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Protestos no Egito criam comparações entre Morsi e Mubarak

Os focos de violência no Egito, nas comemorações do segundo aniversário do início da Revolução de 25 de janeiro, suscitam várias dúvidas sobre o futuro do país. Artigo de Adam Morrow e Khaled Moussa al-Omrani, da IPS, publicado em Envolverde.
Manifestantes enfrentam a polícia na Praça Tahrir, no Cairo, no segundo aniversário da Revolução de 25 de janeiro. Foto: Khaled Moussa al-Omrani/IPS

Os focos de violência no Egito, nas comemorações do segundo aniversário do início da Revolução de 25 de janeiro, suscitam várias dúvidas sobre o futuro do país. Os protestos em massa contra o governo resultaram em conflitos entre manifestantes e forças de segurança, que já deixaram pelo menos 40 mortos. Foi declarado o estado de emergência em várias cidades ao longo do Canal de Suez.

“O fervor revolucionário registado no dia 25 em dez das 27 províncias do Egito nunca foi visto desde o levante popular de dois anos atrás”, disse à IPS o coordenador geral do movimento 6 de Abril, Ahmed Maher, que participou das manifestações de 2011 contra o governo. Nas semanas anteriores ao aniversário da revolução, partidos revolucionários, centristas e de esquerda, junto com várias organizações civis, convocaram os egípcios a manifestarem-se contra o presidente Mohamed Morsi e a Irmandade Muçulmana, à qual pertence.

Centenas de milhares de pessoas responderam ao chamado unindo-se aos protestos no Cairo, em Alexandria e outras grandes cidades do país. As reivindicações incluem reformar a nova Constituição, processar todos os envolvidos na morte de manifestantes e garantir que as próximas eleições parlamentares, previstas para abril, sejam transparentes. Os participantes dos protestos também criticaram a “irmanização” das instituições do Estado. Os organizadores pediram “manifestações pacíficas” e para “evitar violência”, mas não foi o caso.

Saad al Kitatni, presidente do Partido Liberdade e Justiça (FJP), braço político da Irmandade Muçulmana, responsabilizou a oposição pela escalada de violência. “As forças políticas que convocaram as manifestações, das quais parecem ter perdido o controlo, são responsáveis pelo derramamento de sangue”, publicou Kitatni no Twitter. Por sua vez, a oposição responsabilizou Morsi e a Irmandade Muçulmana pela crise. “Morsi, o seu governo e o seu partido são responsáveis pela violência”, afirmou Maher. “Ao ignorar as reclamações da oposição, Morsi comporta-se como Hosni Mubarak” – o presidente forçado a renunciar pelo levante popular de 2011.

A Irmandade Muçulmana condenou a violência. “A Revolução de 25 de janeiro foi de natureza pacífica”, diz em comunicado. Entretanto, as manifestações do dia 25 “incluíram ataques de exércitos de capangas contra a polícia, as instituições estatais e a propriedade privada”, acrescenta. A Irmandade também responsabilizou os meios de comunicação privados de “incitarem a população contra o governo” de Morsi, no poder desde junho de 2012. A maioria desses órgãos de comunicação é de propriedade de influentes empresários, que não simpatizam com essa organização islâmica.

Além disso, a Irmandade destacou que a violência foi planeada por “elementos que procuram desbaratar o curso da revolução” e condenou a oposição por justificar a violência. “É inaceitável que aqueles que reclamam justiça para os mártires da revolução realizem ações que levam mais pessoas à morte”, diz a declaração.

A situação piorou no dia seguinte ao aniversário, quando um tribunal da cidade de Port Said condenou à morte 21 homens, considerando-os culpados pela morte de numerosos adeptos no final de uma partida de futebol, em fevereiro de 2012, no estádio dessa cidade. A leitura da sentença desencadeou conflitos em Port Said entre polícia e familiares dos condenados, com saldo, de pelo, menos 30 mortos, incluídos pessoal de segurança. O exército teve de ser enviado à cidade e arredores para controlar a violência.

Também no dia 26, a Frente Nacional de Salvação (FNS), principal coligação de oposição, aumentou a aposta e ameaçou boicotar as próximas eleições parlamentares se Morsi não cumprir uma lista de exigências. Entre elas, mudanças imediatas na Constituição, substituição do atual governo por um de “salvação nacional” e a destituição do promotor geral, Talaat Ibrahim, designado por Morsi. Se tais exigências não forem atendidas de imediato, o FNS afirmou que convocará mais manifestações ainda este mês, para reativar a Constituição anterior, de 1971, embora com algumas modificações.

Segundo Maher, a única saída da crise para Morsi é “formar um novo governo com representantes de várias forças políticas, criar um comité para a reforma constitucional com vários eruditos, dissolver o Conselho da Shura (câmara alta legislativa) e aceitar a renúncia do promotor geral. Se isso não acontecer, redobraremos as reivindicações”, ressaltou, em referência velada à possibilidade de reclamar a própria renúncia de Morsi.

O porta-voz do governante FJP, Murad Ali, rebateu os ultimatos. “A oposição tem direito de protestar onde quiser de forma pacífica”, disse à IPS. “Entretanto, nenhum partido político tem direito de reclamar a renúncia de um governo eleito democraticamente, sendo que o uso da violência é, naturalmente, cruzar uma linha vermelha”, destacou.

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