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Da Força das Lutas

Urge melhorar a qualidade e a sustentação das propostas alternativas e as formas/meios de as comunicarmos.

Para quem pensava que a simples deterioração das condições de vida, a par com a violência do programa da troika fiel e requintadamente executado pelo governo português seria suficiente para o deflagrar da contestação, não há como não saborear o fel da desilusão e da descrença. Não há automatismos na génese das lutas sociais. No contexto atual (na formação social concreta em que vivemos, para usar termos marxistas que nos afastam da abstração), vários são os fatores que contribuem para um estado de baixa intensidade dos conflitos sociais:

- a precarização e o desemprego, com os sentimentos que lhe estão associados de atomização, fragmentação, insegurança, incerteza, vergonha e des-filiação social (perda de contactos, de sociabilidades, de redes);

- a naturalização da inevitabilidade, com a consequente descrença no fluir dos acontecimentos;

- a eficácia (apesar da desorganização e incompetência técnica do governo) em fraturar ideologicamente os mais desfavorecidos, jogando precários contra fixos, trabalhadores do privado contra funcionários públicos, pobres contra pobres, etc.;

- a cumplicidade do PS e da UGT na manutenção do status quo da troika;

- a insuficiente visibilidade (por razões endógenas e externas) das propostas alternativas do Bloco de Esquerda e do PCP;

- o apelo da igreja (com contradições e dissonâncias) à resignação, usando o papel amortecedor do terceiro setor social;

- a desconfiança mais ou menos generalizada face às instituições políticas como um todo (englobando partidos de esquerda e sindicatos), juntamente com um forte sentimento de distância face ao poder

Urge pois, como tarefa que podemos controlar, melhorar a qualidade e a sustentação das propostas alternativas e as formas/meios de as comunicarmos. Trabalho de grande exigência, tempo e paciência. É por aí que vamos!

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário, Presidente da Associação Portuguesa de Sociologia. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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