar a defensor do serviço público. Mesmo que isso implique a “chantagem” para com os trabalhadores, com listas de “dispensáveis” em elaboração, ou com ameaças de cortes de ordenados na ordem dos 30 por cento.

O Bloco de Esquerda tem acompanhado a RTP, ouvindo os seus trabalhadores e sindicatos que os representam e a administração da empresa. Exigimos que o ministro da tutela, Miguel Relvas, revele com clareza e transparência as mudanças que quer levar a cabo na empresa. Estaremos vigilantes e exigiremos do Governo todas as respostas que estão por esclarecer neste processo. Não será sem a nossa resistência e forte oposição que o Governo irá neutralizar a RTP e aterrorizar os seus trabalhadores.

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Jornalista
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