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Mapa biogeográfico mundial é atualizado após 136 anos

Criado pelo naturalista Alfred Russel Wallace há mais de 100 anos, o estudo que dividia o planeta em seis regiões de biodiversidade ganhou mais cinco áreas graças aos avanços em investigações genéticas; cerca de 20 mil espécies estão catalogadas. Por Jéssica Lipinski do Instituto CarbonoBrasil

Você com certeza já ouviu falar em Charles Darwin, naturalista inglês responsável por desenvolver a teoria até hoje mais defendida no que se refere à evolução das espécies. Mas é provável que desconheça o nome de Alfred Russel Wallace, cujo principal trabalho – um mapa que divide o planeta em seis regiões biogeográficas – teve importantes contribuições para essa teoria.

O mapa de Wallace, criado em 1876, foi uma tentativa de dividir e definir o mundo de acordo com as suas espécies, e é usado até hoje em diversos tipos de investigação. Só no final do último ano, no entanto, o trabalho ganhou uma versão atualizada desenvolvida por cientistas da Universidade de Copenhaga e da Universidade McGill (Canadá), que redividiram as seis regiões biogeográficas de Wallace em 11 e agregaram mais dados sobre as espécies.

Agora, o mapa contém informações de cerca de 20 mil espécies, onde elas vivem, como mudaram através do tempo e espaço e como se relacionam umas com as outras. O trabalho usa diferentes gradientes de cor para transmitir essas relações. Áreas de cores similares têm espécies que se assemelham mais entre si do que as das áreas de cores mais diferentes.

As 11 novas regiões, por sua vez, foram subdivididas em 20 áreas menores, também de acordo com as características das espécies que as habitam. Todo este detalhe permite mostrar, por exemplo, como o Hemisfério Sul tende a ter uma abundância maior de comunidades animais únicas.

Neste aspeto, a América do Sul, a Austrália e a ilha de Madagáscar destacam-se, enquanto a variedade de vida acima da linha do Equador é menor. Acredita-se que isso ocorre por causa do relativo isolamento das áreas ao sul do equador, assim como devido aos seus habitats únicos e à abundância de chuvas e temperaturas quentes, que são fatores que estimulam uma diversidade de vida mais ampla.

“O nosso estudo é uma atualização de um dos mapas mais fundamentais das ciências naturais. Pela primeira vez desde a tentativa de Wallace somos finalmente capazes de fornecer uma descrição ampla do mundo natural baseados em informações incrivelmente detalhadas para milhares de espécies vertebradas”, declarou Ben Holt, principal autor da pesquisa, num comunicado à imprensa.

As espécies catalogadas no trabalho são sobretudo de mamíferos, aves e anfíbios. O mapa ainda não inclui dados sobre répteis, plantas ou insetos porque essa informação é menos completa, mas poderá ser incorporada facilmente assim que se tornar disponível, afirmaram os cientistas.

ADN

A acumulação de novos dados só foi possível, entretanto, por causa dos avanços da tecnologia científica, principalmente em relação a estudos genéticos baseados em investigações com o ADN das espécies, algo que não era possível na época de Wallace.

“O mapa é o resultado de 20 anos de compilação de dados sobre a distribuição geográfica de espécies e informações baseadas em ADN que permitem reconstruir relações ancestrais entre as espécies”, comentou Jean-Philippe Lessard, coautor do estudo, em entrevista ao Portal Instituto CarbonoBrasil.

“A extração de DNA tornou-se mais acessível na última década, o que permitiu o ganho de novos conhecimentos na evolução de relações entre espécies. É esse conhecimento baseado no ADN que permite criar uma nova geração do mapa das regiões biogeográficas dos vertebrados do mundo”, explicou Lessard.

Conservação

Além de ser extremamente importante para o desenvolvimento de investigações no ramo das ciências naturais, permitindo conhecer cada vez mais sobre as espécies, seus habitats e suas relações, o mapa também tem um papel chave no que diz respeito a tentativas de conservação.

“Já que esses mapas são usados não apenas nas ciências naturais, mas também para estabelecer prioridades para a conservação, é importante que tenhamos um mapa atualizado como ferramenta de trabalho”, observou Lessard.

“Além disso, o nosso mapa baseado em ADN fornece novas informações sobre relações entre regiões, o que permite quantificar o grau de singularidade evolutiva de cada uma. Isso talvez mude a forma que vemos as prioridades de conservação, o que é mais relevante devido à atual crise de biodiversidade”, acrescentou o coautor canadiano.

Mas apesar de todos os novos dados, os investigadores ressaltaram que ainda é necessário muito estudo para entender completamente a evolução das espécies em todos os seus aspetos.

“O mapa original de Wallace claramente teve uma influência grande e inquantificável no estudo de biodiversidade global. O novo mapa mostra o incrível progresso que fizemos desde o tempo de Wallace e também serve como um lembrete de que ainda sabemos muito pouco sobre como esses padrões [de distribuição da vida] foram formados”, concluiu Holt.

Por Jéssica Lipinski do Instituto CarbonoBrasil

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