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"Guerra contra as drogas" é um fracasso, diz diretora do Programa das Américas

Nesta entrevista à Opera Mundi, a investigadora do Center for International Policy Laura Carlsen alerta para a remilitarização da América Latina e os interesses ocultos que intervêm nos processos emancipatórios na região. E diz que a estratégia da "guerra às drogas" apenas trouxe mais violência e mortes.
Foto Jesús Villaseca P/Latitudes Press

Quais são as características do modelo de combate ao narcotráfico impulsionado pelos EUA no México e agora exportado para a América Central?

É um modelo baseado na militarização do território e no enfrentamento direto para a interdição e pelo confisco de drogas ilegais, assim como a prisão ou eliminação dos membros dos cartéis da droga. Isso, por definição, implica enfrentar a violência com mais violência e o resultado é o aumento progressivo dos mortos. Até este momento, calcula-se que o combate contra o narcotráfico e o crime organizado no México tenha deixado um saldo de mais de 60 mil mortos.

Qual é o balanço deste modelo?

Tem sido um fracasso total. Tem gerado altíssimos índices de violência, não tem detido o fluxo de drogas ilícitas que entram nos EUA e até a prisão dos capos [chefes] da droga não tem servido para travar o 'negócio'. Pelo contrário, a sua captura tem desatado uma guerra entre os cartéis para assumir o controlo do território, gerando mais violência e morte.

Houve alguma mudança com a administração do presidente Barack Obama?

A  Iniciativa Mérida foi iniciada em outubro de 2007 como um plano de três anos. O que Obama fez foi expandi-lo, intensificá-lo e estendê-lo de forma indefinida. Pela primeira vez, os EUA envolveram-se diretamente na gestão de aspectos que têm a ver com a segurança nacional do México. É uma mudança estrutural muito preocupante que agora está a ser projetada para a América Central por meio da CARSI (Iniciativa Regional de Segurança para a América Central). Um dos primeiros efeitos que estamos vendo é a remilitarização desses países e uma dinâmica de crescente violência contra a população e de violação de direitos humanos.

Que interesse os EUA teriam em reproduzir um modelo que fracassou?

O país não está disposto nem sequer a analisar o porquê deste fracasso e estão a receber fortes críticas até dos governos da região. Para nós, essa atitude revela que, por trás da militarização, há interesses muito poderosos.

De quais interesses estamos falando?

Em primeiro lugar, garantir os enormes lucros da 'indústria da guerra', que está radicada maioritariamente nos EUA. São bilhões de dólares que entram no país através da venda de armas e de equipamentos militares, do emprego de empresas de segurança privada, como a Blackwater, e a implementação de sistemas eletrónicos e de espionagem sobre a população.

Em segundo lugar, há um interesse geopolítico. Os EUA querem ter mais controlo sobre as estratégias de segurança interna dos países centro-americanos, sobretudo agora que vários governos progressistas ou de esquerda se instalaram na América Latina, governos que já não compartilham das políticas neoliberais e impulsionam processos inovadores. Neste sentido, os EUA procuram fortalecer sua presença militar para enfrentar o que vêem como uma ameaça contra a sua hegemonia tradicional na região.

Também há um grande interesse pelos recursos destes países...

É outro dos pontos diretamente ligados à militarização e que tem o seu precedente na Colômbia, onde, sob o pretexto de combater o tráfico, enviaram mais de cinco milhões de pessoas. E o mais absurdo é que agora o Departamento de Estado norte-americano está a apresentar a Colômbia como um exemplo de segurança e um modelo que se deve exportar em todo o continente latino-americano. No México, por exemplo, através da Iniciativa Mérida, os EUA militarizaram o TLCAN (Tratado de Livre Comércio da América do Norte) para preservar os seus interesses comerciais e proteger o investimento norte-americano em recursos naturais. Por fim, trata-se disso: uma militarização que não apenas protege o investimento estrangeiro, como fomenta um processo de deslocação e despovoamento de regiões onde há riquezas naturais.

Em vários países da América Central, os protestos sociais contra a exploração de recursos naturais estão a ser criminalizados. A senhora compartilha desta preocupação?

Não há dúvidas de que os protestos sociais estão a ser reprimidos, sobretudo nos países do Triângulo Norte. Há uma criminalização acompanhada pela repressão daquelas organizações que lutam contra a mineração, os megaprojetos hidroelétricos e turísticos, a expansão da monocultura em grande escala. Devemos aprofundar a análise e a investigação para ter elementos suficientes que nos ajudem a prever para onde essa repressão aponta.

Que papel a DEA (Drug Enforcement Administration) tem e qual é o fluxo de dinheiro que financia a luta contra o narcotráfico na América Central?

Investigamos o movimento de dinheiro que vai para a luta contra o tráfico de drogas, mas tem sido muito difícil devido à falta de transparência. Em alguns países, como Honduras e Guatemala, os agentes da DEA estão autorizados a andar armados e a disparar contra civis, o que é um absurdo e representa uma violação absoluta da soberania nacional e dos direitos humanos internacionais. Além disso, documentamos o sofrimento que a criminalização das manifestações causa e, em particular, o impacto disso sobre as mulheres. Lamentavelmente, esta situação choca com o total desinteresse mostrado pelo Departamento de Estado norte-americano.

Quais são os impactos desta política sobre as mulheres?

Há índices muito elevados de abuso, tortura e violência sexual. As mulheres com frequência lideram a defesa de suas comunidades e as manifestações sociais diante do processo de militarização e de exploração dos recursos naturais. No caso de Honduras, esta situação coincide com o aumento da violência que surgiu depois do golpe de Estado e que cresceu com o atual regime de Porfírio Lobo.

Também é preciso destacar a repressão iniciada contra os oposicionistas ao golpe e o uso de uma suposta luta contra o narcotráfico para reprimir a oposição política. E tudo isso com uma total impunidade. Em Honduras, os casos que chegam à sentença judicial são menos de 2% e as denúncias de corrupção nas instituições estão na ordem do dia.

Igualmente, na Guatemala, a situação é muito preocupante. As comunidades, que ainda têm na memória os horrores da campanha militar genocida dos anos 80, estão vendo como seus territórios voltam a ser militarizados e sua população, reprimida.

Como combater, então, o tráfico de drogas e o crime organizado?

Não há uma resposta apenas, nem um modelo certo, mas sabemos que a militarização não é a resposta. É importante que este outro modelo se construa de baixo, com a participação cidadã e com uma perspectiva de segurança que tenha como primeiro objetivo a segurança da pessoa, de sua vida.

Além disso, é preciso focar-se na recuperação do tecido social, que tem sido destruído pelas políticas neoliberais. É necessário recompô-lo com programas sociais que criem emprego, garantam o desenvolvimento econômico, a saúde, a educação, o respeito aos direitos humanos. É preciso voltar a começar a construir uma sociedade forte, para que se possa resistir às infiltrações do crime organizado, ao recrutamento de jovens e à extorsão.

E finalmente é preciso pressionar as forças políticas para que haja um sistema de justiça a serviço da população, acabando com a impunidade e a corrupção.


Laura Carsen é cientista política e diretora do Programa das Américas - Direitos e Segurança na América Latina no Center for International Policy. Artigo publicado em Opera Mundi.

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