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Os debates de política económica nos EUA

Os governos europeus estão a aplicar as políticas que defende o Partido Republicano norte-americano, controlado pela ultradireita, o Tea Party. Basicamente, a recuperação da economia através da diminuição do défice público, com base em cortes da despesa pública.
A redução dos salários, muito marcada nos períodos republicanos, foi muito acentuada no período 2009-2011. Foto de WEBN-TV

A economia dos EUA está em melhor forma que a da União Europeia. Isso deve-se, em grande parte, a que as autoridades que governam as economias europeias têm aplicado as políticas  propostas pelo Partido Republicano norte-americano, controlado pela ultradireita, o Tea Party, políticas públicas defendidas pelo candidato desse partido à Presidência dos Estados Unidos, o Sr. Mitt Romney. Entre elas, a que concentra as propostas do Partido Republicano é a recuperação da economia através da diminuição do défice público, com base em cortes da despesa pública (e muito em especial da despesa social), cortes de uma intensidade nunca antes vista, com o objetivo de desmantelar o pouco desenvolvido Estado do Bem-estar daquele país. A única exceção nestes cortes de despesa pública propostos pelos republicanos seria no terreno militar, onde os gastos aumentariam enormemente, em quantidades nunca antes vistas em tempos de paz.

O problema destas propostas é que o crescimento do défice público (tanto nos EUA como na União Europeia) não ocorreu devido a um excessivo aumento da despesa pública social mas, antes pelo contrário, surgiu como consequência de uma redução muito marcada dos rendimentos do Estado, devido em parte à redução de impostos ocorrida em tempos de bonança, redução (como também tem ocorrido na UE), que beneficiou predominantemente os rendimentos do capital e os rendimentos superiores, redução que teve lugar principalmente durante a administração presidida pelo sr. Bush jr. Foi também esta administração que aumentou mais a despesa pública militar, necessária para sustentar duas guerras ao mesmo tempo, uma no Iraque e a outra no Afeganistão.

O presidente Obama tem tido a política de diminuir a despesa militar nessas guerras e reverter a redução dos impostos sobre os rendimentos superiores. O facto de o Orçamento Geral ter de ser aprovado pelo Congresso dos EUA, hoje controlado pela extrema-direita ultraliberal que domina o Partido Republicano, tem dificultado, quando não impossibilitado, o desenvolvimento de outras propostas do presidente Obama, que poderiam ter tido grande impacto no estímulo à economia. Entre elas estão as propostas de aumentar o salário mínimo (cuja capacidade aquisitiva é 30% menor do que há 40 anos). A redução dos salários, muito marcada nos períodos republicanos, foi muito acentuada no período 2009-2011, no qual o rendimento médio familiar decresceu 4,1%, passando de 52.195 a 50.054 dólares, redução de salários que contribui para a redução da procura doméstica e para a desaceleração económica.

Outra proposta da administração Obama vetada pelo Congresso Republicano foi a de criar um banco público que garantisse créditos para investimentos na decadente infraestrutura do país, que ficou evidente no enorme estrago causado pelo furacão Sandy na costa Leste do país. A ilha de Manhattan foi um exemplo disso. Nas áreas onde o sistema de distribuição elétrica se tinha modernizado, não houve queda de eletricidade nem por um minuto. Mas nas áreas do sul de Manhattan onde a estrutura não se tinha modernizado, demoraram três dias a recuperar a energia elétrica. A infraestrutura nos EUA está muito deteriorada, resultado do escasso intervencionismo público que tem caracterizado o governo federal desde os anos oitenta, resultado da revolução neoliberal.

Deveria ficar claro que a permissividade para as prioridades do mundo empresarial, e muito em especial do financeiro, foi a responsável pela crise financeira. O capitalismo de casino, baseado na especulação financeira, facilitado, é verdade, pela administração Clinton, ao eliminar a Lei Glass-Steagall (que separava os bancos comerciais dos de investimentos) foi a causa dessa crise. A sua resolução exigia medidas mais fortes que as da administração Obama, ainda que a proposta de criar um banco público de investimentos tivesse sido um bom passo adiante.

Outra proposta vetada pelo Congresso foi a ajuda financeira aos Estados para manter o emprego público, predominantemente em ensino, em polícias locais e em bombeiros. No seu primeiro ano, quando o Partido Democrata controlava o Congresso, Obama implementou um estímulo económico de mais de 750.000 milhões de dólares, que criou grande quantidade de emprego público nas áreas sociais, responsável por que a economia em recessão herdada da época Bush pudesse reanimar-se. Sem aquele estímulo, os EUA teriam caído numa depressão. O Congresso Republicano vetou o seu segundo capítulo de estímulos.

A relevância destes factos para a UE e para a Espanha é que as políticas do Partido Republicano semelhantes às das direitas europeias foram responsáveis para que a recessão económica continue a persistir nos dois lados do Atlântico Norte, ainda que as políticas do governo federal dos EUA, sob a administração Obama, têm sido mais acertadas (apesar de sua excessiva moderação) que as da União Europeia, o que explica a sua maior recuperação.

Artigo publicado por Vicenç Navarro na coluna “Pensamento Crítico” no diário PÚBLICO, 2 de janeiro de 2012

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

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Sobre o/a autor(a)

Catedrático de Ciências Políticas e Sociais, Universidade Pompeu Fabra (Barcelona, Espanha).
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