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Queremos mesmo aguentar?

Aceitamos as tragédias como um mal necessário, as dificuldades como um calvário inevitável. O caminho que nos mostram esconde outros que podemos seguir.

Nas mãos de Geppetto, Pinóquio respondia a cada dedilhar nos seus cordéis. Dócil ou gentil, zangado ou resignado, reagia, sem vontade própria, aos desígnios de quem idealizava o guião do seu quotidiano.

A vida do Pinóquio manietado era de uma tranquilizadora simplicidade. Respondia com exatidão ao que dele era esperado, aceitava o mundo na única perspetiva que lhe era mostrada; não havia a hipótese de erro, havia apenas a possibilidade da mediania imposta, sem alegrias contagiantes, sem tristezas de duradoura marca.

A vida de Pinóquio alquimiado com vida era atreita ao erro, tal como à felicidade indescritível. Comportava o risco da amargura exasperante, bem como da rejubilante satisfação. Errado ou certo, Pinóquio viveu a plenitude da vida quando se solta da segurança dos cordéis que antes comandavam cada um dos seus passos.

Libertado dos seus cordéis, das amarras que ditavam um presente sem escolha, Pinóquio mentia e enganava, da mesma forma que sonhava sem limites, era justo e altruísta. Exigiu o esforço de compreender a realidade, de refletir sobre todas as perspetivas das suas ações e implicou a hercúlea tarefa de que se escusa a maioria: decidir.

Ainda que dotados de vida, optamos por subverter o desejo de Pinóquio. Entregamo-nos a cordéis dedilhados por outros; abraçamos as suas perspetivas, ludibriados apenas por falsas noções de alguma liberdade: votamos por simpatia induzida e não por ideias, aceitamos dádivas que exigem pagamento, esquecendo que a grandeza está na ausência da necessidade de reciprocidade.

Entregamo-nos em demasia ao que é esperado de nós, tememos o rótulo da diferença ou do extremismo, quando os mesmos são apenas um desvio milimétrico das perspetivas que apresentam os nossos Geppettos.

Aceitamos as tragédias como um mal necessário, as dificuldades como um calvário inevitável. Aceitamos injustiças e desigualdades como um cancro que não se escolhe, apenas se sobrevive. Trabalhamos por menos por entre surdinas de lamúrias, temos menos dignidade por entre olhos franzidos de preocupação, mas dançamos ao dedilhar dos cordéis, aqueles a que nos enredamos, apenas para escapar ao agir.

Os olhos, direcionados por delicados mas precisos cordéis, veem apenas uma nesga da realidade, aceitam vezes demais o inevitável pela ausência de alternativas vislumbráveis. Sem cordéis corremos o risco de nos perdermos, mas corremos igualmente o risco de descobrir a vivacidade de todas as cores que nos são vedadas de uma realidade que nos querem fazer crer ser apenas cinzenta.

Cordéis mais subtis conduzem a nossa mente, sempre por estreitos caminhos que não permitem a dispersão. A paisagem é apenas o passo seguinte e o passo anterior. Supomos que tudo é igual, para que assim se estranhe a diferença, para que se construa a ideia de que seja com que Geppetto for, o caminho será delineado em papel químico.

Aceitamos que para os bancos seja desviado o dinheiro que garante a Constituição, que seja mercantilizada a liberdade, a dignidade, a proteção social. Aceitamos uma doença crónica sem nunca ter tido sintomas, aceitamos uma dívida sem recordação do dinheiro gasto. Aceitamos, apenas porque custa em demasia mexer por nós próprios as mentes e a mente.

Ridicularizamos quem pensa diferente, afinal tolice é ver para além dos cordéis que nos movem. Policiamos quem solta um ou outro cordel, solicitando faturas em nome dos Geppettos, enquanto entre eles reina somente a disputa de quem manieta mais Pinóquios.

O caminho que nos mostram esconde outros que podemos seguir. Aceitamos os buracos e solavancos de uma degradada estrada despavimentada, quando ao nosso lado se estende uma auto-estrada.

Oiço demasiadas reclamações, por entre as distrações dos Geppettos que contam os seus lucros e feitos macabros na manietação de Pinóquios. Mas logo se lhes entregam os cordéis, logo se continua a percorrer a estreita linha da conformidade.

Rodeio-me de enfermeiros, revoltados por um trabalho cada vez mais precário, convivendo com cortes salariais significativos, com o sofrimento de pessoas esquecidas por um desinvestimento na saúde digna, com rácios terceiro-mundistas. Mas o trabalho segue, silencioso, afinal os cordéis ditam que assim o seja, e todos o aceitam. O errado torna-se a normalidade e em breve ninguém se recordará de como em tempos o caminho foi menos sombrio.

Rodeio-me de Pinóquios que se abstêm de mentir, mas que se abstêm também de ser verdadeiros. Vivem, sem viver, entregando-se a quem conduza por elas a vida. Vivem como parte de um guião sem improviso, de desfecho tão previsível como a mais paupérrima novela latina. Vivem como variáveis fixas que visam apenas cumprir o que deles se espera, não pedindo nada do que eles um dia esperaram.

Aguentar, aguentamos. Libertemo-nos agora dos cordéis, ousemos olhar o mundo em redor; queremos mesmo aguentar?

Sobre o/a autor(a)

Enfermeiro. Cabeça de lista do Bloco de Esquerda pelo círculo Europa nas eleições legislativas de 2019
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