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O alvo

Dia 15 de Setembro é um passo que exige de concretização, abertura para escutar e conversar e muita perseverança, identificando o alvo principal.

É impossível ignorar a importância das gigantescas manifestações de 15 de Setembro. Mas é imperioso, de igual modo, não padecer de uma qualquer epifania. Importa sempre relembrar que outra grande manifestação conduziu, pouco tempo depois, às eleições que levaram a direita ao poder, Nas ruas esteve uma multidão unida por um mínimo denominador comum. É certo que ela pode representar também a gota de água ou o célebre ponto de viragem. Mas não há aí nenhuma garantia ou automatismo. Basta olhar para o discurso público e constatar que todas se reivindicam do espírito manifestário, incluindo a Igreja, os patrões, Manuela Ferreira Leite e Alberto João Jardim.

O tom geral era claro e por vezes mesmo radical, na contestação da troika e da austeridade, mas a fulanização em torno de Passos Coelho levanta paralelismos com a anterior aversão a Sócrates. De igual modo, o timbre patriótico, a evocação do “povo” ou de um “nós” mítico, a par de louváveis mas vazias expressões de um humanismo redentor deixam antever, nas malhas da anti-política e de um ódio larvar aos “partidos”, indícios inquietantes de um populismo que só pode ser conservador.

Dito isto, importa desafiar o PS a posicionar-se. Na verdade, por detrás da retórica agressiva, não há um único sinal de rutura com o memorando de entendimento, apenas uma rejeição – que todos apoiamos – da TSU. Nessas condições, é igualmente ilusório pensar que estão criadas as condições para um Governo de esquerda. Nós precisamos de uma alternativa – e depressa, tal o ritmo de destruição do país. Mas essa alternativa tem de ser um puro início e jamais pode ser um ramo outro, ainda que superficialmente mais benévolo, da árvore podre – a política de austeridade, que mais não é do que a forma encontrada pelas classes dominantes de recompor o capital, através de transferências massivas que resultam da sangria do trabalho. Com a TSU, é à bruta. Mas não é por conseguirmos dois anos em vez de um, ou com a esmola do Banco Central Europeu, como o PS pretende, que o essencial se altera.

Dia 15 de Setembro é um passo que exige de nós concretização, abertura para escutar e conversar e muita perseverança, não paternalista nem sobranceira, na politização das gentes, identificando o alvo principal que, como sempre, se esconde bem.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário, Presidente da Associação Portuguesa de Sociologia. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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