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A cegueira da austeridade, a lucidez da luta

A aldrabice absoluta da inevitabilidade da austeridade, que os três partidos que nos governam há quase 40 anos nos tentaram fazer acreditar, já não cola. Já não nos cala. Dia 15, saímos para a rua de olhos bem abertos, e no dia a seguir, e depois, e depois também.

Não importa o que digam as instituições do Estado de Direito como o Tribunal Constitucional sobre o que o Governo PSD/CDS aprova. Passos quer, pode e manda. Poucos são os direitos fundamentais garantidos na Constituição da República Portuguesa que este Governo não tenha pisado e agora, ficamos a saber que o poder da lei sobre o executivo deixou de existir: este Governo faz o que quer, e ninguém pode levantar o dedo.

De notar também é a hora escolhida, precisamente antes dum jogo da Seleção Nacional. Se eu fosse jogador, indignava-me por ser usado na tentativa de distrair um país inteiro. Se o Governo durar até lá, podemos esperar uma declaração do Primeiro-ministro a 13 de Maio?

Passos fez o impensável. Depois da Troika ter vindo sacudir a água do capote e dizer que o que corre mal é culpa nossa, Passos vem descaradamente tentar-nos enganar. Em vez de repor os subsídios, consegue dizer que uma medida contra o desemprego é tirar dinheiro às pessoas (que são cidadãos, trabalhadores, consumidores, dinamizadores da economia, mas sobretudo seres humanos dotados de inteligência), para dar às empresas. Já agora, uma medida que pouco agrada às PMEs, feita para as empresas amigas de Passos Coelho, vulgo “grandes grupos económicos”, que irão poupar centenas de milhões de euros em contribuições à segurança social, à custa dos trabalhadores. E sobretudo, o inacreditável, é que esta prenda extra-Natal às grandes empresas não exige nenhuma garantia de mais contratações, que é o pretexto para mais austeridade.

Além disso, Passos faz o que ninguém ousou fazer até hoje. Baixa o salário mínimo. Sim, porque esta contribuição não-voluntária é para todos, e isso equivale a cerca de 35 euros mensais para quem ganha 485€. É a diferença entre pagar a conta da luz ou não pagar. Seres humanos, no século XXI, a viver nas condições miseráveis do século XIX. Não é uma miragem. Já acontece e agora piorará.

A solução para muitos é emigrar. Muitos mesmo. Tenho cada vez mais a impressão de que a solução do Primeiro-ministro é o contrário da solução do seu homólogo no “Ensaio sobre a Lucidez” de Saramago. Simples: em vez de decretar o estado de sítio e nos fechar dentro do país e fugir, Passos Coelho parece querer expulsar todos para ficar com o país para ele, a Troika, e os seus amigos empresários. O povo para fora, que aqui não cabem todos.

O mais impressionante, como sempre nos últimos tempos, é a posição do PS perante isto tudo. Cambaleando hesitante entre posições vagas, dúbias e, muitas vezes, favoráveis à austeridade mas sempre com a nobre atitude do “agarrem-me, senão vou-me a eles” começa agora a sua pré-campanha. Dizem que não se pode aceitar mais austeridade, mas foram eles que a assinaram. Respondem que não haveria dinheiro para pagar salários se não fosse essa assinatura, mas nem um tostão do empréstimo foi para pagar salários. O memorando, esse, é para tirar salários, e está lá com três assinaturas, PS, PSD, CDS.

A austeridade começa a desenhar uma nova fronteira política em Portugal. A aldrabice absoluta da inevitabilidade da austeridade, que os três partidos que nos governam há quase 40 anos nos tentaram fazer acreditar, já não cola. Já não nos cala. Dia 15, saímos para a rua de olhos bem abertos, e no dia a seguir, e depois, e depois também. Até este Governo cair? Não. Até a austeridade cair. Até termos as nossas vidas de volta.

Sobre o/a autor(a)

Gestor de redes sociais, investigador em comunicação política.
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