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"Fazer alguma coisa" na Síria

A urgência de fazer alguma coisa tem décadas de resultados desastrosos.

A história recente do Médio Oriente é a história da falência dos impérios naquela região e a da glória e miséria da implantação do Estado moderno, laico e nacionalista por elites locais. Foi assim nos despojos do império britânico (Arábia Saudita, Iraque, Palestina) e do império francês (Líbano e Síria). Em todos estes lugares, os mandatos da Sociedade das Nações deram lugar a nacionalismos modernizadores que invariavelmente se tornaram em ditaduras sangrentas que agora explodem sob a pressão incontível das lutas pela democracia.

A Síria é um caso típico desta trajetória. Ali, o nacionalismo secular, protagonizado pelo Partido Ba'ath, degenerou em controlo dinástico pela minoria alauita e em todas as perversões das mais estúpidas ditaduras. O apoio de Moscovo antes e a sedução dos Estados Unidos depois (a Síria chegou a ser um dos entrepostos de sub-contratação de tortura durante a "guerra contra o terrorismo") adiaram o inadiável: a implosão da ditadura e a emergência de revoltas pela democracia.

Aqui chegados, há duas observações a fazer. A primeira é a de que a História não é uma realidade a preto e branco. É um embuste a sua apresentação como enfrentamento entre anjos e patifes. Uma análise séria exige que se reconheça que o regime de Damasco é odioso - e que as revoltas populares não são um mero complot fabricado na Virgínia - mas exige também que não se oculte que "a oposição" está longe de ser a expressão da virtude. O Observatório Sírio de Direitos Humanos, citado como "fonte credível" das chacinas, é uma pessoa (Rami Abdulrahman) que vive em Coventry. Os principais dirigentes do Conselho Nacional Sírio são membros de think tanks conservadores norte-americanos como o Council on Foreign Relations ou a Henry Jackson Society. Retira isto legitimidade à luta dos sírios pela democracia? Nenhuma. Mas põe em evidência as estratégias de infantilização que pintam às opiniões públicas a guerra na Síria como algo entre imaculados e satânicos para delas obter reações emocionais.

E entra aqui a segunda observação. Lembram-se da Líbia? Lembram-se dos relatos diários de massacres sempre mais sangrentos e com mais vítimas indefesas, incluindo, como é da praxe comunicacional, "mulheres e crianças"? Deram-se conta de que, no momento em que começou a intervenção da NATO, a contagem de vítimas foi substituída por relatos asséticos da sucessão de tomada de localidades pelos rebeldes? Deram-se conta de que as imagens de mortos foram substituídas por mapas e imagens aéreas sempre sem vítimas (salvo a meia dúzia de "colaterais" para dar mais credibilidade à coisa)? Lembremo-nos então de tudo isso quando agora nos falam de novo em chacinas unilaterais e nos dizem: "Alguma coisa tem de ser feita", que é uma forma moralizada de dizer "tem de haver uma intervenção armada contra uns e a favor dos outros".

Dir-nos-ão que não podemos permitir que os sírios sejam vítimas do bloqueamento da resposta por causa dos vetos chinês e russo na ONU. Lembremos-lhes então os povos da Palestina ou do Sahara Ocidental e de como têm sido vítimas de décadas de vetos dos mesmos que agora rasgam as vestes pela "urgência humanitária" na Síria.

O apelo à nossa melhor humanidade, àquela que se materializa em solidariedade sem fronteiras, não pode ser um apelo a que abdiquemos da inteligência. E a inteligência obriga-nos a levar em conta dois dados essenciais. Primeiro, que as revoltas democráticas no mundo árabe foram sequestradas pelos jogos geopolíticos: na guerra síria joga-se porventura menos a democracia do que a fragilização do Irão por Israel e pela Arábia Saudita. Segundo, que a urgência de fazer alguma coisa tem décadas de resultados desastrosos, armando até aos dentes os aliados de agora que serão os patifes de amanhã.

Artigo publicado no jornal "Diário de Notícias" a 3 de agosto de 2012

Sobre o/a autor(a)

Professor Universitário. Dirigente do Bloco de Esquerda
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