You are here

EUA: O velho Sul volta ao moderno Partido Republicano

A transformação dos Estados Unidos de uma nação de maioria branca num país multirracial que já não está destinado a manter a sua hegemonia mundial, acrescida por uma intratável recessão que tem as suas raízes numa crise do capitalismo, esta mudança de época convocou as sombras do ressentimento racial. Artigo de Harold Meyerson.
Atrás de toda a retórica autojustificativa, resta um Partido Republicano cujo credo existencial é: “Somos velhos, somos brancos e queremos que nos devolvam o nosso país”. Candidatos republicanos a presidente e vice-presidente dos EUA nas eleições de 2012

Os candidatos republicanos podem fazer os seus discursos a partir de Massachusetts e Wisconsin, mas Mitt Romney e Paul Ryan encabeçam o partido político norte-americano mais sulista desde os dias de Jefferson Davis (presidente da Confederação esclavagista e separatista que provocou a guerra civil entre 1861 e 1865). Na sua hostilidade contra as minorias, a exploração do racismo, a antipatia frente ao governo e a suspeição sobre a ciência, o Partido Republicano de hoje representa as piores tradições dos pântanos mais frios e húmidos do Sul.

Nenhum outro partido deu um tal giro de 180º na história norte-americana. Fundado como partido do Norte antiesclavagista e comprometido com a implicação profunda do governo em incentivar a economia (cedência de terrenos a universidades; a Homestead Act, lei de concessão de terras para o seu cultivo, de 1862; a ferrovia transcontinental), o GOP (Grand Old Party, apelido habitual do Partido Republicano) de hoje é a negação dos republicanos de Abraham Lincoln. É quase inteiramente branco: cerca de 92% comparado a 58% entre os democratss. E é desproporcionalmente sulista: cerca de 49% dos republicanos vivem no sul, contra 39% dos democratas.

As crenças e valores do Sul branco dominam o pensamento republicano. Conforme diminui a parte branca da população norte-americana e aumenta o número de latinos, os republicanos aprovaram leis draconianas contra a imigração e opuseram-se a uma legislação que permitia aos imigrantes que chegaram aos EUA quando crianças conseguir um estatuto legal. Além disso, exploram os ressentimentos legais de um modo que não se via desde o anúncio de Willie Horton em 19881. Veja-se a campanha de anúncios comerciais de Romney que atacam falsamente o presidente Obama. “Com o plano de Obama, não seria preciso trabalhar nem preparar-se para um emprego”, proclama um desses anúncios. “Mandam-te simplesmente um cheque de assistência social”. O plano de Obama, como informaram os observadores dos meios de informação que comprovam os factos, não supõe nada parecido.

O anúncio tenta ressuscitar claramente o tipo de ressentimento dirigido contra os afroamericanos que o GOP explorava naqueles dias em que a assistência social representava um programa de envergadura. A campanha de Romney chegou evidentemente à conclusão, posto que toda a sua base de eleitores potenciais é branca, que deve motivar com esses recursos aqueles que entre eles votam às vezes, o que explica por que estão a divulgar estes anúncios mais do que quaisquer outros.

Na coluna anti-governamental, o orçamento desenhado por Ryan, que os republicanos da Câmara adotaram de modo entusiasmado, cortaria desproporcionalmente os impostos dos ricos e reduziria a metade a parte da despesa correspondente a todos os programas internos. Isso dizimaria a educação, o transporte, o financiamento de estudantes universitários e a investigação científica. Levaria o país aos níveis de desenvolvimento dos Estados do Sul de antigamente, contrários aos impostos e ao investimento público.

Os fantasmas de Dixie (nome popular do velho Sul) – do julgamento de Scopes (julgamento de um professor, em 1925, que ensinava a Teoria da Evolução no Tennessee) e da falta de financiamento da educação pública – aparecem também na premeditada resistência dos republicanos à ciência e, de modo mais amplo, ao simples empirismo. Aquecimento global? Evolução? Causas da homossexualidade? Como são feitas as crianças? Busque uma sólida conclusão científica e encontrará um importante número de republicanos – carregados de pseudociência e fé – que se opõe a ela.

O que é notável não é que um número significativo de republicanos albergue estas crenças, mas sim que elas tenham acabado por dominar o partido. Os políticos veteranos do GOP mais pluralista que ainda existia até bem pouco tempo, entre eles Orrin Hatch e o próprio Romney, tiveram que renegar o seu passado assim como os “apparatchik” comunistas durante a Revolução Cultural. Um empirista? Eu não, tio.

Mas como aconteceu que o Sul tenha chegado ao Norte, no Partido Republicano de hoje? O facto de que Barack Obama seja o nosso primeiro presidente negro coincide com a transformação dos Estados Unidos de uma nação de maioria branca num país multirracial que já não está destinado a manter a sua hegemonia mundial. Acrescida por uma intratável recessão que tem as suas raízes numa crise do capitalismo, esta mudança de época convocou as sombras do ressentimento racial. Tanto quanto os republicanos possam pintar o governo como servidor desta América não branca em ascensão (precisamente o propósito dos anúncios de Romney), a antipatia do Sul em relação ao governo pode encontrar um público recetivo noutras regiões.

Esta transformação do Partido Republicano também foi estimulada pela “sulistização” da economia. O setor dominante da economia norte-americana já não é o da manufatura sindicalizada do Nordeste e Midwest, entre cujos dirigentes se encontravam republicanos moderados como George Romney (pai de Mitt) e cujos empregados brancos das classes trabalhadoras persuadiam os seus sindicatos para que apoiassem candidatos democratas. Pelo contrário, a economia está dominada por uma mistura de setores de baixo rendimento, pequeno comércio não sindicalizado e serviços, e pela alta finança, que se mostrou ferozmente opositora à regulamentação fiscal, disposta a proteger os seus lucros no estrangeiro à custa dos trabalhadores norte-americanos e a investir pesadamente num partido que defende esses interesses.

Esse partido é o que se reuniu em Tampa na semana passada. Atrás de toda essa retórica autojustificativa, resta um Partido Republicano cujo credo existencial é: “Somos velhos, somos brancos e queremos que nos devolvam o nosso país”. O resto, como dizem os sábios, é conversa fiada.

Artigo de Harold Meyerson2, publicado em The Washington Post. Tradução de Katarina Peixoto a partir da versão em espanhol publicada em SinPermiso, para Carta Maior.


1 O anúncio em questão comparava a atitude sobre a delinquência dos dois candidatos às eleições presidenciais de 1988, George H. Bush (pai) e Michael Dukakis, apresentando desfavoravelmente Dukakis, governador de Massachusetts, por supostamente querer conceder liberdade provisória, aos finais de semana a Willie Horton, condenado a prisão perpétua pelo assassinato de um menino durante um assalto.

2 Harold Meyersoné colunista do The Washington Poste editor geral da revista The American Prospect.Vice-presidente do Comité Político Nacional de “Democratic Socialists of America” e, segundo a sua definição, “um dos dois socialistas que podem ser encontrados a caminhar por Washington”.

Artigos relacionados: 

Termos relacionados Internacional
(...)