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Um título falsificado e um desejo encoberto

Faz chamada de capa do jornal “I” que João Semedo teria dito em entrevista que apoiaria um governo PS se este cortasse com a Troika. Curiosamente, tal frase não consta da entrevista, como é fácil de confirmar.

E se não pode ser citada muito menos pode ser inferida da proposta de um governo de esquerda para o qual se reclamam explicitamente não apenas a separação da Troika e do seu memorando diktat, mas também a reposição dos direitos e níveis sociais retirados, a renacionalização de bens e serviços comuns, a nacionalização da banca intervencionada.

Dando de barato que um governo de esquerda implicaria uma coligação alargada e não seria, nem por caricatura, um governo de base PS, não se conhece afastamento deste partido do famigerado memorando que dita as metas de défice e respetivos cortes nas políticas públicas. Infelizmente, até pior, o PS aprovou o tratado orçamental europeu, 0,5% de défice eterno. Ninguém recusa a perceção cristalina de que isso é para acabar com o estado social. Vivemos neste particular no tempo da dissimulação, e em que a retórica do líder do PS não condiz com prática do partido no parlamento e fora dele.

A novidade da manipulação da entrevista de Semedo não é mais uma deformação do “I” (ou do “Sol”, wonder why) mas o desejo encoberto de todos aqueles que nos mais variados e insuspeitos setores gostariam que o BE fosse um partido-mochila às costas de outros. A aliança com muitos socialistas,a eventual convergência com este ou outro PS em muitas áreas,como sempre o BE fez que não nos motiva o sectarismo, não ilude a necessidade de uma plataforma de esquerda. Pensar que apoiar um governo PS seria destino, embora contra a genética do Bloco, é um paupérrimo vaticínio e uma aposta furada.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, professor.
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