You are here

Vítor Gaspar: mi casa no es su casa

A verdade é que a economia não pode ser tratada como uma simples soma das partes. Quando passamos de uma escala doméstica (familiar) para o nível macro, a mão invisível que opera os equilíbrios neoclássicos deixa de funcionar.

É sabido, e muito à custa desta segunda Grande Depressão, que tudo o que sobra à teoria económica dominante em elegância e consistência interna, falta-lhe em aderência a uma realidade bem mais complexa que o traduzível no mais impressionante modelo matemático. O homo economicusnão existe, tal como não existe um mundo sem instituições, convenções e classes sociais.

Reza a história dominante que todo o rendimento não consumido por parte das famílias é poupança. Uma vez depositada nos bancos, essa poupança é usada para financiar o investimento das empresas. Logo, quanto maior o aforro, melhor. Se o setor público apresenta um défice, então significa que parte das poupanças que poderiam ser usadas para aumentar o investimento estão a ser consumidas pelo Estado (que, por não obedecer às leis do mercado, é necessariamente menos eficiente). Por outro lado, se a economia como um todo apresentar um saldo comercial negativo, então significa que o país está a usar poupanças de famílias estrangeiras (fica a dever fora) e, da mesma forma, a impedir o investimento e a possibilidade de crescimento económico. O melhor a fazer é, portanto, poupar mais e reduzir o défice público. Numa palavra: austeridade.

Mas vejamos a mesma história a partir de um outro prisma. Invertamos a relação: e se for o investimento (privado ou público) a fonte de poupança?

Para investir é necessário financiamento. Este pode ser obtido através da utilização de empréstimos bancários (ou acesso direto aos mercados) ou lucros não distribuídos.

O crédito bancário não é, de forma nenhuma, limitado ao nível de poupanças das famílias. O poder de criação de moeda pelos bancos é muito superior aos depósitos existentes. E os lucros? Bom, esses dependem das vendas, ou seja, do consumo. O restante processo funciona de forma circular: as vendas permitem às empresas obter as receitas que pagam salários e criam investimento. Os salários, o rendimento das famílias, são depois distribuídos entre consumo e poupança. A poupança não cria investimento, é apenas o que sobra dele.

O que é que acontece então quando, perante uma diminuição do rendimento, as famílias procuram poupar mais relativamente ao consumo? O Investimento cai, e a economia entra em recessão.

A razão é simples.

Se uma família poupar uma fatia maior do seu salário mensal, o seu património aumenta, e não acontece nada à economia como um todo. No entanto, se todas as famílias o fizerem, o rendimento agregado da sociedade será menor. A poupança impede os gastos que alimentam as vendas que financiam o investimento que cria riqueza.

O mesmo raciocínio poder ser aplicado à relação entre salários e emprego. Para uma empresa, reduzir salários pode significar uma redução nos custos que permita mais investimento. Se todos os empregadores o fizerem, o resultado será uma quebra na atividade económica, e menores lucros.

A verdade é que a economia não pode ser tratada como uma simples soma das partes. Quando passamos de uma escala doméstica (familiar) para o nível macro, a mão invisívelque opera os equilíbrios neoclássicos deixa de funcionar.

Em suma, se não é verdade que a poupança gera investimento:

1) então parte do argumento contra os défices públicos caí por terra. Ao contrário do previsto, não só as despesas do Estado não estão a “desviar” os recursos da economia, como geram atividade económica1; e

2) a redução dos salários e do consumo (associada ou não a um aumento da poupança) não é geradora de capacidade de investimento;

Na realidade, o cenário mais provável é que depressão económica causada pela austeridade torne mais difícil, quer o pagamento da dívida pública, como da dívida externa.

Por outro lado, dado o contexto de incerteza relativamente ao futuro e certeza quanto aos maus resultados do presente, o investimento não irá aumentar na economia, seja qual for o nível de poupança ou de cortes salariais. Compreendem-se melhor agora as noticias paradoxais, que anunciam níveis record de poupança em Portugal e, em simultâneo, o mais baixo investimento desde há 50 anos.

Não é preciso ser um economista do Banco Central Europeu (talvez seja mesmo melhor não ser um) para compreender que a saída da crise passa por uma combinação entre fortes medidas de investimento público (da nacionalização de sectores estratégicos, utilização da banca pública para garantir financiamento, e mesmo a redução da carga fiscal que asfixia as pequenas empresas) e a recuperação dos níveis salariais, dos direitos laborais e do Estado Social.

E aqui reside a questão: a saída óbvia para a crise implica recuar no ataque ideológico às conquistas democráticas e aceitar uma inversão na relação de forças entre capital e trabalho.

Mas estas são variáveis que não têm lugar nos modelos matemáticos de Vítor Gaspar e muito menos nos interesses de classe de Ulrich.


1A forma de financiamento desse mesmo défice pode, ainda assim, constituir um problema – não existente caso houvesse um Banco Central disposto a comprar dívida diretamente ao Estado.

Sobre o/a autor(a)

Deputada. Dirigente do Bloco de Esquerda. Economista.
(...)