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Eliminar grandes predadores desequilibra o clima

Eliminar grandes predadores como leões, lobos e tubarões é trágico, ruim para os ecossistemas – e pode piorar as mudanças climáticas. As extinções em massa de grandes animais das florestas, pastagens e oceanos já poderá estar a acrescentar gases do efeito estufa na atmosfera. Artigo de Fred Pearce publicado por Instituto CarbonoBrasil
Eliminar grandes predadores como leões, lobos e tubarões é trágico, ruim para os ecossistemas – e pode piorar as mudanças climáticas. Foto de Dennis from Atlanta/Flickr

Trisha Atwood, da Universidade da Colúmbia Britânica em Vancouver, Canadá, estudou o efeito de retirar peixes predadores de lagoas e rios no Canadá e na Costa Rica. Numa série de ecossistemas, climas e predadores, ela descobriu um padrão consistente: as emissões de dióxido de carbono aumentaram tipicamente mais de dez vezes depois que os predadores foram retirados.

“Parece que os predadores em muitos tipos de ecossistemas – marinhos e terrestres, assim como de água doce – podem ter um papel muito grande nas mudanças climáticas”, disse ela à New Scientist.

Os impactos ecológicos generalizados e dramáticos da perda dos maiores predadores são bem conhecidos.

Na “cascata trófica”, as presas dos maiores predadores eliminados proliferam, o que por sua vez coloca pressão nas espécies que a presa come, e assim por diante na cadeia alimentar. Dessa forma, as mudanças no topo de uma cadeia alimentar desestabilizam o equilíbrio de várias populações.

Mas os impactos geoquímicos das cascatas tróficas, incluindo qualquer impacto nas emissões dos ecossistemas, são muito menos conhecidos. O estudo de Atwood sobre ecossistemas de águas doces mostrou como mudanças em espécies da base da cadeia alimentar, como algas fotossintéticas, a seguir à retirada de um grande predador, aumentaram dramaticamente o fluxo de CO2 do ecossistema para a atmosfera.

O efeito nem sempre será o aumento das emissões de CO2, no entanto – algumas vezes a perda de grandes predadores poderia diminuir as emissões, afirmou ela. “Mas mostramos que algo aparentemente tão sem relação, como pescar toda a truta de uma lagoa ou retirar tubarões do oceano, poderia ter grandes consequências para a dinâmica dos gases do efeito estufa.”

Ajuda das algas

Outros estudos recentes têm sugerido efeitos semelhantes. No último mês de outubro, Christopher Wilmers, da Universidade da Califórnia, Santa Cruz, relatou como o desaparecimento de lontras marinhas está ligado ao aumento das emissões de CO2 do litoral norte-americano (Frontiers in Ecology and the Environment, doi.org/khz). Sem lontras para comê-los, os ouriços do mar multiplicam-se e comem as florestas de algas (Kelps) – frequentemente conhecidas como “florestas tropicais dos oceanos” – resultando em grandes emissões de CO2.

Os modelos climáticos globais ainda não levam tais impactos em conta. Atwood declara que eles podem ser importantes, já que as emissões de água doce podem estar a par com a influência do desmatamento, que é responsável por cerca de 15% das emissões de CO2 causadas pelos humanos.

Os ambientalistas comemorarão os resultados como mais evidência de que é essencial proteger os habitats naturais e as espécies do topo das cadeias alimentares. Mas há um lado sombrio. Um estudo recente descobriu que alguns ecossistemas insulares ao redor da Nova Zelândia armazenam 40% a mais de carbono do que os outros por causa dos seus principais predadores – ratos invasores que estão a acabar com as colónias de aves marinhas. Aparentemente, os ratos são bons para o clima. (Biology Letters, doi.org/bbmtw9)

Artigo de Fred Pearce da New Scientist
Traduzido por Jéssica Lipinski, Instituto CarbonoBrasil

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