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O problema da formiga

Chamar preguiçosos a milhares de portugueses, desempregados involuntários sem alternativa nem expectativa, sem rendimentos, ou a tantos outros cujo salário tem minguado à velocidade que a economia deprime, é algo que merece registo nos anais da arrogância política.

A fábula* é conhecida: a cigarra, tendo cantado todo o Verão, sem trabalhar, viu-se chegada ao Inverno e sem nada para comer e foi pedir alimento à formiga, que trabalhou de sol a sol todo o ano, para ter sustento. A história tem moral e acaba mal: colhemos o que plantamos e não vale aproveitarmo-nos dos outros, que acabamos mal. A fábula foi agora recuperada pelo governo, e a adaptação do Ministro da Administração Interna não podia ser mais infeliz. Para Macedo Portugal tem tido muitas cigarras e poucas formigas para puxar pelo país, e é essa a razão do nosso falhanço, que deve ser entendido com “pedagogia” para explica os sacrifícios e o calvário porque temos de passar. Não todos, claro, mas apenas as formigas.

Na verdade a fábula deste Governo tem sido bem diferente: as cigarras, aliadas da troika, escapam ao martírio das formigas, obreiras a quem destruíram o rumo do carreiro e condenaram a emigrar e procurar outra vida.

Este Governo das metáforas deu mais um tiro na forma de comunicar com as massas, rendido ao populismo desesperado, ao mesmo tempo que deixou bem claro ao que vem. No contexto em que a lei da selva impera no mercado de trabalho, em que o emprego estável e com direitos é algo em vias de extinção, em que impera a precariedade selvagem e a liberalização das leis laborais, chamar preguiçosos a milhares de portugueses, desempregados involuntários sem alternativa nem expectativa, sem rendimentos, ou a tantos outros cujo salário tem minguado à velocidade que a economia deprime, é algo que merece registo nos anais da arrogância política.

O Governo perdeu a face, está desnorteado e recorre à demagogia barata. O estafado “vivemos acima das nossas possibilidades”, transfigura-se agora no chavão moralista de que “gastamos mais do que produzimos, e portanto temos de pagar a fatura”. De metáfora em metáfora, a mensagem não disfarça o falhanço e a incompetência desta política.

Os “piegas”, os mesmos que têm de sair do país se outra sorte não lhes resta, são as formigas nos carreiros que crescem de descontentamento. Cansados das cigarras poderosas, privilegiadas, que nos têm (des)governado. É grande a carga moral da afirmação do MAI, que tarde tentou emendar a mão, mas a quem escapou a moral da história original, que se cumpre no fim: é a formiga que sobrevive ao Inverno e um dia sentencia o fim da cigarra. Diz a música do Zeca que “a formiga no carreiro vinha em sentido diferente". Hoje são muitas mais, estão mais alinhadas, e podem fazer toda a diferença.

* Original de Esopo, escritor da Grécia antiga, e recriada por La Fontaine, poeta francês.

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Jornalista
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