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Manifestação/concerto de Lisboa: “A Cultura não se troika”

A histórica maratona de artistas na Praça de Espanha mostrou que o governo está totalmente isolado do mundo da Cultura e deixou claro que a arte também derruba governos. A mensagem final foi: “Este Orçamento não passará – Que se lixe a troika”.
Uma histórica maratona de artistas. Foto de Luis Filipe Pereira

Pode um governo sobreviver muito tempo quando tem contra si a esmagadora maioria dos artistas do país? Dificilmente. Salazar sobreviveu 48 anos, mas impôs uma ditadura a ferro e fogo. Passos Coelho e Paulo Portas certamente sonham com isso (veja-se o crescendo de ameaças contra o direito de greve), mas não têm condições de fazê-lo.

A histórica maratona dos artistas que se sucederam no palco montado na Praça de Espanha em Lisboa juntou gerações diferentes, a música predominou mas houve também teatro, poesia, dança, artes visuais. E, é claro, muitos cartazes improvisados entre o público, que isso também é arte. Nunca tantos artistas se juntaram para repetir à exaustão a mesma mensagem: “Que se lixe a troika, e que se demita o governo”.

Não é tarefa fácil relatar o espetáculo que começou pontualmente às 17 horas com a Quinta sinfonia de Beethoven – tocada por uma orquestra de músicos experientes e de estudantes, formada especialmente para o efeito –, e prosseguiu sem descanso até perto da 1h da manhã. Até porque o repórter, como toda a gente, também tinha de comer. Tentemos então destacar momentos, certamente uma escolha pessoal que será sempre subjetiva e provavelmente injusta. Mas um texto de relato exaustivo, possível de ser feito, ficaria ilegível, de tão longo.

Que recordar então? Que Zeca Afonso foi sem dúvida o autor mais cantado no concerto, um tributo merecido a quem praticamente fundou a moderna música popular portuguesa. Como integrante da geração que conviveu com o Zeca (como esquecer a passagem de ano de 1973 para 74 em Lisboa?), este repórter deixou-se tomar pela emoção quando ouviu a jovem Gisela João cantar “Os Vampiros” – e o público em peso a cantar o refrão “eles comem tudo...” –, ou a jovem Ana Lains a cantar “A morte saiu à Rua. A essa altura, o veterano Janita Salomé já tinha cantado “Era um redondo vocábulo” e a ele se juntaram Samuel e Francisco Fanhais para pedir a todos: “Traz um amigo também”. Filipa Pais cantaria ainda “Utopia”.

O público delirou, o que só confirma que Zeca Afonso ainda diz muito às novas gerações, ele que, se a estúpida doença não o tivesse levado prematuramente, teria hoje 83 anos.

E já que falamos das gerações veteranas, é justo destacar Carlos Mendes, não só por ter sido um dos idealizadores deste concerto, mas também por ter entusiasmado o público com uma nova música que todos cantaram: “Somos mais gente fixe a dizer / esta troika que se lixe”.

O que é preciso é gente / que atire fora com essa gente

Momentos de poesia foram muitos, como o da atriz Maria do Céu Guerra que escolheu para declamar um poema de Ana Hatherly que dificilmente seria mais apropriado ao momento que vivemos. Não resistimos a reproduzi-lo todo:

ESSA GENTE

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente

NENHUMA!

A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente.

(Obrigado, Maria Teresa Sá, por o ter reproduzido no Facebook).

Carla Bolito interpretou Álvaro de Campos, Álvaro Faria teve a felicidade de recordar um poema de Jorge de Sena, intitulado “Camões dirige-se aos seus contemporâneos”, que, aplicado a Passos Coelho, ganha outro significado:

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.

Não importa nada: que o castigo
será terrível. (…)

E Catarina Wallenstein leu um texto de João Botelho, com a devida vénia ao Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros:

Basta pum basta!
Uma geração que consente deixar-se representar por uma Troika é uma geração que nunca o foi.
É um coro d'indigentes, d'indignos e de cegos!
É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!
Abaixo a geração!

Morra a Troika, moirra! Pim!

Uma geração com um Relvas a cavalo é um burro impotente!
Uma geração com um Passos ao leme é uma canoa em seco!
O Relvas é um aldrabão!
O Passos é meio aldrabão!
O Relvas é um habilidoso!
O Passos usa ceroulas de malha!
O Passos especula e inocula os concubinos!
O Passos é Relvas!
O Relvas é Gaspar!
O Gaspar é Passos!
Moirra a Troika, morra! Pim (…)

Este Orçamento não passará

Por volta das 20 horas, o ator João Reis leu o manifesto “Que se lixe a toika, este Orçamento não passará”, que afirma: “Hoje, milhares de artistas, de profissionais do espectáculo e de pessoas anónimas juntaram-se em todo o país para afirmar que a nossa vitória contra este governo e a política da troika passa também pela defesa da cultura.

“Este governo acabou.

“Só serve os interesses financeiros, faz crescer o desemprego, a miséria e a dívida. Perdeu toda a legitimidade ao deixar de servir o povo que o elegeu.

“Não há ministro que saia à rua sem ser insultado e o Presidente teme celebrar a República com o povo.

“Não abdicamos de quem somos. Um povo com direitos, liberdade, identidade e cultura.

“Este Orçamento do Estado não passará!”.

Cultura é criatividade

Mas não foi só a geração mais velha a protagonizar grandes momentos musicais, nem poderia ser. O problema é que houve tantas atuações empolgantes, que é difícil recordar todas.

O repórter vibrou com “Inquietação”, interpretado por Camané com a música dos Dead Combo, adorou “Paraíso Fiscal” dos Diabo a Sete, gostou de ver a empolgação da malta mais nova (e nem tanto assim) com os Peste & Sida, gostou de ver o pessoal do hip-hop e considerou sublime a versão dos Rádio Macau de “Ir e vir”, dos GAC dos tempos da revolução. Mas o que os ainda muitos milhares aguardavam já noite a dentro eram a Naifa e os Deolinda, que não desiludiram e cantaram o hino do Precariado, “Que parva que eu sou”.

No final, subiu ao palco o coro Acordai e o poema de José Gomes Ferreira, musicado por Lopes Graça, foi lida em grego, espanhol, italiano, alemão, francês e inglês, antes de ser cantado em português:

Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais

Acordai!

Antes de terminar, com todos os artistas no palco, ainda se ouviu “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, de Camões e José Mário Branco, e cantou-se “Grândola”.

Organização impecável

Uma palavra final para a impecável organização que funcionou como um relógio, conseguindo administrar o que à primeira vista parecia um pesadelo logístico, um Woodstroika mais complicado que o Woodstock, sem tempos mortos e que terminou com menos de uma hora de atraso.

E permitam-me puxar os galões à nossa equipa de vídeo: o Esquerda.net transmitiu o concerto em direto, do princípio ao fim, nove horas de transmissão, um recorde do portal.

Não resisto a terminar com um veneno. Fico à espera de ver o impagável Vasco Graça Moura e um secretário da Cultura de que não recordo o nome organizarem uma manifestação da brigada do reumático da Cultura em apoio ao governo... 

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Jornalista do Esquerda.net
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