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“A marca das alterações climáticas está no furacão Sandy”

Entrevistado por Amy Goodman, da Democracy Now!, Mike Tidwell, diretor da Chesapeake Climate Action Network, diz que um furacão como o Sandy que chega tão a norte é tão anormal como nevar na Arábia Saudita. A causa desta anormalidade é a subida da temperatura da superfície do Atlântico.
Mike Tidwell: O presidente recusou-se a falar sobre as alterações climáticas, mas claramente as alterações climáticas decidiram falar com ele, poucos dias antes das eleições. Foto de por chesapeakeclimate

AMY GOODMAN: Pode falar-nos sobre os novos perigos que vivem as cidades costeiras do Leste dos EUA?

MIKE TIDWELL: Penso que o furacão Sandy deixou claro que atingimos uma nova normalidade no que se refere a tempestades atlânticas tão poderosas que as nossas comunidades costeiras não poderão suportá-las. O espantoso volume de água que vimos em Nova York – novaiorquinos que viveram na cidade toda a vida nunca tinham visto a água atingir o metropolitano como aconteceu agora. Nunca tinham visto carros completamente submersos no East Village e a energia elétrica desligada pela ConEd. Estas são as novas fronteiras de impacto, e claramente as impressões digitais das alterações climáticas estão em toda esta tempestade. O resultado é que agora somos todos cidadãos de New Orleans, em toda a Costa Leste. O nível dos oceanos está a subir. As tempestades são maiores.

Teremos de fazer duas coisas para avançar: uma, deixar de usar combustíveis fósseis que estão a provocar as alterações climáticas. Mas, além disso, vamos ter de começar a construir diques. A menos que queiramos abandonar Nova York, abandonar Baltimore, Washington, Miami, teremos de construir diques e aterros. Nas próximas décadas, mais cedo do que jamais pensámos, a Costa Leste vai ter de estar protegida por diques e aterros tal como New Orleans.

AMY GOODMAN: No seu livro, “The Ravaging Tide: Strange Weather, Future Katrinas, and the Coming Death of America’s Coastal Cities” [“A Maré Devastadora: Tempo Estranho, Futuros Katrinas e a Morte Próxima das Cidades Costeiras da América], o Mike escreve: “A cidade de Nova York é o grande gigante adormecido dos cenários de desastre dos furacões. Tantos fatores que mutuamente se reforçam apontam para uma catástrofe na maior cidade do país que, de muitas formas, é ainda mais assustadora que New Orleans”. Pode falar-nos sobre o que estamos a ver agora, sobre o efeito em toda a costa e as mudanças políticas que considera terem de ser feitas?

MIKE TIDWELL: Nenhum de nós tinha visto um furacão como este, tão maciço. Eu vivo em Takoma Park, Maryland, nos subúrbios internos de Washington, D.C. E o vento tem vindo a soprar e a fazer um barulho semelhante a um comboio nas últimas 24 horas sem parar. Tivemos faltas de energia na região. Tivemos cheias. O metro, o comboio e os serviços de autocarros foram cancelados pelo segundo dia. O governo federal deixou de funcionar pelo segundo dia. A vida na capital da nação foi totalmente interrompida. Cenas semelhantes repetem-se em toda a Costa Leste. E Nova York, devido à sua situação geográfica, é o caso pior quando há a elevação das águas que tivemos na noite passada. Os mais de quatro metros de subida das águas, superou em muito a marca mais alta de 1821 – simplesmente espantoso.

E o que é também espantoso, Amy, é que não costuma haver furacões na Flórida no final de outubro. Ora a apenas dois dias de novembro, este furacão atingiu os Estados Unidos. Mais raro ainda é ter um furacão tão tarde e tão a norte. É o equivalente a ter neve na Arábia Saudita. É completamente anómalo.

Por que está isto a acontecer? Quer dizer, o presidente recusou-se a falar sobre as alterações climáticas, mas claramente as alterações climáticas decidiram falar com ele, poucos dias antes das eleições, com esta tempestade maciça que nasceu das temperaturas elevadas na superfície do mar, a nível recorde, no Atlântico, cinco graus acima do normal, e muitos milhares de milhas de diâmetro em termos da sua área de influência. Este tem de ser o evento que finalmente chame a atenção dos nossos líderes para a política, porque temos tão pouco tempo para deixar de usar combustíveis fósseis que estão a provocar supertempestades como esta, e começar a transição para um mundo que use energia limpa e renovável.

AMY GOODMAN: Explique as causas desta subida das águas. Em Nova York os problemas não foram causados tanto pelas chuvas torrenciais, mas as marés subiram, e o sistema subterrâneo em muitas áreas foi inundado, como em lugares como Red Hook no Brooklyn, em Lower East Side, também, ao longo de Battery Park. O que causou esta subida das águas, mesmo sem chuvas torrenciais?

MIKE TIDWELL: Normalmente chuvas e vento são fatores menores em termos de danos causados por furacões. Os piores danos, como vimos no Katrina e no Wilma, e agora no Sandy, vem das marés altas. Um furacão é um sistema de vento, fortemente compacto, que gira e que está em movimento. E esse vento em rotação e movimento empurra uma gigantesca abóbada de água à sua frente. Literalmente empurra um enorme volume de água, à frente dos ventos em rotação. E quando os ventos atingem a costa, empurram para a terra toda essa água.

O problema de Nova York é que fica numa parte muito rasa da plataforma continental. À medida que o furacão se aproximava, a água foi ficando mais rasa, o que faz com que a abóbada de água na frente do furacão se eleve. Não tem para onde ir senão para cima. E quando se aproxima de Long Island Sound e do Porto de Nova York, afunila-se para o East River. Fica afunilada no rio Hudson. E mais uma vez não tem para onde ir senão para cima. Vemos então as partes da cidade que mal estão acima do nível do mar – são as que ficam inundadas: Battery Park, East Village, ao longo do Hudson. Nova York é extremamente vulnerável por estar ao nível do mar. Mas historicamente este tipo de tempestades não chegavam tão a norte. A cidade sobreviveu, mas, infelizmente, penso que à medida que o oceano Atlântico aquece cada vez mais e cada vez mais a norte, vai haver furacões como este com mais frequência.

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