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O “sucesso extraordinário” que Crato propõe é um fracasso na Alemanha

O também chamado “memorando de entendimento” que Crato assinou em Berlim é um ataque brutal à Escola Pública enquanto instrumento público de combate às desigualdades sociais.

Mais uma vez sob a capa do rigor, da eficácia e das necessidades atuais do mercado de trabalho, Crato vem propor uma “refundação” da Educação, que combina bem com o despedimento em massa de professores e sua precarização. O também chamado “memorando de entendimento” que Crato assinou em Berlim é um ataque brutal à Escola Pública enquanto instrumento público de combate às desigualdades sociais.

A banha da cobra que Crato nos vem vender como um “sucesso extraordinário”, é um dos sistemas de Educação mais criticados, inclusive pelo relator especial da ONU para a Educação, Muñoz Villalobos, que considera que o sistema alemão deveria ser promotor da integração dos alunos, independentemente da sua origem social, e não da sua separação.

O que Crato propõe é que se adapte um sistema que separa as crianças aos 10 ou 11 anos de idade, consoante o seu desempenho escolar. Na Alemanha, esta separação é feita dividindo as crianças em três tipos de escolas secundárias:

- As que frequentam por cinco anos a Hauptschulesão geralmente orientadas para o trabalho na indústria ou na agricultura.

- os seis anos de uma Realschulehabilitam o aluno a frequentar depois cursos mais adiantados em escolas profissionalizantes.

- Os alunos que tiveram a oportunidade de frequentar o Gymnasium, que dura nove anos e é a única que dá a formação básica apropriada para a entrada numa Universidade ou Escola Superior.

O que acontece hoje em dia na Alemanha era previsível: as crianças de origens sociais mais desfavorecidas, de famílias operárias e precárias frequentam maioritariamente os graus de Educação que não dão acesso ao Ensino Superior. Segundo Villalobos, a Alemanha é dos países do mundo que mais relação entre maus resultados escolares e a sua classe de origem. Esta divisão do destino de crianças pela classe é cruel e oposto aos mais básicos valores da Escola Pública. Em vez de inclusão, Crato propõe segregação classista. Em vez de oportunidades, propõe cortar as pernas à mobilidade social desde criança.

Além disso, o Ministro da Educação justifica esta medida com a “difícil situação económica” que o país atravessa, dizendo que se torna “prioritário apostar num ensino que permita aos jovens uma entrada mais rápida para uma profissão”.Quer isto dizer que Crato propõe uma refundação brutal do ensino secundário em Portugal justificando-se com uma “situação”, uma “conjuntura”. Como todos neste Governo, Crato faz política como se o Governo fosse cair amanhã, sem nenhum pensamento estratégico que não seja de “adaptação ao mercado de trabalho”.

Mas não se pense que Crato não sabe o que faz. Ele propõe algo que está muito mais próximo do conceito de mercantilização e privatização do sistema de educação de países do terceiro mundo - normalmente imposto pelo FMI - do que com um sucesso de inclusão social. É uma opção política deliberada para cortar as pernas à classe trabalhadora e ao futuro deste país. Não podemos aceitar, não vamos aceitar. Crato, rua!

Sobre o/a autor(a)

Gestor de redes sociais, investigador em comunicação política.
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