You are here

Podridão

A legitimidade do governo acabou. As manifestações deste sábado são por isso o início de um novo ciclo político...

Em apenas uma semana, Pedro Passos Coelho arruinou o seu governo. Sexta-feira passada o primeiro-ministro apresenta a alteração da Taxa Social Única, mas não explica porquê. Na terça-feira seguinte Vítor Gaspar agrava o IRS e os cortes das pensões, mas os valores do orçamento continuam sem bater certo. Na quarta-feira o mesmo ministro afirma que ainda mais medidas temporárias serão necessárias, mas não diz quais. Paulo Portas andava a viajar e Miguel Relvas decidiu dar declarações, o que nunca ajuda. Pelo meio a sociedade estalou. Trabalhadores e patrões, estudantes e pensionistas, opinadores da esquerda à direita, todos se fartaram do abuso e exigiam explicações. No cerne de todas as exigências estava a explicação de como é que as alterações da TSU criam emprego? Mistério. Nem a própria Troika sabe verdadeiramente.

A entrevista de quinta-feira era a última oportunidade de Passos Coelho sustentar as suas escolhas políticas mas não só não respondeu como não explicou, não convenceu nem mostrou convicção e, ainda pior, deixou claro que a sua argumentação não resiste ao contraditório. E um primeiro-ministro que não consegue sustentar as suas propostas, por muito impopulares que sejam, não merece estar no lugar.

Passos Coelho ultrapassou assim um ponto de não retorno. Daqui para a frente o Governo é um fantasma de si próprio, incapaz de se levar a sério e de ser levado a sério, de se organizar com objetivos comuns, de ter uma mensagem coesa. Não significa que a coligação acabe, pelo contrário. As ameaças de rutura e todo o taticismo Paulo Portas não passa disso mesmo, taticismo. O CDS estará onde der jeito e, dá jeito estar no poder. A posição de intensa fragilidade do primeiro-ministro e a tensão dentro da coligação, vai obrigar a uma reestruturação governamental e isso dará um balão de oxigénio a Passos Coelho. Mas o que está podre não volta a ser saudável. A legitimidade do governo acabou. Portugal não acredita no Pedro, muito menos no Paulo e qualquer nova proposta, qualquer nova medida, qualquer novo discurso vai ser recebido com merecido desdém e desprezo. É assim que deve ser.

As manifestações de sábado são por isso o início de um novo ciclo político que rejeita a exaustão da austeridade e abre caminho à alternativa da democracia. As grandes mudanças fazem-se passo a passo.

Sobre o/a autor(a)

(...)