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Dilma, impeça o massacre contra os Guarani-Kaiowás

José Maria de Almeida, presidente nacional do PSTU, lança carta aberta à presidente Dilma Rousseff exigindo a intervenção do governo e afirmando que os verdadeiros heróis do Brasil são o povo indígena e quilombola, que insistem em resistir a séculos de massacres.
José Maria de Almeida: Evite mais uma tragédia social! Intervenha na ameaça de despejo contra a comunidade dos Guarani-Kaiowás!

O Brasil acompanha chocado o drama dos indígenas Guarani-Kaiowás no Mato Grosso do Sul. A carta divulgada por uma comunidade formada por 173 indígenas acampados hoje à beira do rio Hovy causou comoção em todo o país e até fora dele. E não é por menos. Ela expressa a situação de desespero e angústia de uma comunidade que se vê obrigada a enfrentar os pistoleiros contratados pelos latifundiários, uma situação de extrema miséria e o mais completo abandono. E agora, ainda se depara com uma ordem de despejo da Justiça Federal de Naviraí!

Em determinado momento, a carta chega a pedir para que se decrete “a nossa dizimação e extinção total” e para “enviar tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar os nossos corpos”. Não, presidente Dilma, os indígenas encurralados entre as balas dos jagunços e a ordem de despejo, não desistiram de brigar por sua terra. Pelo contrário, demonstram a mesma disposição de luta histórica que garantiu sua própria sobrevivência após cinco séculos de escravidão, rapina e genocídio. As palavras fortes da carta, porém, mostram a que ponto chegamos.

Os Guarani-Kaiowá, segundo maior grupo indígena no país com quase 50 mil pessoas, constituem um dos exemplos mais dramáticos da situação de barbárie social a que estão submetidos os povos originários. Segundo a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), 555 indígenas desse grupo se suicidaram entre 2000 e 2011 pelo abandono, falta de perspectivas e o confinamento cada vez maior devido ao avanço do agronegócio. A maioria, jovens. Só este ano já ocorreram 30 suicídios.

Sabemos, presidente Dilma, que essa situação não é de hoje, mas o resultado de séculos de opressão. O seu governo, porém, como o do ex-presidente Lula, tem a sua parcela de responsabilidade. A política de privilegiar o grande agronegócio exportador e os latifundiários, os ‘heróis’ de Lula, legitima o confinamento dos indígenas em espaços cada vez mais reduzidos. A precarização de órgãos como o Incra e a Funai, por sua vez, contribui para que grande parte das comunidades indígenas se vejam privada dos serviços públicos mais básicos e, por sua vez, de condições de vida minimamente decentes. O seu governo, presidente, publicou a Portaria 303/2012 que, como o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) denuncia, representa um verdadeiro retrocesso no processo de reconhecimento, demarcação e titulação das terras indígenas.

O mundo vê agora, presidente Dilma, o real resultado dessa política económica que produz grandes lucros para alguns poucos e a mais completa penúria para outros tantos. Mesmo que esses outros tantos sejam, por direito, os verdadeiros donos dessas terras. É esse um “Brasil de todos”? De que adianta sermos a sexta economia do mundo se as nossas terras se transformam num imenso cemitério dos nossos povos originários? Estamos assistindo a vitória da exploração, da violenta colonização, do genocídio indígena. A vitória da barbárie.

A indignação que vemos agora, presidente, é parecida com a indignação que tomou conta do país no brutal despejo do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP). Na ocasião, a violenta ação policial foi provocada pelo governo Alckmin do PSDB. Denunciamos, na ocasião, a omissão do Governo Federal, que poderia ter evitado aquele despejo caso realmente quisesse. Mas agora, presidente, a questão indígena tem a ver diretamente com o seu governo. A ordem de despejo vem da Justiça Federal. É a presidência que cuida das homologações de terras, há tanto paralisadas.

Por isso que me dirijo à senhora, presidente, para fazer uma exigência: Evite mais uma tragédia social! Intervenha na ameaça de despejo contra a comunidade dos Guarani-Kaiowás! Mude sua política de privilégios ao agronegócio e atenda as reivindicações históricas das comunidades indígenas! Avance no processo de demarcação e homologação das terras! E perceba, presidente Dilma, que os verdadeiros heróis desse país são o povo indígena e quilombola, que insistem em resistir a séculos de massacres.

Zé Maria

(...)

Resto dossier

Brasil - Em defesa dos Guarani-Kaiowá

No início deste mês, uma comunidade indígena de  Guarani-Kaiowás do Brasil lançou uma carta em resposta a uma decisão da Justiça que os expulsava das suas terras. Pediam que fosse decretado o seu extermínio, e que fossem enterrados nas terras dos seus ancestrais. A carta, que só chegou ao público pelas redes sociais, desencadeou uma poderosa campanha de solidariedade. Dossier coordenado por Luis Leiria.

Solicitamos [ao governo] para decretar a nossa morte coletiva

Esta é a carta da comunidade Guarani-Kaiowá que comoveu o Brasil e está a provocar uma onda de indignação e solidariedade em todo o mundo. “Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação/extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais”.

Os motivos da luta dos Guarani e Kaiowá pelos territórios tradicionais, tekoha guasu

Os Guarani e Kaiowá sentem-se originários dos espaços territoriais reivindicados. Ao serem privados, nos últimos 30 anos, de viver nos seus territórios tradicionais e sobreviver conforme seus usos, costumes e crenças, passaram a investir reiteradamente nas táticas de recuperação. Por Tonico Benites, Guarani-Kaiowá, mestre e doutorando em Antropologia Social do Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“Jejuvy”: assim os guaranis recuperam a palavra

Viagem antropológica ao mundo guarani-kaiowá. Por que suicídios são protesto, ritual e porformance de cultura que sobrevive por um fio. Reportagem de Fabiane Borges e Verenilde Santos

Por que os Guaranis-Kaiowás estão ameaçados de extinção

A exploração do biocombustível proveniente do álcool produzido da cana traz outras questões embutidas nesta: a questão indígena e a luta pela terra. Hoje, os Guaranis-Kaiowás, ainda sobreviventes, são ameaçados no estado brasileiro do Mato Grosso do Sul.

Marcelo Freixo‭: "Não se compra e não se vende a história de um povo"

Deputado do PSOL do Rio de Janeiro intervém na Assembleia Legislativa do seu Estado em defesa dos Guarani-Kaiowás e denuncia as práticas etnocidas. Denuncia também o grande negócio em torno da privatização do estádio do Maracanã que prevê o fim do Museu do Índio.

Abaixo-assinado exige cobertura da imprensa e tenta impedir a morte de tribo

Carta dos guarani-kaiowá ameaçados do Mato Grosso do Sul só chegou à opinião pública através das redes sociais, que estão a fazer intensa campanha. Petição denuncia esta situação e pede apoio à causa indígena.

Vídeo: À Sombra de um Delírio Verde

Na região Sul do Mato Grosso do Sul, fronteira com Paraguai, o povo indígena com a maior população no Brasil trava, quase silenciosamente, uma luta desigual pela reconquista de seu território. Expulsos pelo contínuo processo de colonização, mais de 40 mil Guarani Kaiowá vivem hoje em menos de 1% de seu território original. Documentário de An Baccaert, Cristiano Navarro, Nicola Mu

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Vídeo: Mia Couto é Guarani-Kaiowá

Escritor moçambicano declara o seu apoio à causa dos Guarani-Kaiowá.