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Lincoln e a escravidão: Nem tanto ao céu, nem tanto à terra

Os documentos históricos permitem-nos pensar que ainda que a emancipação geral tenha sido um ganho político do seu governo, Lincoln e muitos dos seus aliados não acreditavam na convivência pacífica entre brancos e negros em liberdade. Não se reconhecia nos afro-americanos os mesmos direitos sobre a formação nacional que tinham os homens brancos. Por Maria Clara Sales Carneiro Sampaio, investigadora da Universidade de São Paulo
O poder representativo da figura de Lincoln e das suas conquistas políticas é interpretado frequentemente sem se levar em conta a complexidade histórica que envolveu o processo de abolição da escravidão

Com o recente lançamento do filme de Steven Spielberg, tem-se aberto mais espaços de discussão e crítica sobre o papel histórico de Abraham Lincoln no processo de abolição da escravidão por via da Guerra da Secessão (1861-1865). Por um lado, tem-se renovado o seu potencial simbólico positivo para a história afro-americana. Nesse sentido, podemos usar de exemplo as repetidas menções à memória de Lincoln em diversos momentos da eleição, do mandato e reeleição de Barack Obama, o primeiro presidente afrodescendente a governar os Estados Unidos. Anteriormente, a figura de Lincoln também havia sido apropriada por diversos setores dos movimentos dos direitos civis (entre as décadas de 1950-60) que encerraram as políticas que segregavam homens e mulheres afro-americanos, principalmente nos estados do Sul.

É indiscutível que Lincoln está entre as maiores figuras políticas do século XIX e que o seu legado transbordou as fronteiras geográficas de seu país. Foi durante a sua administração que os Estados Unidos se reunificaram após uma guerra civil extremamente violenta. Em seu governo também se aprovou a 13ª emenda constitucional, que emancipava todos os escravos nos limites do território nacional. Entretanto, o poder representativo da sua figura e das suas conquistas políticas é interpretado frequentemente sem se levar em conta a complexidade histórica que envolveu o processo de abolição da escravidão e as políticas de integração social dos homens e mulheres afrodescendentes a partir daquele momento histórico.

Sem prejuízo à importância sem igual de Lincoln para o imaginário político dos Estados Unidos, durante seu governo tentou-se negociar projetos de colonização que pretendiam transferir grandes números de trabalhadores e trabalhadoras afro-americanos para diversos lugares da América Central, Caraíbas e para o Brasil, entre outros. Esse “projetos de colonização”, como foram chamados na época, tinham intenções comerciais de caráter abertamente imperialistas. Pretendia-se que companhias norte-americanas adquirissem terras em localidades geoestratégicas para receber afro-americanos que serviriam como mão-de-obra no cultivo de produtos para exportação.

No Brasil, por exemplo, pretendia-se adquirir terras no Vale do Rio Amazonas, a despeito de o país contar com inúmeras outras áreas pouco habitadas e exploradas. Essas iniciativas, embora nunca se tenham realizado, alimentaram incómodas negociações diplomáticas que eram recebidas pelas recém independentes repúblicas centro-americanas, por exemplo, com grande temor. Receava-se que a intervenção de companhias norte-americanas em vastas extensões de terra exploradas por mão de obra estrangeira poderia acarretar na perda de controlo sobre parte dos territórios nacionais. O outro “lado” dessas negociações, contudo, guarda ainda mais aspetos interessantes que podem contribuir para a discussão sobre o simbologia histórica de Lincoln para homens e mulheres negros não só nos Estados Unidos, mas também em outras sociedades nas Américas.

A intenção desses projetos de colonização não era apenas estabelecer áreas de influência política e económica na América Latina, mas principalmente conseguir uma “solução” para o “problema do negro”, ou seja, a convivência inter-racial nos Estados Unidos. Os documentos históricos provenientes dessas negociações permitem-nos pensar que ainda que, ao final, a emancipação geral tenha sido um ganho político do seu governo, Lincoln e muitos dos seus aliados não acreditavam na convivência pacífica entre brancos e negros em liberdade. Não se reconhecia nos afro-americanos os mesmos direitos sobre a formação nacional que tinham os homens brancos, em especial os de origem inglesa. Os projetos de colonização pretendiam de certa forma livrar o país de um mal que, em algum momento, tinha sido considerado necessário para o desenvolvimento de diversos setores da economia. Ainda que africanos e afrodescendentes tenham estado presentes na grande maioria das regiões de ocupação mais antiga dos Estados Unidos, eles nunca deixaram de ser considerados estrangeiros em alguma medida. Não se reconhecia nas contribuições sociais e culturais deles algo legitimamente nacional.

Lincoln, com a sua imensa importância e inteligência, era um homem branco do seu tempo, limitado por uma série de estruturas de pensamento que nem nos permitem endeusá-lo nem crucificá-lo sem preocupação crítica. Os projetos de colonização, que eram tão caros a ele, não apagam as suas contribuições e sequer podem ser considerados como inovações da sua administração. A criação da Libéria dos anos 1820, por exemplo, que pretendia retornar ao continente africano ex-escravos provenientes dos Estados Unidos foi uma espécie de irmã mais velha dos projetos de colonização. A proposta feita para Amazónia, em 1862, também não foi a primeira que incomodou o governo brasileiro, nem a última. Com distanciamento histórico, os projetos de colonização do governo Lincoln expressam mais uma permanência no ideário norte-americano em querer retirar da sua sociedade os afrodescendentes, que um traço particular de sua figura política.

O filme “Lincoln” foi amplamente baseado num livro feito a partir de uma pesquisa documental séria (“Team of Rivals: The Political Genius of Abraham Lincoln”, de Doris Kearns Goodwin) e é focado na contribuição pessoal dele e de uns outros poucos para a aprovação da 13ª emenda constitucional. Mesmo assim, não se mostrou nada sobre a contribuição dos próprios negros para essa vitória política, que transcende Lincoln e o seu governo. Sequer se mencionou a importância que tiveram os debates entre ele e o intelectual afro-americano Frederick Douglas, pouco antes de ter sido eleito pelo recém-fundado Partido Republicano. A abolição da escravidão nos Estados Unidos foi um processo fragmentado e violento onde a quotidiana resistência pessoal dos escravos e escravas, as rebeliões organizadas e o ativismo pioneiro de intelectuais afro-americanos formaram as verdadeiras bases para que a emancipação geral se tornasse possível.

Maria Clara Sales Carneiro Sampaio faz doutorado em História Social na USP e pesquisa os projetos de expatriação de afro-americanos para a América Latina e as Caraíbas durante a Guerra da Secessão.

23/1/2013

Publicado na Carta Maior

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