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"Austeridade perpétua parece estar destinada a fracassar", diz ex-FMI

Ashoka Mody, o ex-chefe de missão do FMI na Irlanda, aponta erros na política do Fundo e defende a reestruturação das dívidas. Também o economista Paul de Grawe alertou esta segunda-feira que a "austeridade excessiva levará Portugal para a insolvência".
Foto Paulete Matos.

São mais duas vozes de economistas a juntarem-se ao coro de críticas acerca da eficácia do rumo da austeridade para as economias europeias. Um ex-alto quadro do FMI, que foi responsável pela ação do Fundo na Irlanda, escreveu um artigo no Irish Times com o título "É altura de revisitar a opção do incumprimento da dívida". Neste artigo, Ashoka Mody reconhece que "a austeridade perpétua parece estar destinada a fracassar" e que "o elixir das reformas estruturais para incentivar o crescimento doméstico é um mito de política [económica]".

Mody lembra que "as projeções económicas apontam para rácios de dívida [pública] das cinco economias mais endividadas da zona euro - Grécia, Irlanda, Itália, Portugal e Espanha - que permanecerão acima de 100% [do PIB] no futuro próximo, isto é, pelo menos até 2017" e diz que o resultado após uma década de austeridade orçamental é que "estes países continuarão numa zona de alta vulnerabilidade".

O ex-responsável do FMI olha para a reestruturação da dívida grega como um exemplo a seguir. "Espantosamente pouco uso foi feito de poderes de resolução no sistema bancário. Há formas conhecidíssimas e ordeiras de sentar à mesa os credores dos bancos e de fazer a engenharia de trocas de dívida por ativos. Do mesmo modo, há técnicas bem estabelecidas para alterações de perfil (reprofilings) da dívida soberana. A noção de que os mercados ficariam 'assombrados' não tem boa sustentação. Sem dúvida que o caso do Lehman [Brothers] está ainda fresco na memória, mas a reestruturação de dívida grega foi bem recebida", escreve Mody, citado pelo Expresso.

"A opção de default [incumprimento] é economicamente eficiente, é justa, e é politicamente sensível. É capaz de ser a única forma de manter ligada uma estrutura insustentável que ameaça gerar divisões profundas e fazer recuar o excelente projeto de integração em que a Europa embarcou", conclui o professor de Política Económica Internacional na Woodrow Wilson School da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos.

De Grawe deixa avisos em Portugal

O outro economista a lançar críticas ao rumo das políticas económicas na Europa foi o belga Paul De Grawe, professor de Política Económica Europeia na London School of Economics. Presente na conferência "Portugal em Mudança", que assinala o 50.º aniversário do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, De Grawe alertou para os efeitos negativos da austeridade sobre a economia. "O PIB cai mais depressa que a dívida. Os analistas olham para isto e veem as coisas a ficar pior", aponta o economista.

"A austeridade excessiva levará Portugal para a insolvência", alertou De Grawe, prevendo que a dívida não pare de crescer com a implementação das medidas de austeridade. E com a economia a retrair, será impossível assegurar o seu pagamento ou o financiamento externo, levando as finanças do país a caírem numa situação bem mais complicada do que havia antes de serem implementadas essas medidas.

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