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Que aconteceu nas eleições catalãs?

Falta uma coligação ampla de esquerda que explicite um discurso de classe diante do establishment financeiro, económico, político e mediático catalão, o maior responsável pelo subdesenvolvimento social da Catalunha. Para que essa coligação se faça será necessária uma profunda transformação dos partidos existentes, estimulados pelo aparecimento do movimento radical CUP. Por Vicenç Navarro, Público.es
A CUP (Candidatura d'Unitat Popular), é um sopro de ar fresco, que tem características comuns com o 15-M. Foto de Jordi Salvia

Um comentador bem conhecido nos meios de maior difusão das correntes públicas da Generalitat e do diário ARA, o independentista Toni Costumar, alentava as pessoas de esquerda na Catalunha a votarem em partidos a favor da independência de Catalunha, argumentando que esta e as suas instituições representativas (incluída a oferta eleitoral) estavam mais à esquerda do que o resto de Espanha. Concluía com isso que, se Catalunha fosse independente, poderia realizar o seu potencial reformador, oferecendo maior capacidade de influência às esquerdas catalãs que se continuassem a ser parte da Espanha.

Esta observação, no entanto, não corresponde à realidade mostrada pelos dados. O arco ideológico parlamentar – isto é, a diversidade ideológica dentro de espectro político representado no Parlament – é mais limitado do que o existente nas Cortes Espanholas. E as esquerdas estão menos representadas até agora no Parlament que nas Cortes Espanholas.

E definamos primeiro o que quer dizer ser de direita e o quer dizer ser de esquerda. Para isso temos de ver os instrumentos tradicionais que as diferentes classes sociais na maioria de países da Europa Ocidental têm tido ao seu alcance para defender seus interesses. As direitas na Europa são partidos conservadores, partidos cristãos-democratas ou partidos liberais fundados pelos establishments financeiros e empresariais e/ou pela Igreja para defender os seus interesses, tentando mobilizar as classes populares a seu favor, mediante ideologias nacionalistas conservadoras e/ou a ideologia cristã.

E a Catalunha não é uma exceção. Divididas entre o PP (de ideologia espanholista) e a CiU (de ideologia catalanista), as direitas têm levado a cabo, nas áreas económicas e sociais, políticas baseadas em priorizar os interesses económicos daqueles establishments económicos e financeiros. Na realidade, as equipas económicas do governo CiU hoje estão mesmo mais comprometidos nas suas políticas de reformas laborais regresivas e cortes sociais do que o PP. A ocupação da Consejería de Previdência pelo que foi o chefe dos donos de hospitais privados é um claro indicador disso. Não é surpresa, pois, que esta formação política dirigente esteja claramente entrelaçada com interesses financeiros e empresariais que financiam esse partido dirigente. Os supostos casos de corrupção que se estão a investigar são claro indicador disso.

Os interesses de classe que ambos partidos, PP e CiU, representam ficam ocultados pela temática nacionalista que ambos utilizam e pela linha argumentativa que seguem, amplamente reproduzida nos meios públicos da Generalitat (Catalunha Ràdio e TV3), abusivamente instrumentalizados pela coligação dirigente de Catalunha, a CiU. Ambos partidos, CiU e PP, têm escassa cultura democrática (escassez mais acentuada no PP que na CiU), que se reflete na limitadísima diversidade ideológica desses meios, que são financiados pela população que paga impostos (a maioria da qual não vota neles). Na Catalunha, a CiU é o partido mais parecido que existe na Espanha com a democracia cristã e com a direita italiana, tendo um enraizamento na sociedade civil com base nas políticas clientelares. Vêem o Estado de Catalunha como sua propriedade. E tem um enorme poder e influência sobre o sistema judicial, influência compartilhada na Catalunha pelo PP. Os atrasos na resolução de casos de suposta corrupção, como o abafado caso Palau, reflete essa influência. A sua influência também é conseguida com base em pagamentos e apoios financeiros aos média, sendo o caso mais notorio La Vanguardia, da família Godó, que recebeu recentemente, de novo, quase 6 milhões de euros do governo Mas (segundo informou o altamente credível El Triangle) tendo sido o diário mais pró-Mas que existe em Espanha, mudando a sua lealdade editorial, que passou do PP à CiU, resultado desse abundante financiamento público, recebido como doação por serviços prestados.

Os dois nacionalismos conservadores

Os dois partidos dominantes, o PP e a CiU, são profundamente nacionalistas e conservadores. A CiU é, na realidade, uma coligação de dois partidos, o CDC e o UDC. UDC e PP (próximos ambos à Igreja) pertencem à mesma família política europeia, o Partido Popular Europeu. O CDC é um partido liberal que pertence à Internacional Liberal, que representa a sensibilidade mais de direita nas esferas económicas da UE. A maioria das personalidades que dirigem o governo do euro e do Banco Central Europeu, o BCE, pertencem a essa postura político-económica, desenvolvendo as políticas que estão a causar uma grande recessão na Eurozona com base em medidas de cortes e de austeridade. Esta sensibilidade também se apresenta na equipa económica do partido dirigente em Espanha, mais próximo da sensibilidade liberal (na área económica, neoliberal) que a democrata cristã.

O nacionalismo espanholista

O seu nacionalismo serve-lhes para tentar mobilizar as suas bases eleitorais. O nacionalismo do PP é o herdado da ditadura, que transmitiu uma visão da Espanha uniforme e centrada em Madrid. Esse nacionalismo espanholista é intolerante à diversidade e não aceita a plurinacionalidade da Espanha. Apresenta-se como o defensor da “unidade de Espanha”, mensagem que facilita a mobilização eleitoral de sectores da população na Catalunha e muito em particular aqueles sectores que procedem de outras partes de Espanha, percentagem muito elevada entre a classe trabalhadora na Catalunha. Essa mobilização é também apoiada na mensagem anti-imigrante, explicitamente utilizada pelo PP para conseguir o voto operário. O PP apresenta-se sempre como o defensor da unidade de Espanha (e também de sua “qualidade étnica”, querendo expulsar o imigrante). Esta estratégia está a ser altamente rentável eleitoralmente, pois o PP está a crescer nos bairros operários das cidades catalãs. Uma das cidades mais importantes da Catalunha, com forte implantação na classe trabalhadora e com uma elevada percentagem de população imigrante, Badalona, é governada pelo PP (com o previsível apoio da CiU). Nas eleições do passado domingo, o PP passou de conseguir o voto de 7,2% do eleitorado (que inclui a população que votou e a que podendo votar não o fez) nas últimas eleições autonómicas, a 9%, sendo nos bairros operários, onde há maior número de imigrantes, onde aumentou mais o seu voto.

O outro grupo nacionalista espanhol que reproduziu a mesma visão uninacional da Espanha foi Ciutadans, que subiu de 2% do eleitorado para 5,2%. Ciutadans é a outra visão do nacionalismo espanholista, diferente da do PP, identificado com o conservadorismo social e político pouco atraente ao trabalhador espanholista, que sente hostilidade em relação ao soberanismo, que confunde com o independentismo. Não é surpreendente, portanto, que o Cs tenha crescido mais acentuadamente nos bairros operários, como Nou Barris, de fala predominantemente castelhana. A sua apresentação (com grandes ambiguidades) como partido progressista, com tons pró-classe trabalhadora (apoiou a última Greve Geral, sem participar nela) tornou-o atraente ao eleitor que antes apoiava o PSC. É o partido que utiliza com maior frequência o castelhano nas suas intervenções públicas, o que explica que atraia também votos nos bairros mais ricos das populações urbanas que se consideram liberais no seu posicionamento em temas sociais e não se sentem cómodos a apoiar o PP devido ao seu profundo conservadorismo. No total, o voto a favor do nacionalismo espanholista (PP+Cs) conseguiu só 14,2% do eleitorado.

O nacionalismo catalanista

Para a CiU, o nacionalismo é particularmente útil, pois permite-lhe atribuir o enorme subdesenvolvimento do Estado do Bem-estar catalão (a despesa pública social por habitante é das mais baixas da UE-15) à famosa “pilhagem” da Catalunha por parte de Espanha. O facto de a crise estar a ter um impacto devastador no bem-estar das classes populares na Catalunha (classe média e classe trabalhadora) é atribuído ao crescimento da “pilhagem” e à hostilidade para com a Catalunha do Estado espanhol, governado pelo Partido Popular, mensagem que é constantemente reproduzida nos meios públicos de informação, controlados na sua imensa maioria pela CiU. A bateria de intelectuais ligados a esse partido político, como Joan B. Culla, Salvador Cardús, Manel Fontes, Mònica Terribas e uma longa lista de colunistas, refere-se constantemente a vozes profundamente conservadoras espanholas como José Bono, Fernando Savater, Mario Vargas Llosa, Federico Jiménez Losantos, e um longo etcétera, como representativas da Espanha. Estas últimas vozes são as maiores produtoras de independentistas na Catalunha, vozes que previsivelmente têm uma grande visibilidade nos meios de informação influenciados pelo nacionalismo catalanista. O facto de a Esquerda Unida, o terceiro partido da Espanha, ter votado há umas semanas nas Cortes a favor do “direito a decidir da Catalunha” foi deliberadamente ignorado por estes colunistas e por aqueles meios de comunicação. A Espanha apresentada mediaticamente nos meios públicos da Generalitat é a Espanha centralista, ofensiva à Catalunha, antipática. Qualquer outra Espanha diferente a esta não existe aos olhos do nacionalismo catalanista. Este silêncio para com “a outra Espanha” deve-se não só a uma manipulação, como também a um profundo anti-esquerdismo que caracteriza a direita catalãs. A esquerda reformista espanholas (a génese para desenvolver outra Espanha) não existe para CiU nem para os seus intelectuais.

Esta intelectualidade nacionalista conservadora tem um grande poder devido ao controlo que os partidos nacionalistas têm nos aparelhos mediáticos públicos da Generalitat e afins. Esse establishment mediático-político é o que em inglês se chama “clubish”, isto é, muito fechado em si mesmo e com pouco contacto com a realidade popular do país. Foi esse establishment que levou a maior pancada no domingo, pois todos eles tinham profetizado a grande vitória do presidente Mas na sua aposta pela independência, como se fosse um cheque em branco. Na realidade, a maior perda de votos sofreu-a a CiU, perdendo 90.489 votos (passando de 1.202.830 em 2010 a 1.112.341 em 2012), e de 22,4% do eleitorado em 2010 a 21,2% em 2012.

As esquerdas na Catalunha

O partido maioritário da esquerda na Catalunha foi historicamente o PSC, que é um partido federado com o PSOE. A sua fundação é o resultado de uma aliança dos instrumentos políticos existentes na clandestinidade antiditatorial, caracterizados por um reformismo social-democrata entre sectores profissionais e um socialismo de classe trabalhadora enraizada no sindicato socialista UGT, então clandestino, e na secção catalã do PSOE, também clandestina. O PSC, fruto desta aliança convertida em união, foi o maior instrumento da classe trabalhadora na Catalunha durante o período democrático e atingiu seu zénite no período de governo tripartido, quando governou a Catalunha aliado ao ICV-EUiA e à ERC.

A sua queda eleitoral não se deve, como constantemente indica a sua componente profissional (definida como catalanista) ao seu suposto abandono da sensibilidade catalanista, mas sim pelo seu abandono dos princípios social-democratas, ao incorporar, na sua resposta à crise, as políticas neoliberais também desenvolvidas pelo governo Zapatero. Esta é a maior causa do declínio do socialismo espanhol, incluindo o catalão, em toda a Espanha. E esse partido, surpreendentemente, não tem feito nenhuma crítica destas políticas que levaram a cabo e que prejudicaram as classes populares. Cada uma das políticas que está a seguir o governo Rajoy foram iniciadas pelo governo de Zapatero. O facto de o governo Rajoy ter aprofundado enormemente cada uma destas políticas, não nega que muitas delas tenham começado na época Zapatero. O socialismo espanhol tem perdido apoio popular devido à sua identificação com essas políticas. Neste sentido, surpreendem vários factos:

1) A existência de vozes económicas do PSC que apoiaram as políticas de cortes da CiU (no primeiro ano de mandato do governo Mas), dando-lhes uma legitimidade que a coligação dirigente utilizou habilmente. Uma dessas vozes socialistas chegou inclusive a acusar de “demagogos” os autores de esquerda que criticavam esses cortes.

2) Que não tenha havido uma mudança na equipa que lidera o PSOE, sendo o seu dirigente, o senhor Rubalcaba, a mesma pessoa que dirigiu o desenvolvimento dessas políticas extremamente impopulares. A proximidade do PSC ao PSOE e a falta de crítica do primeiro ao segundo têm contribuído para o seu declive eleitoral.

3) Que a necessária mudança no PSC se tenha entendido, mal, como uma mudança predominantemente geracional, mantendo-se, porém, as políticas económicas neoliberais que causaram a sua queda. Nas primeiras declarações ao El País do economista Maurici Lucena (segundo na lista por Barcelona do PSC), procedente do establishment socialista baseado em Madrid, esse economista, dirigente da secção económica do PSC, declarou-se como um liberal, falando das excelências do socioliberalismo. Quando li essas declarações, pensei no trabalho do economista Jordi Sevilla sobre o Novo Socialismo (o guia da “Terceira Via” ou Zapaterismo), e que era um elogio ao liberalismo (ver a crítica que fiz dessa postura no meu livro El Subdesarrollo Social de España. Causas y Consecuencias.Anagrama. 2006). Essas políticas foram responsáveis pela perda eleitoral do PSOE e do PSC. Não há consciência no establishment socialista espanhol (incluído o catalão) de que a situação desesperada em que se encontram as classes populares na Catalunha e no resto da Espanha não se deve só à crise, como também à forma neoliberal como se respondeu à crise (ver o artigo El impacto de la crisis en las familias e infantes. Publico. 22.11.12), e isso como consequência da integração do pensamento liberal ao ideário dos partidos socialistas governantes na Espanha e na Catalunha (no seu segundo mandato). O facto de os governos de Rajoy e de Mas terem aprofundado estas políticas não elimina, na memória popular, a lembrança de que elas começaram na época de crise aplicadas pelo socialismo espanhol, incluindo o catalão.

Não é surpreendente, pois, que o PSC continuasse o seu declínio, perdendo 50.900 votos, passando de 10,7% do eleitorado para 10% (descendo de 575.233 votos em 2010 para 523.333 em 2012). Também não é surpreendente que os dois partidos que perderam mais votos nestas eleições fossem a CiU (por ter desenvolvido as políticas neoliberais) e o PSC (por não se ter distanciado do seu passado e não ter feito uma mudança significativa nas suas propostas políticas). Não há dúvida de que o PSC continuará este declínio ao se ter desarmado ideologicamente frente a um adversário político carregado de ideologia – o nacionalismo. A estratégia política do socialismo catalão e espanhol não deveria ter sido lutar no território ideológico do adversário – o nacionalismo –, mas sim na denúncia do que o adversário representa. É o que os políticos do Partido Democrata dos EUA chamam a estratégia de “luta de classes”, apresentando a direitas como ela é, os porta-vozes dos grupos ricos que mandam no país. Nem o PSC nem o PSOE seguiram tal estratégia, em parte porque estão excessivamente unidos e são dependentes desses mesmos grupos, e em parte por não terem feito uma autocrítica e realizado uma mudança nas suas políticas.

A esquerda radical

Um problema grave na Catalunha e que demonstra que o leque eleitoral está mais virado à direita que o espanhol é que não há um partido da esquerda radical como é a IU. Hoje não existe uma força equivalente à IU na Catalunha. Dizer-se-me-á que existe Esquerra Unida i Alternativa, mas esse grupo político é, na prática, um apêndice da Iniciativa per Catalunha (IC) sem ter nenhuma visibilidade própria. A IC é um partido verde, que pertence ao Partido Verde Europeu do Parlamento Europeu. Não é parte da Esquerda Europeia, o grupo de partidos de esquerda. A EuiA é desse grupo, mas não tem nenhuma visibilidade. De facto, o vermelho dessa coligação não se vê em lado nenhum, pois a sua cor é o verde. E quando veio Alexis Tsipras, o dirigente da coligação radical da esquerda grega, o Syriza, devido à sua relação com a Esquerra Alternativa, membro da Esquerda Europeia à qual pertence a Esquerra Alternativa, apareceu em palcos coloridos de verde, sem que aparecesse nenhum vermelho.

O tema não são só as cores, mas sim a visão política. A ICV decidiu mudar a sua pertença à esquerda enraizada na esplêndida história do PSUC. Foi um erro que agora, e nestes momentos de crise, aparece com toda a clareza. Nenhuma força defendeu com maior intensidade a Catalunha, durante a ditadura, que o PSUC. E é injusto e um profundo erro que o partido de coligação ICV-EUiA, que se apresenta como herdeiro do PSUC, exclua a visibilidade do vermelho. O facto de essa coligação se ter distinguido pela sua crítica às políticas neoliberais do governo CiU explica o seu notável crescimento. Mas ainda que o crescimento de ICV-EUiA seja notável (um aumento de 128.033 votos, devido à campanha social de ICV-EUiA, mais vermelha que verde, passando de 4,3% do eleitorado para 6,8%) o potencial de crescimento dessa coligação seria muito maior se se centrasse no conflito social e (sem diluir o seu caráter verde) conjugando-o com a defesa da personalidade e especificidade catalãs, tal como sempre fez o PSUC. Hoje, a luta de classes é mais viva que nunca na Catalunha, no seu período democrático, uma luta de classes que não só inclui o tradicional “conflito entre o capital e o mundo do trabalho” que continua a existir, mas também o de uma minoria da população (os establishments financeiros, empresariais, mediáticos e políticos) em confronto com uma grande maioria da população, as classes populares.

Essa força política requer um maior radicalismo, rompendo com esta imagem tão injusta, claramente manipulada pela direita ao referir-se à ICV de “boa gente, que vão de bicicleta”. Esse radicalismo, com uma linguagem mais de denúncia da luta de classes, não se centrando unicamente nas políticas mas também nos que as aplicam, ampliaria seu apoio popular. A revolta popular exige um radicalismo que ainda não aparece nas suas práticas e na sua narrativa.

Uma nova esquerda como sopro de ar fresco com a esperança de que se converta em vendaval

Preenchendo este vazio apareceu a CUP (Candidatura d'Unitat Popular), um sopro de ar fresco, que tem características comuns com o 15-M. Um movimento radical de clara orientação socialista anticapitalista, de grande poder de atração entre os sectores mais explorados do país, que decidiu apresentar-se à última hora (só um mês antes das eleições) e, apesar do boicote mediático, conseguiu nada menos que 126.219 votos, que representaram 2,4% do eleitorado. Um dos componentes do seu ideário, o do independentismo, pode travar a sua ligação com amplos setores da classe trabalhadora catalã que não se identificam como ele. E esse independentismo pode também dificultar a sua ligação a outros movimentos antiestablishment que estão a florescer ao longo do território espanhol, e cuja cumplicidade será necessária para qualquer mudança profunda que possa ocorrer na Catalunha. Mas o seu aparecimento na vida parlamentar é um grande desenvolvimento e avanço, pois a sua radicalidade é precisa (como o ar que se respira) na vida política catalã.

O perigo é que a faceta independentista (diferente da soberanista), dilua a sua radicalidade social, perigo que não é hipotético e que pode ocorrer à ERC, priorizando o independentismo ao processo de mudança profundo da ordem (em realidade desordem) social existente na Catalunha. A ERC foi a força política que melhor canalizou o desejo independentista, conservando a sua vocação transformadora, que seria de desejar que mantivesse. Aumentou o seu apoio em 277.119 votos, passando de 4,1% do eleitorado a 9,4%, passando a ser a terceira força eleitoral.

As grandes limitações da democracia na Catalunha e na Espanha: a sua distorção profundamente conservadora

O facto de a ERC ter passado a ser a segunda força parlamentar deve-se à enorme distorção conservadora do processo eleitoral. Na realidade, se o sistema eleitoral catalão fosse proporcional (o sistema em que a cada cidadão coubesse o mesmo poder de decisão), a CiU teria tido 43 deputado em lugar de 50, a ERC 19 em lugar de 21, o PSC teria os mesmos deputados, 20 (passando a ser a segunda força política no país), o PP teria 18 em lugar de 19, a Iniciativa 14 em lugar de 13, Ciutadans 11 em lugar de 9, e a CUP 5 em vez de 3, podendo fazer grupo próprio. Em geral, esta distorção eleitoral desfavoreceu mais a esquerda que a direita, como também ocorre na Espanha.

Na realidade, somando todos os votos dos partidos de esquerda (há muitos partidos de esquerda que não conseguem representação parlamentar), os seus votos superam os dos partidos de direita. A população de Catalunha está mais à esquerda que os seus representantes, uma situação que, na verdade, ocorre também em Espanha.

O futuro político da Catalunha (e da Espanha)

Desta observação pode derivar-se que falta uma coligação ampla de esquerda que, sem complexos, explicite um discurso de classe diante do establishment financeiro, económico, político e mediático catalão, o maior responsável pelo subdesenvolvimento social da Catalunha. Para que essa coligação se faça será necessária uma profunda transformação dos partidos existentes, estimulados pelo aparecimento do movimento radical CUP. Este movimento – surgido das classes populares na Catalunha – tem surgido porque as pessoas estão fartas do establishment catalão e também espanhol. É a única força que fala do conflito de classes na Catalunha, e apresenta o establishment político e mediático como aquilo que é: o defensor de interesses de classe. A sua presença nos média, no entanto, tem sido nula. Um boicote e veto dignos de uma ditadura, mostrando a grande fraude que é hoje o que se chama democracia na Catalunha. Ora bem, o seu grande potencial de atração, sensível ao grande desespero popular, pode atuar como elemento estimulador de mudança entre as forças políticas com representação parlamentar.

Quanto às esquerdas em Espanha, o seu maior repto é democratizar o Estado espanhol. Sem essa democratização, nem a Catalunha nem a Espanha sairão da crise. Daí que as esquerdas espanholas deveriam exigir que a insuficiente democracia representativa existente no nosso país se transformasse numa democracia proporcional, autenticamente representativa, junto com uma democracia direta com amplo desenvolvimento de referendos que permitissem que as populações decidissem sobre qualquer tema. O “poder de decisão” deve aplicar-se na Catalunha e no resto da Espanha, sobre todos os temas que a própria população deseje.

E, igualmente importante, deve exigir-se uma autêntica pluralidade dos média (que utilizam um bem comum e público, o ar), rompendo com a limitadíssima diversidade mediática existente na Catalunha e em Espanha.

1 dezembro 2012

http://redconvergenciasocial.org/?p=451

Traduzido por Luis Leiria para o Esquerda.net

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Resto dossier

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