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3 minutos para o Mali

No PE, o Presidente francês François Hollande falou pomposamente sobre a herança, os valores e os princípios europeus. Bastaram-lhe 3 minutos para falar, justificar e vender a bondade da intervenção francesa no Mali. Hollande é soft em tudo, menos na guerra.

"A Europa é um continente de paz e democracia que não busca nada para si, mas trouxe ao resto do mundo a sua herança, os seus valores e princípios. A Europa deve desempenhar o seu papel na luta pela democracia, pela dignidade humana. É por isso que eu decidi, em nome da França para intervir no Mali."1

Francois Hollande, 5 de fevereiro de 2013.

Sessão plenária do Parlamento Europeu, Estrasburgo.

Esta semana na sessão plenária do Parlamento Europeu em Estrasburgo, o Presidente francês François Hollande falou pomposamente sobre a herança, os valores e os princípios Europeus. Hollande refugiou-se por detrás dos chavões dos "princípios", da "herança" e dos "valores Europeus" para galvanizar o plenário a uma excitação de aplausos. Só faltava mesmo o champanhe. Bastaram-lhe 3 minutos para falar, justificar e vender a bondade da intervenção francesa no Mali. Isto tudo é cínico porque simplifica processos complexos, mascara intenções e justifica o injustificável.

Quem são os ditos terroristas?

Ao contrário do rótulo homogéneo de "terroristas", a composição dos grupos rebeldes no norte do Mali é diverso e altamente heterogéneo. Junta 3 grupos, que inclui seculares nacionalistas, radicais islâmicos e tuaregues. O primeiro grupo é o Movimento Nacional pela Libertação do Azawad (MNLA)2é uma constelação de etnias tuaregues seculares que insurgem querem a independência do Azawad (no norte do Mali e que se estende até ao Níger e a Argélia). O segundo, Asnar Dine (Defensores da Fé3), defende uma versão mais radical do Islão (o salafismo e o wahabismo) que tem como objetivo a imposição da lei da Sharia. O terceiro e último deste elenco é o Movimento da Unidade e Jihad na África Ocidental (MUJAO4) é um pequeno grupo jihadista que tem ligações à Al-Qaida do Islão Magrebe (AQIM5). Todos têm objetivos diferentes, mas o que os une é o combate ao Governo Maliano.

Como é que isto começou?

As raízes deste problema não podem ser traçadas a uma só data específica.

Durante estes tempos, o poder político tal como o aparelho de Estado vinha principalmente de grupos étnicos do sul, que representa 40% do país. O norte é pelos grupos tuaregues que marginalizados revoltaram-se e falavam na vontade de ter um estado independente.6

Mas o conflito armado iniciou-se em Março de 2012 com o golpe militar que destronou o Presidente Amadou Toumani Touré, vencedor das últimas eleições que estavam mergulhadas num processo pouco transparente. Amadou Toumani Touré era o homem forte dos franceses e dispunha todo o seu apoio em troca de valiosos nichos de mercado na economia maliana. O golpe de estado foi liderado por Amadou Sanogo, militar treinado pelos Estados Unidos, argumentando a incapacidade do então presidente de lidar com os rebeldes. Com a fuga do presidente para o Senegal, Touré foi substituído pelo presidente interino Dioncounda Traoré, o mesmo Presidente que pediu a Hollande para intervir no Mali.

Em busca do nada: o que está por detrás da motivação francesa

A França não busca nada para si e esta intervenção militar alicerça-se em dois eixos: o combate ao terrorismo e o direito internacional. Ou assim nos dizem.

Mas quanto à legalidade, Hollande tem aqui dois problemas. Enquanto no Parlamento Europeu afirmara que não tinha saído do marco legal e que foi uma decisão tomada "no contexto do direito internacional", Hollande não podia estar mais longe da verdade. Primeiro, o atual presidente do Mali não tem legitimidade social, política ou mesmo constitucional para pedir uma intervenção externa7. Segundo, a Resolução do Conselho de Segurança 2085concentra-se, apenas, nas "negociações políticas necessárias" e não fala de uma intervenção militar. Hollande faz a sua própria interpretação da resolução, para aquilo que bem quer e bem entende. Ambos os apoios "legais" em que Hollande se encosta, não existem. O atual presidente não tem legitimidade democrática e a interpretação da resolução do Conselho de Segurança foi feita à lá carte.

No que toca ao combate ao terrorismo, a tentativa da erradicação dos rebeldes a França sente a urgência de expulsar os extremistas, mas através da postura dura de Hollande, a França como ex-potência colonial, poderá suscitar uma forte resposta nacionalista. Tal como no Afeganistão, a guerra no Mali vai acabar por se revelar uma guerra extremamente impopular e um desastre humanitário que irá desestabilizar a região8.

Por detrás disto existe outra motivação para a intervenção militar: interesses económicos. Nos anos 80, o Mali enveredou por um plano de privatização dos setores estratégicos da economia maliana que foi privatizada e colocada nas mãos das multinacionais francesas9. A distribuição da energia elétrica e a indústria da extração mineira foi para a Bouygues;o setor textil para a Dagris; as telecomunicações para o gigante francês Orange; o Escritório de Niger - que gere a terra rica da bacia - tem as mãos do Delmase do Bolloré; e por último não há que subestimar o valor estratégico dos investimentos franceses na extração de urânio no Níger, zona fronteiriça com o norte do Mali onde o MNLA (Movimento Nacional pela Libertação do Azawad) e militantes da Al-Qaida do Islão Árabe instalaram o seu reduto móvel. Vendeu-se a preço de saldo e a divisão foi feita entre amigos e compinchas. Com os rebeldes a norte a está negociata em risco.

Guerra no Mali, sem fim à vista

As guerras nunca têm dignidade e as intervenções externas para resolver este tipo de conflito dá sempre asneira. Basta olhar para as últimas 2 intervenções militares para prever o que irá acontecer nesta: no Afeganistão foi (e é) um massacre, a intervenção na Líbia é um desastre.

No Mali, escreve-se a mesma história. A França terá enviado 2.500 militares10, um esforço equiparável à do Afeganistão apesar do Mali ter o dobro do tamanho. Só nos primeiros 6 dias a ONU registou mais de 150.000 refugiados e 230.000 deslocados no próprio Mali. Todos os grupos importantes dos países vizinhos foram cautelosos na não intervenção e a razão era simples: temem que qualquer ação militar contra os rebeldes os fortaleça em vez de os enfraquecer, dando azo a uma "afeganistização" do conflito.

Até há pouco tempo, a França dizia que não queria continuar a desempenhar o papel de "polícia da África" e que só iria atuar em conformidade com a ONU. Ambas as questões caem em saco roto. A intervenção francesa só traz mais problemas e nenhuma solução. Hollande é soft em tudo, menos na guerra.


1Discurso de Hollande em http://www.europarl.europa.eu/sed/speeches.do?sessionDate=20130205Referência ao Mali entre o minuto 21.26 e 24.55.

6Immanuel Wallerstein, "O próximo Afeganistão?", inDossier: 197 do Esquerda.net

8 Philippe Leymarie, "Questões sobre uma intervenção", in Dossier: 197 do Esquerda.net

9 Paul Martial, "Razões da intervenção imperialista de França", in Dossier: 197 do Esquerda.net

10 Barry Lando, "O desastre da França no Mali", in Dossier: 197 do Esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Mestre em Sociologia. Assessor do Bloco de Esquerda no Parlamento Europeu.
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