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O Tea Party nos EUA (e em Espanha)

A experiência de gestão empresarial não é a melhor garantia de que alguém saberá administrar melhor o público. Porque o objetivo de uma entidade pública não é ganhar dinheiro mas sim servir a cidadania, o que é muito diferente.
O capital inicial que este candidato obteve nos seus negócios empresariais procedeu de famílias de El Salvador (Poma, Dueñas, de Sola y Salaverria) que financiaram as milícias paramilitares que impuseram um enorme terror naquele país. Foto de NewsHou

Nas eleições para o Parlamento da Catalunha de 2006, num dos jornais mais conservadores da Catalunha, La Vanguardia, um colunista próximo ideologicamente da banca e do grande patronato entrevistou o candidato socialista, José Montilla, e com grande arrogância perguntou-lhe como uma pessoa como ele (Montilla, procedente de uma família operária, foi eleito para cargos políticos em várias ocasiões), que nunca tinha gerido uma empresa privada, tinha a ousadia de apresentar-se como candidato a um cargo como o de presidente da Generalitat da Catalunha, que tem grandes responsabilidades gestoras. Implícita nesta pergunta estava o pressuposto de que a melhor aprendizagem para gerir o público é ter gerido o privado (Montilla tinha gerido instituições públicas, mas não privadas, na sua vida profissional).

Esta postura está amplamente generalizada entre os grupos empresariais de qualquer país. Segundo eles, a melhor maneira de gerir o público é inspirando-se em como o faz a empresa privada. Esta mentalidade é reproduzida também nalgumas ocasiões mesmo dentro da esquerda. O próprio governo tripartido da Catalunha convocou uma comissão para fazer propostas de como melhorar a administração do setor público de saúde para a qual nomeou um grande número de grandes empresários e banqueiros para ajudarem com propostas para melhorar a administração pública do maior empregador da Catalunha, o Servei Català de la Salut (Serviço Catalão de Saúde).

Esta postura assume também, no geral, ainda que raramente de forma explícita, que as empresas privadas são melhor geridas que as públicas. Este debate está a aparecer também com grande intensidade nas eleições dos Estados Unidos. O candidato republicano Mitt Romney questiona as credenciais do presidente Obama, pois sublinha que a sua inexistente experiência como gestor de empresas privadas é um obstáculo para gerir o público. O candidato Romney é um homem que considera ter tido muito êxito no mundo dos negócios e refere-se à sua larga experiência empresarial como a melhor garantia de que saberá administrar o estado federal.

Os problemas do argumento: uma empresa pública tem objetivos diferentes de uma empresa comercial

O maior problema deste componente do postulado neoliberal é desconhecer que o objetivo de uma empresa define já em si a metodologia da sua gestão. Uma empresa privada tem como objetivo principal ganhar dinheiro. Uma pergunta que poderia fazer-se é “dinheiro para quem? Para os gestores? Para os acionistas? Parece que a evolução das grandes empresas (sobretudo as financeiras) mostra que os que dirigem tais empresas acentuam mais os benefícios dos gestores que os dos acionistas. Mas seja quem for o beneficiário, o facto é que ganhar dinheiro é o objetivo fundamental de uma empresa. A este objetivo está tudo subordinado.

O objetivo de uma entidade pública, como é a administração pública, não é ganhar dinheiro mas sim servir a cidadania, um objetivo muito diferente de ganhar dinheiro. Esta diferença é fundamental para entender o tipo de gestão que cada entidade precisa. Um empresário – como o candidato republicano à Presidência dos EUA, Mitt Romney – pode ter ganho muito dinheiro na empresa privada (sendo uma das pessoas mais ricas daquele país), e isso não o credencia para ser melhor presidente dos EUA que o presidente Obama, que não tem experiência empresarial privada. Na realidade, vendo como Mitt Romney conseguiu o dinheiro, a conclusão oposta parece ser a mais adequada. O candidato Romney ganhou o seu dinheiro especulando nos mercados financeiros, arruinando deliberadamente empresas para que entrassem em colapso, comprando-as a baixo preço (destruindo milhares de postos de trabalho, na estratégia conhecida como “abutre empresarial”) e evitando pagar impostos. As suas propostas para quando governar incluem enormes reduções fiscais para as grandes fortunas, para as grandes empresas e para a banca, privatizando a Segurança Social e a grande maioria dos serviços públicos, medidas que beneficiariam enormemente as pessoas de rendimentos superiores, que retiram os seus ganhos dos rendimentos de capital, à custa das classes populares, que veriam os seus rendimentos e a sua qualidade de vida claramente rebaixados. Na verdade, pouco se disse nos meios espanhóis das origens empresariais do sr. Romney. O capital inicial que este candidato obteve nos seus negócios empresariais procedeu de famílias de El Salvador (Poma, Dueñas, de Sola y Salaverria) que financiaram as milícias paramilitares que impuseram um enorme terror naquele país, responsáveis pelo assassinato de 35 mil salvadorenhos no período de 1979-1984. Foi em 1984, quando estas famílias conheceram o sr. Romney e investiram nas atividades do hoje candidato republicano (ver Sandy Smith-Nonni “Romney’s Blood Money”, Counter Punch. Agosto 24-26 2012). O setor que Romney representa do mundo empresarial dos EUA é o mais reacionário daquele país, hoje centrado no Tea Party.

A situação na Espanha

Uma situação semelhante aparece no governo conservador neoliberal que existe em Espanha, onde há um grande número de empresários privados que estão a transferir, uma vez no governo, políticas claramente derivadas da sua experiência que entram claramente em conflito com o objetivo principal da administração pública, que é o de servir a cidadania. Há muitos exemplos disso. Mas um dos que mais chama a atenção é na saúde, onde, através de uma série de medidas que impõem às comissões administrativas (que gerem a saúde pública), o governo está a empobrecer os serviços públicos, favorecendo os serviços privados, medidas que respondem a um projeto conservador-neoliberal que tem como objetivo o desmantelamento da saúde pública. Nunca antes esse sistema esteve sob tão grande ataque – com perigo de desmantelamento – como agora. Uma das razões dos cortes, que teoricamente são apresentados como necessários para reduzir o défice, é precisamente conseguir tal desmantelamento.

Dir-me-ão, com razão, que o setor público pode e deve aprender do setor privado. Mas este argumento, ainda que válido, é apresentado constantemente como uma justificativa de práticas que, na prática, consistem na introdução de objetivos privados, como a otimização de benefícios empresariais à custa dos objetivos dos serviços públicos, que deveriam sempre ser beneficiar o bem-estar e a qualidade de vida da cidadania.

Publicado no diário digital El Plural, 3 de setembro de 2012

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

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Sobre o/a autor(a)

Catedrático de Ciências Políticas e Sociais, Universidade Pompeu Fabra (Barcelona, Espanha).
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