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Pussy Riot - Sem medo do medo

O estado de direito não existe na Rússia, quando um tribunal decreta esta sentença ou quando um outro proíbe por 100 anos as paradas LGBT.

O poder instalado no Kremlin aproxima-se cada vez mais de um fascismo. Para além da corrupção e do nepotismo, a concentração e a centralização do poder assumem proporções próprias das ditaduras. Eu sei que a oposição não é brilhante: entre um partido comunista enfraquecido, esclerosado e descaracterizado e os liberais cleptocratas herdeiros de Ieltsin, existe ainda pouca afirmação de uma sociedade civil independente dos poderes económicos e capaz de rejeitar tanto a via selvática de um capitalismo de abutres que despedaçam os bens públicos ou de um autoritarismo de estado sem ideologia que não seja a da sua própria perpetuação.

Pouco sei sobre os antecedentes e o enquadramento cultural e ideológico do colectivo punk e feminista Pussy Riot, mas confesso a minha admiração e respeito por estas mulheres corajosas, condenadas a dois anos de cadeia por hooliganismo e “incitação à raiva religiosa” e presas num estabelecimento onde são humilhadas e mal-tratadas, trazendo ao de cima a cultura goulag de encarceramento. Convém lembrar, aliás, que mais de 47 mil mulheres russas estão presas nesta espécie de campos.

O estado de direito não existe na Rússia, quando um tribunal decreta esta sentença ou quando um outro proíbe por 100 anos as paradas LGBT. Afrontar o todo-poderoso Putin ou a sacrossanta igreja ortodoxa, aliados num caldo de nacionalismo bafiento, é considerado um crime contra a sociedade, mas a repressão às liberdades é feita pelos próprios tribunais!

Mulheres corajosas e solidárias, firmes perante a sentença e perante poderes que, na verdade, demonstram apenas os seus pés de barro, as Pussy Riot mostraram-nos que já não têm medo do medo.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário, Presidente da Associação Portuguesa de Sociologia. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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