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À sombra dos grandes asteroides

A curto prazo, o seu risco é irrelevante. Mas a história mostra: mesmo a colisão de um objeto astronomicamente pequeno pode abalar a vida terrestre. Por Joel Achenbach.
O asteroide 1012 DA14.

Na última sexta-feira, a Terra viu-se no meio de um tiroteio cósmico. O petardo maior veio do Sul; o menor, do Leste. Eram objetos sem relação entre si, com órbitas distintas. Um, do tamanho de um prédio de apartamentos; o outro, bem menor, mas com mira mais precisa.

O asteroide maior errou o alvo por 28 mil quilómetros, como esperado, mas o meteoro russo roubou o espetáculo, caindo como uma bola de fogo entre os Montes Urais e explodindo em fragmentos, criando uma poderosa onda de choque que estourou vidros, derrubou telhados e feriu 1,2 mil pessoas – a maior parte, vítima de vidros partidos.

Foi com certeza o meteoro mais intensamente documentado na História — capturado por inúmeros motoristas russos, com as suas câmaras acopladas a telemóveis. O espetáculo marcou um dia extraordinário para o planeta. O objeto, que explodiu sobre a cidade industrial de Chelyabinsk, causou o maior impacto humano num século e foi o primeiro, nesse período, a provocar vítimas – ao menos 48 pessoas hospitalizadas.

O asteroide esperado há muito – o 2012 DA14 – passou por nós de modo inofensivo, como os cientistas tinham prometido. O texto a seguir é sobre ele, a mística e as ameaças reais representadas por objetos semelhantes.

Os observadores de asteroides que são sérios conhecem os grandes por nome, diâmetro, composição, órbita, giro e potencial perigo. Existe o Apophis, por exemplo, uma pedra maior que o Pentágono, que, em 13 de abril de 2029, passará tão perto da Terra que poderá ser visto a olho nu, a ponto de acelerar corações. Também há o Toutatis, do tamanho de uma montanha que está a cair, por sorte, a uma distância segura. E também o 2005 YU55, de 400 metros de comprimento, que passou próximo do planeta, a uma distância quase igual à da Lua, há mais de um ano.

E agora veio o 2012 DA14, uma pedra do tamanho de um prédio, que nesta sexta-feira zumbiu próximo da Terra, a uma distância de 27, 5 mil km. Não constituiu perigo. Não gerou brisa suficiente para perturbar um único grão de areia sob o sol. O DA14 é pequeno demais para ser visto a olho nu. Apesar de passar bem dentro da órbita dos satélites de comunicação, a possibilidade de atrapalhar o seu programa de televisão favorito era infinitamente remota.

Cientistas notaram que nunca havíamos detetados um asteroide tão grande passando tão perto de nosso planeta. A palavra chave aqui é “detetar”. Astrónomos têm ampliado a sua habilidade em ver coisas que, apenas há algumas décadas seriam invisíveis. O universo continua a tornar-se mais claro, e parece ser mais confuso que os antigos admiradores de estrelas poderiam ter imaginado.

“Trinta anos atrás, nós não seríamos capazes de achar essa coisa,” disse Michael Busch, um astrónomo planetário no Rádio-Observatório Astronómico Nacional, em Socorro, Novo México, EUA. Busch estima que um objeto desse tamanho deve passar a essa distância da Terra a cada uma ou duas décadas, em média. O cientista é parte de um grupo de pesquisadores que usaram quatro telescópios, instalados entre a Califórnia e o Novo México, para escapar dos sinais de radar, na tentativa de entender como o DA14 está a girar. O tamanho e forma precisos do asteroide são incertos. Nos telescópios, o DA14 é apenas um ponto brilhante. Isso vai mudar a partir de agora, quando os astrónomos o tiverem observado a aproximar-se e a partir.

O DA14 não é um asteroide antigo. É provável que seja remanescente de uma colisão no cinturão de asteroides, nos últimos milhões de anos, diz Busch. Tais rochas têm vida limitada: quando a luz do sol alcança as suas superfícies desiguais, elas giram cada vez mais rápido, até finalmente explodirem, um processo conhecido como efeito YORP (uma homenagem aos cientistas que os estudaram: Yarkovsky, O’Keefe, Radzievskii e Paddack).

A maioria dos asteroides está num cinturão famoso, entre Marte e Júpiter. Alguns deles são tão grandes que chegam a ter as suas próprias luas. Pelo menos dois asteroides orbitam o Sol na direção contrária de todo o resto do sistema solar. Alguns deles giram ordenadamente num único eixo; outros, como o Toutatis, rolam caoticamente, como se alguém lhes tivesse dado um pontapé de modo distraído.

Qualquer asteroide que passe a uma distância de 50 milhões de quilómetros da órbita terrestre é considerado um Objeto Próximo da Terra (NEO, em inglês). Existem centenas de milhares de NEOs, e os cientistas acreditam que já mapearam aproximadamente 95% dos maiores NEOs – os que seriam muito perigosos para a civilização, se acertassem no planeta. Nenhum dos encontrados até agora está em rota de colisão com a Terra.

O único impacto conhecido de um asteroide de tamanho considerável na história humana ocorreu em 1908 – o “evento Tunguska”. Não está claro se o objeto chocou-se contra o solo ou explodiu na atmosfera. O impacto arrasou uma vasta área de florestas remotas na Sibéria. Pesquisadores disseram, em 2012, ter encontrado um pequeno lago que surgiu sobre a cratera aberta pelo impacto, mas isso ainda permanece controverso.

O visitante da semana, DA14, é levemente maior do que o meteoro [um meteoro é um asteroide que se choca com o planeta] que atingiu a região de Tunguska. Tais asteroides provavelmente atinjam a Terra apenas uma vez a cada 1200 anos, em média, estimam os cientistas.

Vista num período de tempo mais longo, a hipótese de um grande impacto torna-se certeza. Os asteroides são pacientes e operam em escalas temporais diferentes de nós, meros mortais. “Não é o tipo de coisa para entrar em pânico,” diz Davis Kring, um geólogo no Instituto Planetário Lunar de Houston, Texas, EUA. “Mas é uma ameaça real, e nós deveríamos dar passos prudentes para compreender melhor o perigo. Quais são esses passos prudentes? Primeiro, um geológico — estudar o passado geológico e medir as consequências dos impactos anteriores.”

Por muito tempo, os geólogos negligenciaram esse fenómeno, porque eram intelectualmente relutantes a aceitar qualquer coisa que cheirasse a catastrofismo. A teoria do “uniformismo” via o mundo em termos de processos lentos e graduais — uma visão que ajudou Charles Darwin a desenvolver a sua teoria da evolução.

O catastrofismo retornou depois que a equipe pai-e-filho formada por Luis e Walter Alvares anunciou, em 1980, ter descoberto irídio em sedimentos que marcam o fim do Período Cretáceo, quando os dinossauros e metade das espécies do planeta desapareceram, numa extinção em massa. Irídio é raro na Terra, mas relativamente comum em asteroides. Uma década depois, os cientistas disseram ter associado o impacto do fim do Período Cretáceo a uma grande cratera na península Yucatan, perto da cidade de Chicxulub, no México.

“Parte da força deste novo ponto de vista está em que um impacto relativamente pequeno, de um objeto de 16 quilómetros, foi capaz de redirecionar o curso da evolução,” diz David Morrison, cientista da NASA e grande entusiasta do mapeamento dos NEOs. “O seu poder foi imenso,” diz ele. “Foi um objeto geologicamente muito pequeno, mas que teve impacto tremendo na biologia.”

Adormecendo nalgum lugar na terra, erodidas, enterradas e aplainadas pelo tempo, há mega-crateras, remanescentes do que os cientistas chamam de Bombardeio Pesado Tardio, ocorrido há cerca de 4 mil milhões de anos. Não sabemos se a vida já tinha aparecido quando pedras de 112 km chocaram-se contra o planeta; mas não era, provavelmente, uma boa época para estar vivo.

“Os oceanos fervem,” diz Jay Melosh, um geólogo na Universidade Purdue, especialista em crateras provocadas por impactos. “A maior parte dos oceanos evapora, forma-se uma atmosfera de vapor que dura milhares ou dezenas de milhares de anos e a superfície, é claro, torna-se imensamente hostil.”

O estudo das antigas crateras é, num certo sentido, reconfortante. Elas são difíceis de encontrar porque esse mundo não é um lugar estático, mas vivo e dinâmico. A cada vez que olhamos para a Lua — fria, cinza e cheia de crateras — vemos o que poderíamos ter sido.

Tradução: Gabriela Leite para o Outras Palavras

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