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Ninguém sabe como apagar as luzes do novo aeroporto de Berlim

Deveria ser o mais moderno do mundo e ter sido inaugurado em 2011. Mas o orçamento derrapou para o dobro, a sua capacidade em passageiros/ano diminuiu, e não se sabe quando estará pronto. A famosa eficiência germânica naufraga num escândalo sem fim.
Ninguém sabe apagar as luzes o "mais moderno aeroporto do mundo", que ninguém também sabe quando será inaugurado. Foto de euroluftbild.de euroluftbild.de, wikimedia commons.

As luzes feéricas do novo aeroporto internacional de Berlim iluminam a noite que, no Inverno da capital alemã, começa cedo. Uma iluminação brilhante inunda os 118 balcões de checkin, os mais de 100 pontos de autocheckin, as instalações para receber simultaneamente 110 aviões, oito do quais de grandes dimensões, que podem ser o gigante Airbus A380.

As luzes estão acesas, mas não iluminam qualquer atividade, exceto a de duas centenas de operários que trabalham em marcha lenta. O motivo: o mais moderno aeroporto do mundo deveria ter sido inaugurado em 2011, mas, dois anos depois, ainda não foi. E não se sabe quando será.

Mas então, porque não se apagam as luzes? Não se poderia poupar muita energia, tão escassa e tão cara nos dias de hoje, e particularmente num país que quer dar um exemplo de austeridade para toda a Europa? A resposta embaraçosa é dada por uma hilariante reportagem do insuspeito site da revista alemã Der Spiegel: não se pagam as luzes porque não podem ser apagadas. Não há interruptores. Coisas da modernidade germânica.

Orçamento derrapou para o dobro

O aeroporto de Berlin-Brandenburg começou a ser construído em 2005, com um orçamento de 2.400 milhões de euros. As previsões atuais são de que os custos cheguem a 4.330 milhões. Mas a derrapagem pode ser maior, porque a data de inauguração ainda não está marcada, e o responsável pelo aeroporto recusa-se a marcá-la. Horst Amann, diretor técnico do aeroporto, disse à imprensa que só avançará com uma data quando se puder responsabilizar por ela.

Segundo a Der Spiegel, os operários dedicam-se agora a deitar abaixo paredes e tetos para inspecionar cabos elétricos, condutas de ventilação e detalhes estruturais. A revista afirma mesmo que já houve quem sugerisse que todo o complexo fosse demolido e construído de novo. O diretor, é claro, diz que isso é um disparate.

O aeroporto, que leva também o nome do antigo chanceler Willy Brandt, foi construído para substituir os de Tegel e de Schönefeld, e inicialmente estava previsto que pudessem passar por ele 45 milhões de passageiros por ano. Agora, oito anos depois de se ter iniciado a construção, já só se prevê que tenha capacidade para 27 milhões, e a sua capacidade real poderá ser menor, de 17 milhões, de acordo com um consultor ouvido pela The Economist.

Um escândalo que não acaba nunca

O plano inicial de construir o aeroporto só com investimento privado foi abandonado, devido às disputas judiciais intermináveis em que se envolveram os dois consórcios concorrentes. O empreendimento passou assim a ser público, tendo como sócios a cidade e os governos do Estado e federal.

Para começar a construção, foi preciso demolir duas aldeias e deslocar 350 habitantes. Cerca de cem mil pessoas sofrerão com o barulho, quando, com pequenas alterações poderiam ser apenas 30 mil as pessoas atingidas. Mas o mais grave, ainda para mais num país com o mito da eficiência, foram os múltiplos problemas técnicos que surgiram durante a construção e que persistem.

Problemas de design, do sistema contra incêndios que em maio passado foi o responsável pelo adiamento, parques de estacionamento subdimensionados, um escândalo que não acaba nunca, no dizer da Der Spiegel.

Valha a verdade que os atrasos de grandes obras não são, afinal, novidade no país. A construção de uma enorme estação de comboios de Stutgart está fora de prazo. A inauguração do maior porto de contentores da Alemanha já foi adiada várias vezes, até abrir apenas parcialmente em setembro. Até a mudança da agência estatal de espionagem de Munique para Berlim teve de ser adiada devido aos atrasos da construção da nova sede.

Segundo Horst Amann, diretor técnico do novo aeroporto, foi contratada uma empresa de “caçadores de talentos” para encontrar alguém capaz de responder ao desafio: descobrir os interruptores das luzes. Era uma piada, claro.

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