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A avaliação

A cada dia que passa, o País percebe melhor a patranha. E é por isso que está a chegar o tempo dos vira-casacas.

A troika a aterrar na Portela para avaliar a execução do contrato assinado por ela, pelo PS, pelo PSD e pelo CDS com a bênção do Presidente da República e o País a saber que o défice do primeiro semestre de 2012 tinha atingido 6,9%, a muitos milhões de euros de distância dos juradíssimos 4,5%. E, lembrou a Unidade Técnica de Apoio ao Orçamento, por regra a execução de despesa nos segundos semestres é maior. Como dizia o outro, o que é mau só pode mesmo piorar.

A troika a aterrar na Portela e o País a perceber cada vez melhor que a história lhe foi mal contada desde o princípio. Que a salvação prometida é a condenação imposta. Que quem rasgava as vestes contra o aumento da carga fiscal não tem feito outra coisa senão subir os impostos (e já deixa no ar a ameaça de o voltar a fazer daqui a dias). Que o braço de ferro entre os adeptos da austeridade máscula e dinâmica e os adeptos da mesma austeridade mas mais fofinha é uma disputa entre treinadores da mesma escola que leva sempre à descida de divisão. A troika a aterrar na Portela e o País a perceber que, no fim das contas - das contas bem feitas -, o resultado de tanto sacrifício imposto a quem não conhece outra vida senão essa de sacrifício é uma dívida maior, um défice maior, um empobrecimento maior, um desemprego maior, uma competitividade mais débil da economia.

Partidos, académicos, opinadores, ativistas que alertaram para os erros evidentes da receita do memorando - em si mesma e não apenas na intensidade da sua execução - foram invariavelmente desqualificados pela retórica política oficial e pelos fazedores de opinião sempre prestáveis aos poderes do momento. Eufóricos no seu galopante "rumo ao infinito e mais além", os troikistas disseram de quem repudiou o empobrecimento como receita para o enriquecimento, o desemprego como receita para o trabalho ou a emigração como receita para o triunfo que não passavam de um bando de irresponsáveis. Pois agora o País percebe com clareza de que lado estava afinal a irresponsabilidade. Se havia alguma coisa de inevitável não era este caminho, em versão hard ou soft, era o descalabro a que ele conduziria. A cada dia que passa, o País percebe melhor a patranha. E é por isso que está a chegar o tempo dos vira-casacas.

Os comentadores economistas que pregavam com uma fé febril a redenção do País pela penitência da austeridade dizem agora, com a mesma fé e com a mesma febre, que era óbvio que não ia resultar. Os que defendiam que o governo de Luís Amado e de Teixeira dos Santos era o bastião da esquerda atiram-se agora contra as mesmas privatizações, os mesmos cortes salariais e a mesma estratégia fiscal que esse governo propôs. A direita parlamentar que criticou os críticos da troika critica agora a troika por não ter em conta o que os críticos criticaram. Cavaco Silva facebooka contra os sacrifícios demasiados, depois aprova as leis que os consagram e volta ao Facebook para os criticar. E a troika, justiça lhe seja, defende o que sempre defendeu, a realidade é que está enganada.

Não, eles não mudaram de opinião. Claro que não. Acham é que fizemos o que tínhamos que fazer e que, agora sim, estamos em condições de começar a fazer o que devia ser feito que é basicamente o contrário do que fizemos. Cá está, isto é lógica que não está senão ao alcance dos iluminados. Disseram-nos para nos atirarmos a um poço e nós, com uma responsabilidade exemplar, atirámo-nos. E só porque nos atirámos exatamente como eles disseram - ou até com mais convicção - é que temos agora autoridade para lhes pedir que nos atirem uma corda. Pois. Desculpem, mas assim que mal pergunte, tirem-me só uma dúvida certamente irresponsável: atirarmo-nos a um poço é bom?

Artigo publicado no "Diário de Notícias" de 7 de setembro de 2012

Sobre o/a autor(a)

Professor Universitário. Dirigente do Bloco de Esquerda
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