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Selassie desmente Portas

Selassie, em resposta à questão que lhe dirigi sobre a reestruturação da dívida, afirmou que esse processo seria a ruína da banca nacional e a crise da economia portuguesa. Ah, sempre a banca! Com clareza meridiana desmente Paulo Portas e as ameaças de expulsão do euro.

Num recente debate parlamentar, Paulo Portas acusou a esquerda de pretender sair da moeda comum ao exigir a renegociação da dívida. O PCP quereria sair do euro para realizar a autarcia, o Bloco de Esquerda estaria na mesma porque julgaria ser o SYRIZA. Acrescentou, logo de seguida, que felizmente o povo português não é o povo grego. Depois namorou o PS o mais que pôde para ensaiar um casamento com separação de bens. A bem da credibilidade externa, claro.

Fixemos a acusação ao Bloco de Esquerda. A suposta relação de causa e efeito entre a renegociação da dívida aos agiotas oficiais e particulares e a exclusão do euro é, como se sabe, um embuste no plano dos factos e uma falsidade intelectual. A Grécia não teve até agora nenhum governo que fizesse realmente uma renegociação política e financeira da sua dívida, mas à beira do default obteve uma reestruturação dos encargos e até um perdão parcial do montante a pagar. E com chancela de Merkel.

Manuela Ferreira Leite, ex-colega de Portas no governo de Barroso, fez notar que a União Europeia não poderia deixar cair o país helénico, a expulsão do euro seria desastrosa para todo o Eurogrupo com a derrocada do valor e o calote acumulado no BCE.

A vida tem comprovado isso, e a reorientação do BCE, momento Draghi, embora insuficiente como banco de reserva e garantia, apesar de emissor, trouxe "flexibilizações" às pinguinhas. O caráter das "flexibilizações" é que é diferente, "aguentar" as tesourarias dos estados para "aguentar" o pagamento, sangrar mas mais devagar, continuando e agravando a exploração austeritária dos povos "intervencionados".

A realidade é que a dívida portuguesa acima de 120% do produto é insustentável e fatalmente os agiotas, ditos credores, terão de ceder em "poupanças" nacionais no montante, juros e comissões, prazos de reembolso. A chantagem da saída do euro é um falso argumento passado, e portanto um péssimo argumento para futuro, sobretudo quando a renegociação da dívida não se pode centrar na questão dos prazos, ponto partilhado agora entre o governo e o PS.

Convém insistir que a perspetiva de renegociação externa, defendida pelo Bloco de Esquerda, inicia-se pela denúncia do memorando de entendimento onde constam privatizações, retirada de direitos sociais, serviços públicos miniatura. E só essa atitude política firme é que amedronta os palácios da eurocracia e os bunkers da banca. Ninguém negoceia de joelhos, está fácil de ver que isso é a imposição da ditadura a que Portas chama o protetorado.

Curiosamente, Selassie, do FMI na troika que por cá acampa todos os três meses, em resposta à questão que lhe dirigi sobre a reestruturação da dívida afirmou que esse processo seria a ruína da banca nacional e a crise da economia portuguesa. Ah, sempre a banca! Com clareza meridiana desmente Paulo Portas e as ameaças de expulsão do euro. Como se sabia, o calcanhar de Aquiles do capitalismo luso são os donos de Portugal.

O embuste do ministro e a frontalidade do sr.FMI só realçam a necessidade política e económica da nacionalização da banca interna, quebrando a especulação sobre a dívida, injetando investimento na economia produtiva em seguida.

Com interesse também, deve notar-se a discrepância entre o governo e a troika sobre o povo português: enquanto os agiotas remetem para as dores necessárias ao ajustamento toda a revolta popular e nisso não nos distinguimos de outros, naturalizando essa expressão na Assembleia da República a propósito do 2 de Março, com cinismo q.b., já o governo prefere demarcar portugueses de gregos. Porquê?

Para Portas as virtudes moderadas cá do burgo fariam preferir a direita e o centro sobre a esquerda, sem sobressaltos de que a esquerda possa tomar o poder. O esvaziamento do PS grego é o horror de Portas tal como a luta de massas. A luta de rua da Grécia foi a única condicionalidade de política económica que não estava prevista no memorando e essa está a valer como única esperança de que os gregos saiam da tragédia moderna que os alvejou.

A hipótese de que a rua e a esquerda anticapitalista possam fazer a sua Primavera é afinal o temor. A direita só pensa na extensão da maturidade do seu governo. Selassie ao defender os ulrichs da praça aclarou involuntariamente o alcance da exigência vital do país: cortar nos juros e na dívida.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, professor.
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