You are here

Capitalismo incompetente?

Como em todas as crises, é preciso manufaturar mais pobres, porque são agora precisos mais pobres para fabricar um rico.

Li com interesse a recente entrevista de um antigo analista da agência de notação Fitch à Lusa.

Não é que as capacidades de previsão e análise das agencias de ratingsejam referência confiável, mas desta vez o oráculo faz sentido. A Fitch prevê um crescimento "muito, muito fraco" para Portugal, em torno de 1% no longo prazo e, portanto, bem longe do otimismo do Governo.

O analista entrevistado começa por admitir que muito de errado se passou em Portugal desde o momento da intervenção da Troika: "o ajustamento tem sido extremamente doloroso, o que acabou por arrastar a economia para uma recessão muito profunda. (… ) O desemprego aumentou muito mais do que alguém estava à espera", para depois concluir que "é um programa muito ambicioso e no geral está a resultar para Portugal".

É sabido que há mentiras que repetidas mil vezes se tornam verdade, mas esta começa a tornar-se ridícula. Tão ridícula como os títulossubprimeclassificados como AAA (produtos financeiros de alta qualidade). A não ser que os critérios para avaliar o sucesso do plano de ajustamento sejam outros...

Ficámos a saber, poucos dias depois, que dois dos homens mais ricos de Portugal - Alexandre Soares dos Santos e Belmiro de Azevedo - aumentaram a sua fortuna, segundo o ranking da Forbes, em 2000 milhões de euros.

Já houve um tempo em que o sucesso dos nossos self made empreendedores teria enchido de orgulho os corações mais patrióticos, mas hoje, enquanto o país se afunda em desemprego, recessão e pobreza, a notícia é simplesmente repugnante. Não é que os mecanismos de acumulação e exploração próprios do sistema capitalista se tenham alterado com a crise, apenas se tornaram mais (e cruelmente) visíveis.

À medida que a crise financeira comprime as oportunidades de lucro, as grandes empresas reagem como sempre fizeram: procuram formas de compensar a mais-valia perdida através da compressão salarial, do alargamento dos mercados (mercantilização de serviços públicos) e do reforço da competição. A austeridade é a estratégia de sobrevivência do capital transformada em política pública, em desígnio político e institucional.

Como em todas as crises, este processo de recomposição do capital reforça os mais fortes e incentiva a sua concentração no mercado à custa das desigualdades sociais, do desemprego e da aniquilação - pela falência - dos pequenos concorrentes. No caso do Continente e do Pingo Doce, falamos da falência de centenas de pequenas mercearias, lojas e empresas do sector agro-industrial.

Como em todas as crises, é preciso manufaturar mais pobres, porque são agora precisos mais pobres para fabricar um rico.

A estratégia não garantirá o crescimento da economia portuguesa no longo prazo, nem a existência de um sector económico saudável. Também não irá promover as exportações grandemente, uma vez que a nossa lumpen-burguesia opera fora do sector transacionável. Mas só pode achar que tudo isto é incompetência do capitalismo quem alguma vez teve esperanças que pudesse ser de outra maneira. Perante uma crise, e sem mecanismos públicos de controle, o capital faz aquilo que sempre fez para sobreviver e prosperar. A diferença é que desta vez, mais do que antes, a estratégia deixou de ser compatível com um Estado Social democrático, ou com a ilusão de uma possível "harmonia de classes". A questão está em saber o que foi feito dos tais mecanismos, delapidados aos longo dos últimos 30 anos, e o que fazer para os recuperar.

Sobre o/a autor(a)

Deputada. Dirigente do Bloco de Esquerda. Economista.
(...)