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Portas da Cidade: uma praça de gente madura

Na mesma data em que há 118 anos foi decretada a autonomia da Região, em Ponta Delgada, ilha de São Miguel, centenas de pessoas juntaram-se para chumbar o governo da Republica.

À hora da concentração, eram mais ou menos 300 pessoas. Os manifestantes chegaram em família, em grupos de amigos ou com colegas de profissão. Destaca-se a grande participação do movimento de professores precários, a presença da APRe! e da União de Sindicados de São Miguel e Santa Maria.

“Passos e Troika desapeguem-se daqui” foi a faixa que encabeçou a marcha e, para bom entendedor de expressões micaelenses, era suficientemente esclarecedora acerca da posição das centenas de pessoas que saíram à rua: Basta!

Com gente de todas as gerações e muitas palavras de ordem, nem a ameaça de chuva impediu que ao longo do percurso mais pessoas se fossem juntando.

À passagem pela repartição das finanças e pela sede do partido maioritário da coligação do governo, houve direito a palavras especiais que continuaram rua fora até à passagem pelo Banco de Portugal, onde também está o BPI, BES e CGD. Aí não faltaram forças nem vontade para gritar que “quem deve aqui dinheiro é o banqueiro!”

À mesma hora da passagem pela “zona da banca”, não muito longe dali, o Partido Socialista apresentava a candidatura de José Contente à Câmara Municipal de Ponta Delgada.

À comunicação social, Carlos César afirmou que o PS deve saber responder ao descontentamento do Povo. José Contente seguiu pela mesma linha dizendo que “irá colocar todo o seu saber ao serviço de todas as pessoas”. Uma candidatura que é apresentada entre quatro paredes enquanto todas as pessoas e o descontentamento está à mesma hora na rua parece ter começado mal.

Mas enquanto os militantes do PS e seus amigos se reuniam de fato e gravata prometendo responder ao descontentamento e servir as pessoas, as Portas da Cidade foram-se enchendo de gente séria: o povo descontente.

Apesar do céu e chão cinzentos, as faixas, artazes e a energia popular ajudaram a colorir a praça e, à semelhança das outras cidades, foi lida e aprovada uma moção de censura popular seguida de uma tribuna livre, dando a palavra a quem se quisesse fazer ouvir.

No compasso de espera para a “hora da Grândola” destacou-se a intervenção da Rita, de 8 anos, com plena consciência de que “se mandarmos o Passos Coelho embora os nossos sonhos podem ser verdade”. A ela juntou-se a Ema, com pouco mais de 10 anos que cantou “Os Vampiros” e arrancou uma salva de palmas de esperança. Zeca Medeiros e Teresa Gentil, vencedores do prémio “José Afonso”, ajudaram a afinar as vozes e antes da “grandolada” já na praça se ouvia Zeca.

À hora marcada, uma hora mais cedo nos Açores, ao som das baladas do relógio da Matriz, o povo soltou a Grândola entre sorrisos e lágrimas.

No final, que foi só o começo, o sentimento de união deixou-nos mais fortes e com a certeza de que, se há 118 anos lutámos pela conquista da autonomia da Região, todos juntos vamos recuperar a soberania do povo português.

E, se a gente já não sabe como se faz, a gente aprende, porque este país também é nosso!

Sobre o/a autor(a)

Produtora cultural e ativista social
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