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“Adéu Espanya”: A maior manifestação da história da Catalunha

Entre 1,5 e dois milhões de pessoas ocuparam Barcelona reivindicando que a Catalunha seja um novo estado europeu. Do Diário Liberdade.
Uma maré humana tomou Barcelona. Foto de Thundershead

A opinião é generalizada: não se via nada parecido nas ruas de Barcelona desde o ano 1977, data da lendária manifestação em defesa de um Estatuto de Autonomia para o Principado da Catalunha após quarenta anos de franquismo. É a potente avaliação que deixa a festa do ‘Onze de Setembre’, a ‘Diada’ Nacional catalã.

Ontem aquela jornada foi largamente recordada e, com as dificuldades de avaliar objetivamente a assistência num evento tão massivo, há mesmo a opinião de que a participação pode ter sido maior. Ambas fazem já parte da História dos Países Catalães, e figuraram como marcos importantes na consecução de uma independência que hoje parece mais próxima do que ontem.

Seja como for, os números parecem colocar a participação pelo menos por cima do milhão de pessoas – esse foi o número de 1977. A Assembleia Nacional Catalã (ANC), entidade que convocava o protesto, diz que foram dois milhões. As forças policiais falam de um milhão e meio.

Madrid tenta desvalorizar

Essa rotunda adesão, que ultrapassou todas as expectativas, fez abalar Madrid, que disse que a assistência foi de 600.000 pessoas. A televisão pública do Estado espanhol (TVE), controlada politicamente pelo partido no poder (o ultraespanholista PP) também tentou tirar importância à histórica jornada. O maior protesto da História da Catalunha entrou no quinto lugar, após as eleições na Holanda.

Já antes das 18 horas – marcadas para o início da marcha – a superfície ocupada pelos e pelas manifestantes duplicava a extensão prevista. A cabeça da manifestação teve que deslocar-se do lugar de começo para deixar espaço às e aos manifestantes que não paravam de chegar, e representantes da ANC que protagonizariam os atos finais não puderam acompanhar o percurso, perante o risco de que mais tarde fosse impossível chegar ao ponto final, ao qual se dirigiram diretamente.

Chegaram manifestantes principalmente do Principado da Catalunha, mas também de Valência, Ilhas Baleares (ambas sob domínio espanhol) e o Rosselló (sob domínio francês). A palavra “independência” foi a mais escutada e a bandeira independentista, a “estelada”, omnipresente.

Convocatória popular

A ANC, surgida a partir de assembleias em centenas de municípios do Principado da Catalunha nos últimos anos e no contexto das consultas populares pela independência, conseguiu mobilizar de forma extraordinária. Os partidos políticos do sistema, incluído o governante Convergència i Unió (CiU, neoliberal nacionalista-autonomista) não puderam ignorar a força que os acontecimentos iam tomando e viram-se obrigados a se posicionar perante a convocatória popular.

Só a direita espanholista mais retrógrada (Partido Popular e ‘Ciutadans’) foi quem decidiu não se reunir com as e os representantes da ANC. Os outros partidos tiveram que ceder e aguardavam no ‘Parlament’ a chegada da comitiva.

Artur Mas (CiU), presidente da Comunidade Autónoma, tentou apropriar-se da manifestação à última hora, mostrando o seu apoio e reivindicando o protesto em defesa do “Pacto Fiscal” (acordo entre a administração espanhola e a do Principado a respeito do financiamento da Catalunha, que constitui um dos pontos principais do programa de governo do neoliberal). Vã tentativa: quase nenhuma referência ao pacto e muitos gritos pela independência.

Reclamamos ao governo catalão que empreenda os passos para a secessão”

O ato final dividiu-se numa parte institucional e uma outra na rua. Enquanto catalãs e catalães de diferentes origens e idiomas maternos liam textos pela independência que eram aclamados com aplausos e gritos, dirigentes da ANC entregavam no Parlament uma carta aos políticos do sistema.

Carme Forcadell, Presidenta da ANC, leu o texto entregue na câmara: “Reclamamos ao governo catalão que empreenda os passos necessários para a secessão” – disse. Contundente reclamação que resume os anseios da maior parte do povo catalão, impedido pelo imperialismo espanhol.

No ato de rua, entretanto, criticava-se “o tratamento recebido” da Espanha, que “nenhum povo merece”. Para esses casos “a comunidade internacional concebeu o direito de autodeterminação”.

Continuar avançando

Entretanto, e certificado o aumento espetacular da consciência na defesa dos Direitos Nacionais do povo catalão, há aspetos que ainda têm carreira para progressão.

A integridade territorial não está hoje completamente assumida, e frequentemente a independência é reclamada apenas para uma parte do território dos Países Catalães (nomeadamente, o Principado da Catalunha). Valência, Ilhas Baleares, Rosselló e ‘La Franja’ sofrem uma maior penetração da perda de consciência nacional e mesmo têm a sua língua em recuo (em falantes ou direitos) perante o espanhol.

Também não está (nem muito menos) socializada a necessidade de que a libertação nacional seja também de classe. Sob o atual governo da nacionalista mas neoliberal e católica CiU, que aplica cortes tão ou mais duros que os do governo espanhol, essa necessidade é mais patente do que nunca.

Há motivos para a esperança. Nos últimos anos a esquerda revolucionária tem multiplicado apoios. À falta de uma avaliação deste ano, em 2011 ela conseguiu juntar mais pessoas manifestando-se no 11 de Setembro do que qualquer partido do sistema. As atividades são mais a cada dia, e contam com adesão de mais pessoas, conseguindo dar batalha mesmo no campo institucional: as Candidatures d’Unitat Popular (CUP, criadas sob parâmetros de justiça social e autodeterminação nacional) já controlam algumas Câmaras Municipais e a cada ano experimentam uma progressão geométrica no número de vereadores e vereadoras.

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