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Governo é alvo de contestação de vários setores sociais

Executivo do PSD/CDS-PP enfrenta críticas de sindicalistas, economistas, representantes da Igreja Católica e das Instituições Particulares de Solidariedade Social e, inclusive, dos parceiros sociais que assinaram o acordo de concertação social. Governantes são recebidos com protestos em vários pontos do país.
Foto de Paulete Matos.

Logo após o anúncio de Pedro Passos Coelho ao país sobre as novas medidas de austeridade a serem plasmadas no Orçamento do Estado para 2013, o executivo do PSD/CDS-PP foi alvo de duras críticas, oriundas dos mais diversos setores sociais.

D. Januário Torgal, bispo das Forças Armadas afirmou-se “escandalizado" com a "falta de justiça social" das medidas anunciadas que, a seu ver, constituem um verdadeiro "ataque atroz aos trabalhadores"."Não é com austeridade que se salva o país", adiantou, sublinhando que “o primeiro ministro quer ir em frente mas a estrada fica juncada de cadáveres”.

“Isto é uma insensibilidade, é uma insensatez. Onde é que há equidade? Isso é uma mentira! Estou perfeitamente solidário com as pessoas que estão a ser retalhadas aos pedacinhos”, sublinhou D. Januário.

Também Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas, avançou que as novas de austeridade são “quase um castigo que está a cair sobre pessoas que não tiveram culpa da situação em que o país caiu".

O diretor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, José Reis, juntou-se ao coro de constitucionalistas e de juízes que acusaram o primeiro ministro de “trair o sentido do acórdão", avançando que o "novo imposto [subida da TSU]" representa uma "insuportável punição sobre o trabalho".

Uma "declaração de guerra aos trabalhadores". Foi assim que o dirigente da CGTP, Arménio Carlos, classificou o anúncio do primeiro ministro. Já o ex-secretário geral da CGTP, Carvalho da Silva, defendeu que as medidas de austeridade para 2013 anunciadas por Passos Coelho são "um exercício inequívoco de aprofundamento de desigualdade" que irão aprofundar “as desigualdades num país que já é dos mais desiguais da União Europeia".

Nem os parceiros sociais que assinaram o acordo de concertação social – UGT, Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), Confederação Empresarial de Portugal (CIP) e Confederação do Turismo Português (CTP) – defenderam as medidas do governo PSD/CDS-PP.

João Proença, da UGT, acusou o executivo de “retirar recursos aos trabalhadores para dar lucro a algumas grandes empresas” e de dar “um grande tiro no acordo” de concertação social. Já o presidente da CIP alertou para um possível “tsunami social”.

Governantes são recebidos com protestos em vários pontos do país

A realização de protestos durante as visitas de membros do governo do PSD/CDS-PP já se tornou uma constante e tem-se intensificado nos últimos dias.

Um dia após o anúncio das novas medidas de austeridade, o ministro da Solidariedade e da Segurança Social, Pedro Mota Soares, foi vaiado durante uma visita a Ponte de Lima, o único município do país liderado pelo CDS-PP.

Na Trofa, Paulo Portas teve que evitar os manifestantes durante a sua visita à fábrica Frezite. Já Passos Coelho voltou a ser recebido com protestos durante uma visita oficial à fábrica de chocolates Imperial, em Vila do Conde. Tal como tem vindo a acontecer, o primeiro ministro serviu-se de uma porta secundária para tentar “passar despercebido”.

No Funchal, o ministro da Defesa Nacional, José Pedro Aguiar-Branco, foi recebido com vaias e apupos por duas dezenas de manifestantes.

As entrevistas concedidas por ministros do governo de direita também têm dado origem a momentos de maior contestação. Vítor Gaspar foi recebido à entrada das instalações da SIC por um grupo de manifestantes que gritavam "25 de abril sempre, fascismo nunca mais". Também o ministro da Educação, Nuno Crato, foi recebido à porta da TVI por cerca de meio milhar de professores.

“Traidor e incompetente”. Foi com estas palavras que dezenas de manifestantes presentearam o primeiro ministro aquando da sua entrevista em direto para a RTP, a partir da sua residência oficial, em São Bento.

Diferentes formas de protesto

Depois de as manifestações de 15 de setembro terem superado todas as expetativas, reunindo mais de um milhão de pessoas nas ruas portuguesas contra as políticas de austeridade, surgem novos protestos.

Esta segunda feira tiveram lugar duas vigílias: uma organizada pelos trabalhadores da RTP, contra a privatização da empresa, e outra pelos professores, que defenderam que "as escolas devem parar durante uma semana", repartindo os dias por cada ciclo de ensino e culminando numa greve nacional da função pública.

A indignação perante esta nova vaga de austeridade assumiu ainda outros contornos. Esta terça feira, a escritora Maria Teresa Horta, distinguida com o Prémio D. Dinis pelo romance “As Luzes de Leonor”, afirmou que se recusa a receber o prémio das mãos do primeiro-ministro.

“Na realidade eu não poderia, com coerência, ficar bem comigo mesma, receber um prémio literário que me honra tanto, cujo júri é formado por poetas, os meus pares mais próximos - pois sou sobretudo uma poetisa, e que me honra imenso -, ir receber esse prémio das mãos de uma pessoa que está empenhada em destruir o nosso país”, adiantou Maria Teresa Horta.

Para sexta feira, 21 de setembro, os promotores da manifestação de 15 de setembro agendaram uma concentração em Lisboa, nos jardins de Belém, pelas 18h. Esta concentração, que coincidirá com a reunião do Conselho de Estado, convocada pelo presidente da República, e que contará também com a presença do ministro das Finanças, Vítor Gaspar, terá várias réplicas em inúmeras cidades do país, como Guarda, Pombal, Ponta Delgada, Porto, Viseu, Aveiro, Coimbra, Santa Maria da Feira e Braga, ainda que nesta última cidade a iniciativa tenha lugar sábado, dia 22 de setembro.

Os organizadores do 15 de setembro estão ainda a preparar uma Greve Geral popular que pare efetivamente o país.

Para o dia 29 de setembro, foi, entretanto, agendada pela CGTP-IN uma “Grande Jornada de Luta Nacional” , que terá lugar no Terreiro do Paço, em Lisboa.

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