Nunca é tarde

porMarisa Matias

30 de September 2012 - 0:04
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Para quem não o conhecia, partiu o militar de Abril. Partiu Augusto Monteiro Valente.

Chego tarde. Muito tarde mesmo. Esta homenagem há muito tempo deveria ter sido feita, mas mais vale agora do que nunca. O dia 4 de setembro não é ainda passado tão distante e, no entanto, parece que houve uma quebra no tempo. Para quem não o conhecia, partiu o militar de Abril. Partiu Augusto Monteiro Valente. Para aqueles e aquelas que, como eu, tiveram o enorme prazer de partilhar e viver pedaços de vida com ele, foi uma dor de alma saber de um futuro que tão repentinamente assim fugiu.

Num ano de perdas profundas, esta deixou mais um vazio. Quantas vezes a vida nos oferece um privilégio assim? Quantas vezes poderemos dizer de alguém que admirávamos tanto a sua firmeza quanto a sua suavidade, o seu rigor tanto quanto a sua disponibilidade, o seu saber de vida feita tanto quanto a sua vontade permanente de aprender, a sua história tanto quanto o fascínio pelas histórias dos outros, as suas convicções tanto quanto a liberdade de as deixar habitar por outras?

O major-general Augusto Monteiro Valente foi de facto um homem de Abril, mas de um Abril que não ficou em 1974 e que com ele e connosco voou dias fora. Sabia de história contemporânea como poucos, interessava-se pelos outros como poucos e sorria, sorria sempre.

O tanto que ganhámos, em tantas lutas. Com tantas partilhas e tão deliciosas trocas de pontos de vista. Convivi com este amigo sobretudo no tempo em que partilhámos a direção da Pro Urbe. E lá estava ele, sempre. Criou-se o movimento dos Amigos da Cultura e lá estava ele. Nunca resignado, sempre esperançado e agarrado à convicção de que se é melhor se for em conjunto, que vale a pena se for para todos.

Podia passar horas a ouvi-lo. E ele que tanta paciência tinha para escutar e envolver os outros. Desafiava-nos permanentemente. Divulgava e engrandecia a sua Associação 25 de Abril e a sua "Avenida da Liberdade".

O tempo e as distâncias afastam-nos fisicamente e, de quando em vez, um sobressalto assim faz-nos pensar porque é que deixamos que as nossas vidas complicadas nos afastem tanto assim uns dos outros, se havia alguma coisa que poderia ter sido feita.

Os vazios, já percebi, não se preenchem, o tempo ajuda apenas a almofadar as bordas. Obrigada, amigo. Obrigada, major-general. Obrigada pela materialização desse Abril em que acredito.

Artigo publicado no jornal “As Beiras” de 29 de setembro de 2012

Marisa Matias
Sobre o/a autor(a)

Marisa Matias

Eurodeputada, dirigente do Bloco de Esquerda, socióloga.
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